25 de fevereiro de 2020

Temas ao Acaso

Banalização das greves

Desde há alguns anos a esta parte, a população deste país tem sido confrontada com uma série de greves, as quais, têm tornado a vida das pessoas num verdadeiro inferno.
Se as greves feitas em território contínuo, como o rectângulo português, têm efeitos nefastos tanto para as pessoas como para a economia, numa região arquipelágica, como é o nosso caso, os efeitos das ditas atingem outras proporções que, por vezes, podem ser trágicas. 
Como todos sabemos, desde os tribunais à recolha de resíduos urbanos, todos têm feito greves reivindicando os mais diversos direitos.
Fui sempre apologista de que um trabalhador satisfeito tem um índice de produtividade maior do que um que trabalha contrafeito. Porém, há que ter em linha de conta as verdadeiras possibilidades da entidade patronal em satisfazer as reivindicações em jogo.
Para um observador atento, decerto verificará que, muitas das insolvências verificadas no país, se deveram a exigências laborais. Outras, bem pelo contrário, deveram-se a desmandos financeiros praticados pelas gerências e administrações, legitimando assim qualquer greve acontecida na empresa. 
Ora, se no sector privado se passa mais ou menos como acima descrevi, no sector público o caso é diferente. Isto porque os organismos públicos não declaram insolvência; quando muito, são remodelados ou extintos.
O que, presentemente se passa no sector portuário, nomeadamente a greve dos estivadores no porto de Lisboa, sobre a qual a Secretária Regional dos Transportes disse não ir afectar grandemente os Açores, não pode deixar despreocupados os comerciantes e industriais destas ilhas porque, em minha opinião, o que aquela governante afirmou não é verdade. A greve, que ao que parece não será só até ao fim de Março, afectará bastante esta região, e, de modo particular as ilhas mais pequenas.
Por outro lado, a greve às horas extraordinárias em curso em vários portos deste país, nomeadamente o de Ponta Delgada, tem prejudicado as escalas dos navios, com reflexos na economia regional. 
Não é a primeira vez que alerto neste Jornal para a banalização das greves, de modo especial no sector público. Não concebo que, nestes Açores que se diz serem autónomos, se façam greves porque, lá fora, o sindicato X ou Y declarou greve neste ou naquele sector.
Pior. Quando se trata de sectores que “mexem” com a nossa saúde, não concebo como é que, alguém, que ao terminar o seu curso faz juramento no sentido de auxiliar e minimizar a dor alheia, faça greve porque o seu sindicato dirigido por pessoas a oitocentas milhas de distância, assim o ordenou, apesar de não sentirem o mesmo que nós. O resultado, não só das greves como também da falta de pessoal, é que totalizam os tais doze mil açorianos à espera de cirurgia.
Bem. Se os grevistas não recebem salário enquanto estão em greve, muitas vezes feita por dá cá aquela palha, certamente que devem ganhar muito bem, para poderem despender do salário e prebendas anexas, que lhe garantem por o pão na mesa diariamente.
Pese embora eu ser a favor da liberdade sindical, não concebo tomadas de posição (nomeadamente greves) só porque é um direito que assiste ao trabalhador e não se olhar ao contexto envolvente.
Por pensar assim, “condenei”, neste mesmo Jornal, aquando de uma das muitas greves feitas na nossa companhia aérea, um piloto com responsabilidades sindicais disse que, no Dubai, um piloto era muito melhor pago.
É caso para dizer: vai voar para o Dubai!
Num país como o nosso, e, por maior força de razão, na nossa região, não nos podemos comparar com os países ricos que pagam aos seus trabalhadores muito melhor do que nós, a começar pelo ordenado mínimo.
Mais uma vez manifesto que, em minha opinião, a lei da greve tem de ser alterada; alteração que deve garantir aquele direito constitucional mas que impeça a banalização da dita como está acontecendo presentemente.
Quando há, tem de haver para todos, mas quando não há, não pode haver distinções.
P.S. Texto escrito pela antiga grafia.
23FEV2020

 
 

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Categorias: Opinião

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