21 de fevereiro de 2020

Chá da Cesta - 17

III Como seria quanto à produção de chá em Macau?

Há provas suficientes da actividade de produção de chá em Macau, a partir de pouco antes de 1865. Há provas plausíveis, para antes da primeira década do século XIX e, talvez até, de forma ainda especulativa, para uma data anterior, aliás, a exemplo do que se passa em Java e na Índia. Todavia, ao invés da Índia Portuguesa e do Brasil, desconhece-se planos governamentais para o chá de Macau. Porquê? Talvez a explicação possa ser dada pela própria natureza de Macau: ‘Dependendo pouco de directivas exteriores, gerida por uma aristocracia comercial bastante mestiça, a patir de certa altura organizada numa Câmara (…) construiu um lugar político externo à administração do Império Português.’1
O que sabemos? O livro Os Chins de Macau, de Manuel de Castro Sampaio, relativamente a 1867, refere “(…) 14 Fábricas de chá, com 430 empregados (…).”2  Não podemos esquecer o precioso trabalho, de Julho de 1879, de José Alberto Homem da Cunha Corte Real. 3  Fora nomeado secretário-geral do Governo de Macau e de Timor a 6 de Dezembro de 1877. A 22 de Abril de 1883, “deixou o cargo para ser nomeado encarregado de negócios junto das cortes da China, Japão e Sião. Voltando a Portugal, entregou-se, de novo, aos trabalhos jornalísticos. No fim de 1884, foi nomeado cônsul em Marselha, falecendo pouco depois.”4 
Sendo secretário do Governo de Macau e Timor em 1 de Julho de 1879, ao propor alterações a dois artigos da lei (decreto) do comércio e da indústria do chá em Macau, em 27 de Dezembro de 1870, reconhece, sem sombra para dúvidas, a existência de fábricas de chá em Macau anteriores a 27 de Dezembro de 1870.5 Sabemo-lo por uma carta dirigida ao deputado pela Província de Macau. 
Tentemos perceber a situação de Macau à época e tentemos igualmente entender a reação de Macau, para além das primeiras aparências, perante a tentativa bem-sucedida do chá em S. Miguel. Quando Corte Real chega a Macau, ainda decorre a primeira experiência na Ilha com Lau-a-pan e Lau-a-teng, os quais só regressam a Macau em Julho de 1879.
A impressão, em nosso entender, subentendida da missiva, é clara: em defesa dos interesses de Macau, agora que uma ilha perto da metrópole ensaiava com sucesso o fabrico e o cultivo do chá, urgia reanimar a indústria do chá de Macau antes que fosse tarde de mais. Talvez assim se compreenda a razão pela qual os da Ilha tenham recorrido ao Ministro do Reino para recomendar ao governador que diligenciasse no assunto da contratação dos dois chineses. A ser esta hipótese confirmada, acrescenta-se um outro obstáculo à vinda dos Chineses para a ilha de S. Miguel, para além dos catastróficos tufões em Macau e da resistência dos Grémios macaenses.
De forma assaz explícita, a tal missiva dirigida ao deputado pela Província de Macau traça um panorama de Macau de profunda crise económica e demográfica. Vivia-se no rescaldo de dois tufões. A população chinesa, cada vez mais numerosa, dominava quase por completo a economia de Macau e, ao invés, a população portuguesa fugia de lá. Esta carta tem uma intenção explícita: reanimar a indústria do chá em Macau, fonte importantíssima de rendimento local. Para o conseguir, haveria que considerar aspectos tarifários: o chá de Macau, exportado para Portugal, caso fosse transportado em navios nacionais, não deveria pagar tarifas.6

O chá constituía uma importante e fundamental riqueza de Macau, daí que urgia defendê‑la, como se pode ler: (…) Ascende a mais de um milhão de patacas o valor de chá produzido pelas fábricas aqui estabelecidas, além do movimento comercial e de outras indústrias que desta se derivam, e da importância que por conseguinte tem sobre a riqueza particular e pública da colónia e navegação de seus portos.”7

Em 1870 a situação mudara, antes havia transporte directo regular com a Metrópole: 

“(…) Nesse tempo, antes de 1870, vinham aqui navios portugueses buscá-lo para o reino, mas desde aquele ano até hoje nenhum cá voltou nem daqui se fez mais esse comércio directamente com as casas e praças portuguesas, apesar das tentativas de alguns comerciantes.”8 Pior ainda, “(…) a diferença de custo porque os ingleses o levam a Portugal, mesmo depois de ir nacionalizar-se em Inglaterra, é tal que não lhes permite concorrência. O chá é mandado pelos agentes ingleses para Hong-Kong e dali vai (p.11) para os portos de Inglaterra em navios de retorno que o levam por fretes diminutíssimos.”9 Esclarece-se de novo o circuito que leva bens e pessoas de Macau a S. Miguel, passando por Hong-Kong, Londres e Lisboa, antes de chegar à ilha, o que acontece depois de 1870 (dentro do período do chá em S. Miguel). 

