FACE A FACE!.... com Carlos Morais

Associação de Turismo há 9 meses privada só agora está em condições de alterar modelo de promoção turística da Região

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Carlos Morais (Presidente da Associação de Turismo dos Açores) - Empresário, católico, 57 anos, divorciado pai de 2 filhas e já avô.

Qual o seu percurso de vida no campo académico, profissional e social?
Nunca fui um aluno brilhante, não tenho formação académica, os anos da escola primaria marcaram todo os restantes estudos.
O meu pai era faroleiro e o acesso às escolas era muito penoso no Inverno, tínhamos de caminhar quilómetros a pé debaixo de tempo muito adverso, pelo que ir à escola era um sacrifico para mim. 
Enquanto trabalhador por conta de outrem, sempre fui aplicado e disponível a colaborar com a entidade empregadora. Agora, como empresário, conto com a mesma disponibilidade dos meus colaboradores.
Na parte social, na ilha onde vivo, tenho tentado contribuir dentro daquilo que posso e sei, tendo sido dirigente ainda muito novo da associação e desportos na ilha do Faia e, mais tarde, Presidente do Clube Automóvel do Faial e do Sporting Club da Horta, Academia do Bacalhau bem como da Câmara do Comércio.  

Como se define hoje em termos de acção?
A minha acção hoje na sociedade é muito diminuta em virtude de ter cada vez menos tempo e as exigências serem cada vez maiores. As minhas empresas absorvem a maior parte do tempo.
Participei em alguns grupos de reflexão sobre questões de fundo que têm a ver com a dinâmica da ilha do Faial no sector económico e social. 

Quais as suas responsabilidades actuais?
Hoje tenho 4 empresas em que sou gerente e mais uma em que sou sócio, quase todas elas relacionadas com o turismo. Sendo esta actividade altamente sazonal nas ilhas onde trabalho, tenho responsabilidades acrescidas de quase uma função também social em manter postos de trabalho de Inverno. 

Como descreve a família de hoje e que espaço lhe reserva?
Fui criado num tempo em que a família era o centro da união da base da nossa existência. Hoje ainda cultivo esse espaço. Embora, por vezes, com muita dificuldade de tempo, tento sempre encontrarmo-nos todas as semanas. 

Quais os impactos mais visíveis do desaparecimento da família tradicional?
Hoje em dia, a sociedade evolui muito. A mulher, ao entrar no mercado de trabalho, deixou de existir as famílias numerosas, com os casais cada vez terem menos filhos, não por egoísmo, mas por dificuldades económicas e de tempo e isto leva-nos ao problema que o país e a região têm na questão demográfica.  

Qual a sua opinião sobre a forma como a sociedade está a evoluir na Região Autónoma?
Os Açores de hoje nada têm a ver com o antes de 25 Abril. É preciso, às vezes, recordarmo-nos e fazer chegar a mensagem aos jovens sobre as dificuldades de então.
Com a separação entre Santa Maria e o Corvo de 630 quilómetros não se torna fácil que tenhamos uma evolução social e económica à mesma velocidade em todas as ilhas. A perda constante de população em quase todas elas é um problema muito sério que tem de ser olhado pela classe política com muita preocupação. 

Que importância têm os amigos na sua vida?
Mantenho uma relação de proximidade com eles e partilha de conhecimentos e experiências. Ninguém sabe tudo e é dono da razão. É importante saber ouvir.

Que actividades desenvolve hoje no seu dia-a-dia?
O meu dia começa relativamente cedo e trabalho 10 a 12 horas por dia. Em empresas pequenas como é o caso, ainda sou um pouco à antiga: tenho muita coisa ainda centralizada na minha pessoa.
Ainda faço um pouco de tudo dentro das minhas empresas, mas, como é evidente, a coordenação é que me preocupa no dia-a-dia e tento manter a equipe, que já e grande, sempre motivada.

Que sonhos alimentou em criança?
Sendo ilhéu e sempre vivendo à beira -mar, este faz parte do meu dia-a-dia actual. Mas, fez muito mais parte quando era jovem. Sair pelo mar fora ao encontro do desconhecido ainda hoje é um sonho que alimento e, acima de tudo, de liberdade que é isso que o mar me transmite, embora já tenha feito uma viagem de veleiro da Horta até Vila Moura.

O que mais a incomoda nos outros? E o que mais admira?
A mentira/falsidade. A inteligência e disponibilidade 

Que características mais admira no sexo oposto? 
A sua inteligência, a sua autoestima, colaboradora 

Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição?
Não tenho hábitos de leitura de livros.

Como se relaciona com o manancial de informação que inunda as redes sociais?
Hoje em dia é preciso ter muita atenção às redes sociais, quando são usadas no bom sentido, mas muitas vezes não é o caso, Também aqui existe muita “fake news”. Enquanto marketing digital é extremamente importante. Quem lá não está é como não existisse. As empresas hoje já não são de uma localidade, mas sim de todo o mundo.

Conseguia viver hoje sem telemóvel e internet? Quer explicar?
A velocidade de informação que foi imprimida nos últimos anos com o aparecimento da internet e, mais tarde, associada aos telemóveis, tornou-se impossível não estarmos ligados.
Tornei-me um telemóvel dependente, mas claro que sempre no sentido de resolver situações com a urgência que se impõe nos dias de hoje. Quando lidamos com público é importante dar respostas atempadas e esclarecedores e estas ferramentas ajudam.  

