Na Urzelina, na ilha de São Jorge, fica o “Retiro do Atlântico”

Jovens criam espaço turístico para campismo de luxo em quinta biológica com 2500 variedades de plantas

Correio dos Açores: Conte-nos como surgiu a ideia de se instalarem na ilha de São Jorge e criar o Retiro do Atlântico? Como pensaram aliar o campismo de luxo (glamping) ao conforto?
Natacha Moitinho: O meu marido Hugo é natural da Ilha de São Jorge e eu tenho aqui raízes maternas. Ambos adoramos a ilha e o seu estilo de vida. Por outro lado também existia um eucaliptal na família do Hugo há cinco gerações. 
Vivemos aqui desde 2012 tendo começado por construir uma quinta biológica. Apercebemo-nos, contudo, que  este negócio não seria suficiente para o nosso sustento. Surgiu, então, a ideia de criar um alojamento em que a ligação com a natureza estivesse bem presente, pois era o que fazia mais sentido para nós. Para além disso, pretendíamos oferecer  uma estadia com todo o conforto e elegância. 
O Retiro Atlântico abriu em Agosto de 2019 como um glamping constituído por 4 tendas yurt. 
Cada yurt dispõe de uma confortável cama e decoração única, em que o rústico contrasta com o sofisticado, e casa de banho privativa situada no exterior, a poucos metros. Ao pequeno-almoço os hóspedes podem ainda deliciar-se com os produtos da quinta, sempre que disponíveis, enquanto se maravilham com a vista para a montanha do Pico.

É uma quinta biológica certificada. Construíram tendas circulares usadas tradicionalmente pelos pastores nómadas da Mongólia, como existe já em vários pontos de Portugal continental. 
Sim, somos certificados desde 2014. O Hugo é um apaixonado por plantas e é especialista em permacultura. Temos cerca de 2500 variedades de plantas no nosso empreendimento, incluindo uma colecção de frutíferas tropicais raras de todo o mundo e que fazem sensação junto dos(as) nossos (as) hóspedes. 
Este é o primeiro glamping na ilha de São Jorge e o segundo nos Açores. 

Quais os materiais usados nos espaços? 
As nossas yurts são constituídas por madeira de castanho na sua estrutura e três camadas distintas de tecido para garantir o isolamento térmico e a sua impermeabiidade. 
Foram também criadas zonas ajardinadas à volta das tendas e das respectivas casas de banho.
O que difere do turismo tradicional e o que oferece aos visitantes?
Ao contrário do turismo tradicional aqui oferecemos uma forte ligação à natureza. O nosso glamping situa-se entre o mar e a floresta, o que significa acordar ao som dos passarinhos e abrir a janela para se deliciar com a vista magnífica para a montanha do Pico e o nosso jardim tropical sem esquecer, claro, a nossa quinta biológica. 
Para além disso, o Hugo é guia turístico e poderá prestar esse serviço. 
Já eu como health coach faço workshops de alimentação saudável e sessões de aconselhamento.

Mesmo com este design, mantém a identidade, cultura e tradição da zona?
Tivemos isso em atenção quando escolhemos as nossas tendas yurt. Tirando o seu design estas não têm nenhum tipo de decoração alusiva à cultura mongol. As yurts são simples e a sua cor castanha enquadra-se perfeitamente com a natureza. 

Têm preocupação de promover a alimentação saudável, sazonal e sustentável?
Sim, sem dúvida. Como health coach promovo a adopção de uma alimentação e de um estilo de vida mais saudável através do meu livro Voltar ao Natural, workshops, sessões de aconselhamento e blog. A mensagem que passo é a da importância de consumirmos mais fruta e vegetais, essenciais ao nosso organismo, e é isso que cultivamos aqui na quinta. Como disse anteriormente utilizamos ao pequeno-almoço os nossos produtos da época e todo o desperdício é direccionado para a nossa composteira. Mais tarde, esse produto final - o composto - irá alimentar as frutíferas e vegetais num ciclo fechado.

