25 de março de 2020

Medicamentos não prescritos pelo médico: Problemas de escolha e de segurança

Os medicamentos que podem ser comprados sem receita médica são substâncias destinadas a tratar os chamados mal-estares ligeiros, aliviam as queixas e são utilizados em automedicação. Mas são medicamentos como todos os outros, envolvem riscos, devem ser administrados com conselho, não devem mascarar doenças graves, os utentes devem estar, em todas as circunstâncias informados de que há problemas de escolha e segurança, não podem ser dispensados indiscriminadamente, a sua escolha tem critérios e depende de outros medicamentos que o doente esteja a tomar, por exemplo.
Nada como observar de perto algumas situações do quotidiano para nos apercebermos como a escolha deve ser acompanhada por um profissional de saúde e como o doente deve assumir uma postura de diálogo responsável. Comecemos por os medicamentos destinados ao alívio da congestão nasal e da azia e dores de estômago ocasionais, referindo os cuidados que cada um dos princípios ativos exige.
Fenilpropanolamina: encontra-se em diferentes marcas utilizadas na constipação para aliviar a congestão nasal. É uma substância que não deve ser usada por hipertensos, pessoas com o ritmo cardíaco acelerado, com enfarte do miocárdio recente, irá agravar qualquer um destes tipos de doenças. Sabe-se hoje que pode provocar ainda hemorragias cerebrais se usada por muito tempo, em doses altas ou por pessoas sensíveis, designadamente hipertensos.
Pseudoefedrina: encontra-se igualmente em várias marcas utilizadas na constipação. Destina-se a aliviar a congestão nasal. Esta substância não deve ser usada por pessoas como os hipertensos, pessoas com o ritmo cardíaco acelerado ou com enfarte do miocárdio recente, pode agravar estas doenças e descompensar de tal forma que ocasiona problemas cardíacos graves. 
Hidróxido de magnésio: é uma substância que se encontra em muitos medicamentos para alívio da azia e dores de estômago ocasionais. Recomenda-se o seu uso em associação porque isoladamente ocasiona diarreia. O magnésio não pode ser tomado por doentes com insuficiência renal dado que se acumula e é muito tóxico. A redução da função renal dos idosos, doentes cardíacos, desidratados e outros, também levam a recomendar a não utilização desta substância. Também não podes ser tomada juntamente com outros medicamentos, como sejam alguns antibióticos, por reduz em muito a sua ação dificultando o tratamento das infeções. 
Hidróxido de alumínio ou outros sais de alumínio: é uma substância que se encontra em muitos medicamentos para alívio da azia e dores de estômago ocasionais. Recomenda-se o seu uso em associação porque isoladamente ocasiona obstipação. O alumínio reduz significativamente a absorção de muitos medicamentos, designadamente antibióticos e antifúngicos reduzindo a sua atividade no tratamento das infeções.
Bicarbonato de sódio ou outros sais de sódio: trata-se de uma substância que se encontra em muitos medicamentos para alívio da azia e dores de estômago ocasionais. O seu uso isoladamente ou em associação deve ser cauteloso e não se deve utilizar em doentes que fazem restrição ao sal. Este antiácido reduz a absorção de medicamentos, designadamente antibiótico e antifúngicos, diminuindo a sua atividade na resolução de uma infeção
Carbonato de cálcio: como antiácido, é uma substância que se encontra em muitos medicamentos para alívio da azia e dores de estômago ocasionais. Recomenda-se o seu uso em associação, visto que quando utilizado isoladamente pode ocasionar obstipação. Estes antiácidos podem reduzir a absorção de muitos medicamentos, designadamente antibióticos e antifúngicos, dificultando a sua atividade na resolução de infeções. Acresce ainda o facto de não deverem ser tomados por doentes com litíase renal cálcica, porque aumenta o risco de “pedras nos rins”.
O que se acaba de ver para o alívio da congestão nasal e da azia e dores de estômago ocasionais podia ser multiplicado para os analgésicos, laxantes, antitússicos e expetorantes ou até mesmo a contraceção de emergência. Isto para realçar que a escolha de um medicamento é personalizada, obriga a escolher o melhor para cada doente, conforme os sintomas. A escolha deve ter por base a idade do doente, o seu estado (gravidez, amamentação), existência de outras doenças (hipertensão, diabetes, doença do coração, asma, doença do sangue, doença do estômago, intestinos, fígado, hipertrofia da próstata, glaucoma, etc.), tipo de queixas, sua duração e gravidade. A escolha depende ainda de outros medicamentos que o doente esteja a tomar porque há sempre o risco de aumento de toxicidade ou redução da eficácia, quando se tomam dois medicamentos. 
Recorde-se que há nomes de medicamentos que podem dar a ideia que estão indicados para uma dada situação embora a sua composição só permita aliviar alguns sintomas, que muitas vezes podem não existir. Outros, pelo seu nome parecem naturais, o que de facto não sucede, não são nada inócuos.
Não há nada que substituía o aconselhamento farmacêutico, este profissional é um técnico do medicamento e até pode descobrir que o doente deve ir imediatamente ao médico. 
 

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Categorias: Opinião

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