Rui Anjos afirma que as medidas do Governo dos Açores para travar o desemprego “são ineficazes”

 Correios dos Açores – Os restaurantes dos estão praticamente todos encerrados…
Rui Anjos (Delegação nos Açores da AHRESP - Associação de Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal) - Sim, é um encerramento total. Este foi o meu conselho em prol da saúde pública. Sei que não é politicamente correcto dizer isso mas, pelo andar desta pandemia, a nossa economia vai parar. Toda e qualquer contenção que se fizer neste momento, fará alguma diferença mais à frente.  

Está a dizer que, quanto mais cedo fecharem os restaurantes, melhor estarão numa retoma económica futura?
O que está a dizer é cada vez mais óbvio. E eu temo que tenhamos de caminhar de evidência em evidência até à certeza total. A manter-se este ritmo da pandemia, a nossa economia vai mesmo parar quase totalmente. Cada movimento que tenhamos que dar é cada vez mais complicado. E, para mim, é mais do que óbvio que é preciso parar.
Lanço um alerta às pessoas para não recorrerem ao catering porque este serviço acarreta um custo acrescido. E, pelo que prevejo, brevemente tudo se vai complicar ainda mais.

Está a alertar as pessoas para não fazerem encomendas nos restaurantes que se disponibilizam para ir levar as refeições a casa?
Esta é uma atitude consciente. Toda a poupança que se fizer neste momento vai fazer a diferença no futuro. 
É certo que, enquanto defensor de uma classe (os proprietários dos restaurantes), devia estar a dizer o contrário do que estou a afirmar. Mas, enquanto cidadão atento e honesto, devo dizer aos consumidores que não façam isto porque acarreta um custo acrescido. 
É tempo de as pessoas se virarem para as sopas, para as hortícolas, para as frutícolas e para bons hábitos alimentares.

Nenhum dos seus oito restaurantes estão a prestar serviço de catering?...
Não. E mesmo que estivesse já tinha parado há uns dias atrás. A prestação deste serviço não faz sentido nenhum. E evoco, principalmente, dois motivos: um tem a ver com a saúde pública pois entendo que devemos ser todos estátuas. A situação de saúde é muito grave e devem ser adoptadas rigorosas medidas de contenção; e outro motivo é o custo a que a refeição chega a casa do cliente, dinheiro que ele pode vir a necessitar mais à frente.

Este é um incentivo para que as pessoas ficarem em casa…
Sim, eu penso que isto é mais do que óbvio. E, em cada dia que passa, esta necessidade é mais evidente. 

Comunga da opinião do médico Duarte Viveiros, quando afirma que há açorianos com “uma falsa sensação de segurança”?
Está a questionar-me sobre a normalidade com que muitos açorianos ainda olham para esta pandemia. Ora, esta normalidade que ainda se sente na Região é aparente. Sejam lúcidos. 

Estará a incentivar que as pessoas regressem aos seus quintais?
(sorriso) Julgo que sim. Julgo que o futuro vai passar por cultivar os quintais e criar um maior espírito comunitário que se vinha perdendo.

Está a prepara-se para viver esta crise até que mês?
A situação está a evoluir de dia para dia e sempre para pior. Eu sei o que farei mas só o vou comunicar aos funcionários dos meus oito espaços comerciais no dia 31 de Março. Eu quero o bem deles e das suas famílias. Até lá não anunciarei a minha decisão. Mas, sei exactamente o que vou fazer, como já o sabia há uma semana.

Já teve oportunidade de analisar as medidas adoptadas pelo Governo. Estas medidas são suficientes para as empresas de restauração fazerem face à crise gerada pela pandemia do Covid-19?
São medidas para mitigar a crise. Mas, nada de ilusões: Como afirmou o senhor Primeiro-Ministro, vamos viver uma crise profunda. E um dos cenários previsíveis é dantesco.

As medidas decididas pelo Governo dos Açores de apoio ao emprego vão resolver a situações dos empregados dos restaurantes que fecharam? A AICOPA – Associação de Industriais de Construção Civil já veio dizer que é irrealista definir apoios às empresas sob a condição de não despedir quaisquer trabalhadores até ao final do ano. Qual a sua opinião?
Reforço o que disse há pouco. A situação é de tal forma profunda a nível global que a economia praticamente vai parar. Obviamente que a crise vai-se reflectir nos Açores. E devíamos ser um exemplo para o mundo, por antecipação, corrigindo uma série de erros que foram cometidos lá atrás, agora não interessa porquê. Mas, desde já, é preciso ter a noção que a situação vai ser muito grave, muito profunda e todas as previsões indicam que vai prolongar-se no tempo.
A situação está a “arder” devagar. A onda de choque está a chegar mais tardiamente aos Açores. Olhemos para Espanha, onde a situação já “arde” há um mês. Em Itália a situação está a “arder” um pouco mais atrás no tempo e ainda hoje continua a “arder” bastante. Dentro de um mês é que estaremos a atingir o ponto mais alto da pandemia na Região. Para lá iremos.

É apologista de uma contenção  mais rigorosa hoje para que, dentro de um mês, não se esteja pior do que se poderá estar?
Claramente. Quando a casa do vizinho começou a arder, pensávamos que o incêndio não chegaria cá. Tínhamos uma fronteira forte e robusta pela qual alguns entendiam que o vírus não passaria. E até se poderia estar a pensar que éramos diferentes dos outros. E a verdade é que começou na Ásia, está na Europa e, neste momento, o incêndio alastra nos Estados Unidos. E não estejamos iludidos: Estas são as três grandes potências e os efeitos na economia mundial serão nefastos. 

Vai concorrer às medidas do Governo dos Açores de apoio à manutenção do emprego?
Considero que as medidas anunciadas são ineficazes para a dimensão que a pandemia vai tomar. O tempo o dirá. Espero não ter razão, mas estou convicto do que estou a dizer.
Entendo que as empresas se vão reinventar lá mais para a frente. Mas, neste momento, a restauração, a hotelaria e todos os serviços que vivem do turismo ficarão sem qualquer actividade. Vai estar tudo parado. Isto, para mim, é mais do que evidente. Estou sempre disponível para contribuir para uma sociedade melhor. E darei, para isso, tudo o que estiver ao meu alcance e sempre que for chamado. 

Qual a sua opinião sobre a decisão do Governo dos Açores, não acatada pela República, de fechar os aeroportos da Região?
A decisão de parar os aviões do Grupo SATA só pecou por tardia. E o eventual fecho do espaço aéreo da Região mais lá para a frente será uma decisão tomada muito tardiamente. 
Mas, estamos ainda a tempo de ser um exemplo para o mundo e dar a volta por cima. Corrigindo erros que se cometeram e tomando as decisões certas com vontade e com garra.

Está a evidenciar algum pessimismo e desalento…
Eu sou católico e acredito. Eu sou uma pessoa de garra e de genica. Mas sou rigoroso no meu pensamento. O meu dia-a-dia é gerir empresas. Temos de ser taxativos, directos, simples e, principalmente, interpretar o futuro que aí vem. 
Há algum tempo atrás, já antevia o que se está a passar nos Açores. Basta seguir as notícias e procuro ser uma pessoa informada.
E queria deixar uma palavra de conforto. No final desta pandemia, a humanidade vai ser muito diferente. Vamos ser mais tolerantes. E só desejo é que, neste quadro, os Açores sejam um exemplo para o mundo.
                                                    

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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