Dirigindo-se ao deputado representante de Macau em Lisboa, Corte Real declara que “(…) (p.7) (…) há nesta cidade, uma importante indústria de preparar chá, cuja produção e valor não posso (p.8) determinar com inteira exactidão, porque, não havendo dados oficiais de que lançar mão, como do ordinário sucede, não se presta, a dá-los completos, mormente os Chinas que são desconfiados e supersticiosos.”10 Daqui se depreende que tal indústria estivesse nas mãos de chineses e escapasse, em parte, ao completo controlo das autoridades locais.
O autor testemunha concretamente, após escrupulosa inquirição documental, “(…) a contribuição paga por aqueles estabelecimentos (…), que eram 16 e não 15 somente as fábricas de torrar chá (…).”11 Eis a resposta, esclarece: “recebendo-o em folha, o preparam para os mercados de consumo.”12 Caso nada invulgar, pois fazia-se o mesmo em outros locais, por exemplo, no Japão, como no-lo diz Wenceslau de Moraes em 1905,13 para não falar em muitos locais da própria China. Na década de oitenta do século XIX, temos provas fiáveis da sua existência.
Em 1956, fica-se na dúvida se existiria ou não ainda produção de chá em Macau. Numa comunicação apresentada ao Parlamento Nacional, defende-se que ‘(…) as indústrias de tecidos, esteiras, panchões, fósforos, tabaco, chá, etc., merecem cuidados especiais (…).’14 Em 1967, não eliminando completamente a hipótese de ainda aí existir uma indústria do chá, sugere-se que Macau ‘(…) deve servir de entreposto à colocação de géneros, como o café de Angola, ou até o chá de Moçambique (…).’15 Hoje em dia? Nem recordação existe.
Entre Estufas, Fajã de Baixo, 14 de Fevereiro de 2020


1  Hespanha, Ob, Cit., 2019, pp. 196-197.
2  Figueiredo, Fernando, Os Vectores da Economia, In História dos Portugueses no Extremo Oriente, Direcção de A. H. Oliveira Marques, Macau e Timor. Do Antigo Regime à República 3.º Volume, p.205.
3  Nasceu em Coimbra a 25 de Junho de 1832 e faleceu em Marselha, França, em 1 de Agosto de 1885). Tinha acabado de celebrar 47 anos de idade. Era jornalista, bacharel formado em Direito pela Universidade de Coimbra. Militava no Partido Progressista, o que não é despiciendo para percebermos a sua posição, como tentarei demonstrar. 
4  Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira: Ilustrada com cerca de 15.000 gravuras e 400 estampas a cores, Editorial Enciclopédia, Limitada, Lisboa, Rio de Janeiro, Volume VII, [s/d], pp. 809-810: “Corte Real (José Alberto Homem da Cunha). 
5  Corte Real, José Alberto, O comércio e indústria do chá em Macau e a lei de 27 de Dezembro de 1870, Macau: Typ. Mercantil, 1879
6  Idem, p.13.
7  Idem, p.9.
8  Idem, p.10.
9  Idem, p.10.
10  Idem, pp. 7-8.
11  Idem, p.9.
12  Idem, 1879, p.8.
13  Moraes, Wenceslau de, O Culto do Chá, Padrões Culturais Editora, Lisboa, 2007, p.29.
14  http://debates.parlamento.pt/catalogo/r2/dan/01/06/03/142/1956-04-17/849?q=ch%25C3%25ª1&pPeriodo=r2&pPublicacao=dan&pSerie=01&pLegis=06&pSessao=03
15 http://debates.parlamento.pt/catalogo/r2/dan/01/09/02/077S1/1967-03-08/313?q=ch%25C3%25A1&pOffset=0&pPeriodo=r2&pPublicacao=dan&pSerie=01&pLegis=09&pSessao=02

Mário Moura
 

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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