Fala-se muito em sustentabilidade da actividade turística no país. Acha que São Jorge está preparado para continuar a crescer no turismo? Como vê o número de ligações aéreas com a ilha, é suficiente?
O facto de estarmos mais isolados ao não termos, por exemplo, um aeroporto protege-nos do turismo de massas algo que não precisamos. Mas precisamos de mais turismo para a economia da ilha, sem dúvida, um turismo consciente, amigo do ambiente. 

As ligações marítimas podem potenciar o crescimento interno? É uma possibilidade para o vosso espaço?
Sem dúvida. As ligações marítimas são fundamentais, nomeadamente para a comunicação entre as diferentes ilhas do triângulo. Mas precisamos que os/as turistas não venham aqui apenas passar o dia e partir. Precisamos que durmam em São Jorge e conheçam melhor esta ilha que tem tanto para oferecer. E, claro, havendo mais turistas e mais procura do nosso glamping fará todo o sentido aumentar o número de yurts. De qualquer forma pretendemos que este espaço seja sempre um lugar mais intimista e acolhedor e esse aumento nunca iria pôr em causa esse ambiente. 

Que papel é atribuído à gastronomia para o turismo em São Jorge? Estão preparados ao nível da restauração para um aumento do turismo?
O queijo de São Jorge tem prestígio internacional e é um dos atractivos desta ilha sendo possível fazer visitas guiadas à fábrica do queijo. Mas é também importante não esquecer as espécies, um doce tradicional de São Jorge que se destaca pelas especiarias usadas na sua confecção, as amêijoas grandes e deliciosas da Fajã de Santo Cristo, as conservas de atum Santa Catarina cujo atum é apanhado de forma sustentável e é considerado produto gourmet tendo já recebido inúmeros prémios e, claro, o café, pois na Fajã dos Vimes localiza-se a única plantação de café da Europa. Para além disso, há a destacar as sopas do Espírito Santo, uma tradição gastronómica que em São Jorge é aberta a todas as pessoas.

Em termos de restauração, só aqui perto do nosso glamping há quatro restaurantes e muitos outros se podem encontrar ao longo da ilha. De qualquer forma, os/as nossos/as hóspedes têm sempre a opção de cozinharem as suas próprias refeições na nossa cozinha comunitária. 
 
Ao nível dos recursos humanos é fácil encontrar profissionais para esta área?
Não temos experiência pessoal, pois só eu e o Hugo trabalhamos aqui. No entanto, o que ouço dizer é que é muito difícil encontrar pessoas para trabalhar nesta área. 
Quais os desafios no vosso dia-a-dia e no seu desenvolvimento turístico da ilha?
O nosso principal desafio não é tanto do dia-a-dia, mas sim o de conseguirmos ter turistas ao longo do ano e não apenas na época alta. Também é importante mudar a ideia de que “não há nada para fazer em São Jorge”. Sim, isso é verdade para quem procura um meio urbano e saídas à noite. No entanto, para amantes da natureza é uma ilha ideal com muito para conhecer como as suas inúmeras fajãs (são mais de 70!), lindos trilhos a percorrer com destaque para o trilho Topo-Fajã de Santo Cristo, a Poça de Simão Dias, os parques florestais das Sete Fontes e da Silveira e a plantação de café na Fajã dos Vimes como tinha referido anteriormente. Para quem gosta de desporto aventura encontra aqui muitas opções como canyoning, rappel, escalada, mergulho ou kayak, sem esquecer que São Jorge é um local também bastante procurado para a prática de surf. 

Fale-nos um pouco dos mentores deste pequeno paraíso?
O meu marido, Hugo Mesquita, é licenciado em Guias da Natureza e especialista em permacultura. A sua paixão pelas plantas motivou-o a construir e desenvolver a quinta biológica. Eu sou licenciada em Comunicação Social e Cultura e mestre em Estudos sobre as Mulheres. Fiz voluntariado na Índia, China e Cabo Verde. Em 2012 segui o meu coração e mudei-me para a Ilha de São Jorge. Sou health coach e autora do livro Voltar ao Natural. 
                         Nélia Câmara
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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