Costuma ler jornais?
Todos os dias leio os jornais da Região.

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Gosto e faço uma viagem de férias no máximo de 10 dias uma vez por ano.
Guadalupe.  

Quais são os seus gostos gastronómicos? E qual é o seu prato preferido?
Sou um apreciador de peixe, cozinhado de todas as formas. Um bom arroz de peixe.

Que noticia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
Sendo de uma ilha mais pequena, a notícia que gostaria de ler é a de que o PIT finalmente seria implementado.

Como vê o fenómeno da pobreza nos Açores?  
Com o evoluir da sociedade, a pobreza é cada vez mais um flagelo, criando grandes disparidades na sociedade e a região não esta fora desta conjuntura. 
O problema, por vezes, é a pobreza escondida a da vergonha. Em sociedades pequenas como a nossa, em que toda a gente se conhece, as pessoas escondem tal situação.
Penso que, se calhar, uma melhor articulação entre associações e departamentos dotados de mais meios técnicos e financeiros poderia colmatar algumas situações, embora também sabemos que, as vezes, não é fácil conseguir que as próprias pessoas mudem a sua situação de vida.

Qual a máxima que o inspira?
Normalmente dedico-me de corpo e alma aos projectos, muitas vezes, mais com o coração do que a razão o que não é bom.

Em que época histórica gostaria de ter vivido? Porquê?
Contemporânea. Embora comece nos finais de século XVIII na revolução francesa, sou mais adepto do actual.

O que pensa da Política? 
No início do século XXI não se pode continuar a fazer política como no século passado.
No meu entender, tem de existir uma maior proximidade entre o eleitor e o eleito e penso que isto, muitas vezes, não acontece e a prova, acho eu, é a grande percentagem de abstenção que existiu nos últimos anos.
Se desempenhasse um cargo governativo nos Açores descreva algumas das medidas que tomaria?
Embora já tenha sido deputado há 25 anos atrás, neste momento ou em outro, não tenho qualquer ambição política.
Os transportes, quer marítimos quer aéreos, são fundamentais para o nosso desenvolvimento. Veja o caso da liberalização do espaço aéreo, a dinâmica que veio imprimir na nossa Região. Existem ilhas com menor desenvolvimento por esta razão, inclusive o transporte de mercadorias tem de ser revisto. 

Qual a dinâmica que o sector privado está a imprimir à Associação de Turismo dos Açores? O grau de entendimento com o Governo dos Açores é o necessário para que a ATA desenvolva toda a actividade que tem planeado?
Embora ainda não tenhamos conseguido imprimir a nossa dinâmica na sua globalidade em virtude de termos assumido alguns compromissos do passado, estou em querer que este será o ano em que tentaremos dar uma nova dinâmica na promoção.
Desde logo com maior investimento no digital, também queremos reformular o visitazores e ter um novo banco de imagens. O modelo de feiras, na sua globalidade, terá que ser repensado no futuro. Vamos continuar a ter uma forte pareceria com o TdP e as press trip continuarão a ser desenvolvidas na promoção.
A parceria com a SATA e a TAP é fundamental. Continuar a tentar captar rotas directas para os Açores é algo que nos preocupa no dia –a-dia não descorando, de forma alguma, as já existentes.
O grau de entendimento com o Governo dos Açores, neste 9 meses, tem sido muito bom. Aliás, trabalhamos todos no mesmo sentido a bem do turismo da Região. Os nossos planos de atividades e orçamento são discutido com a tutela antes de o levarmos aos nossos associados. E ainda antes disso, ouvimos o conselho consultivo onde recolhemos opiniões dos associados e de vários players. 

A ATA está aberta a uma parceria com a Associação de Municípios dos Açores ao nível da promoção turística?  
Nós temos uma parceria com Associação de Municípios na Bolsa de Turismo de Lisboa e que este ano irá continuar. A sua pergunta faz sentido se equacionarmos, no futuro, outras parcerias desde que tenhamos meios disponíveis para tal.

Qual a sua expectativa para 2020 em termos de fluxos turísticos em comparação com 2019?
Iremos continuar a crescer quer em número de dormidas nas várias tipologias quer em proveitos. Os indicadores que temos até este momento leva-nos a pensar que 2020 será um bom ano turístico em todas as ilhas.

 Partindo do pressuposto que o Governo dos Açores tem de agir rapidamente para salvaguardar zonas ambientais vulneráveis, os movimentos ecologistas devem deixar de ser críticos e devem assumir uma postura de parceiros? O que tem acontecido é que logo que o Governo surge com um projecto com o objectivo de salvaguardar estas áreas, é logo criticado. Ora, não fazer nada é sempre pior?... Que reflexão faz sobre este tema? 
Os movimentos ecologistas são sempre importantes para alertar para algumas situações e, neste caso, para corrigir o que deve ser corrigido. Penso que não fazer nada é pior. Neste sentido, deve ser feito alguma coisa utilizando a  via do diálogo mas não optando pela via de radicalismos.
 
                                    

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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