5 de abril de 2020

Ensino à Distância continuará a ser um verdadeiro desafio social

 
Estamos preparados para o ensino à distância? Não, estamos numa fase de preparação e de adaptação preliminar, assumindo esta medida um caráter excecional, na salvaguarda da vida humana. Em tempos em que é necessário distinguir o essencial do acessório, esta modalidade de ensino resulta da necessidade de atenuar o impacto negativo deste vírus, também, na aprendizagem das nossas crianças. 
Em primeira instância, a falta de recursos digitais assume-se como uma primeira e grande preocupação! Estarão as nossas casas equipadas com os petrechos digitais necessários? Algumas sim, outras não, inevitavelmente, com maior inexistência de tais equipamentos nos contextos socioeconómicos mais desfavorecidos. Daí a obrigação das escolas realizarem uma recolha de dados, bem como equacionarem outros meios audiovisuais de maior probabilidade de acessibilidade por parte dos pais, de forma a não acentuarmos as conhecidas desigualdades sociais. Ultrapassada esta preocupação, emerge a inquietação com o modo de operacionalização deste ensino, principalmente, junto das crianças de tenra idade, assumindo-se, obviamente, a questão da autonomia determinante da concessão de um maior ou menor apoio ministrado pelos encarregados de educação, no decurso deste processo de ensino e de aprendizagem. Estarão todas as crianças preparadas para o manuseamento de tais equipamentos? Não! Os encarregados de educação estarão preparados para o efeito? Claro que não! E por conseguinte, os professores estarão devidamente familiarizados com esta forma de ministrar o ensino? Obviamente que não! 
Neste panorama, ressalta-nos à vista outros desassossegos específicos: os constrangimentos associados aos agregados familiares numerosos e à falta de condições habitacionais que podem perturbar a necessidade de um ambiente favorável à aprendizagem; o teletrabalho levado a cabo pelos pais, aliado a outras preocupações, tais como de pendor económico, que exigem o estabelecimento de horários específicos dedicados à orientação, de acordo com uma flexibilização na estipulação de horários entre as entidades patronais e as instituições escolares. Importa ainda não esquecer um envolvimento na discussão e na orientação necessárias entre os encarregados de educação, os professores, os educadores, os psicólogos, os terapeutas, os presidentes de junta de freguesia e de câmaras municipais, entre outros intervenientes, para enfrentar obstáculos mais acentuados que poderão surgir na educação pré-escolar, no primeiro ciclo do ensino básico, no desenvolvimento de atividades junto das crianças e jovens com necessidades educativas especiais, na medida em que são espaços educativos privilegiados de diferenciação, de orientação e de socialização. 
    Nesta fase adaptativa, também para os professores, com novos constrangimentos a ultrapassar que se avizinham, um ensino à distância será equivalente a um ensino presencial? Inexoravelmente, a figura presencial do professor é insubstituível não só no domínio cognitivo (saber-saber), mas fundamentalmente nos domínios afetivo (saber estar, ser e atitudes) e psicomotor (saber-fazer). Contudo, neste tempo em que vivemos, mais do que ferramentas ao serviço do ensino, são o único mecanismo de acesso a um professor distante e limitado na sua ação educativa holística, ao abrigo de uma função quase meramente instrutiva.
Numa esfera de entendimento social, onde se projetam novos desempregados com obrigações parentais mais participadas, tenho a certeza que os professores farão o seu melhor não para ocupar o tempo das crianças e jovens em casa, mas sim para efetivamente desenvolver aprendizagens, na medida do que é verdadeiramente possível, mediante a análise de cada caso específico, o apuramento e a superação de obstáculos que possam interferir na aquisição de mais e melhores aprendizagens. Convém, também, atender a comportamentos advenientes de crianças e jovens em confinamento, bem como continuar a redefinir todos os calendários letivos, numa assunção de que o ensino à distância continuará a ser um verdadeiro desafio social.    

Nelson Soares

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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