Quando não há vagas nas creches dos Açores...

“Tenho muita sorte e sou privilegiada” por estar no emprego e cuidar do meu filho, diz Filipa Sousa

 Aos 28 anos, Filipa Sousa tem o privilégio que poucas mães trabalhadoras têm: poder cuidar do seu filho ao mesmo tempo que trabalha. Admite que não o faz sozinha e que a ajuda do colega Paulo é fundamental para que tal possa acontecer, mas reconhece que é “um privilégio” poder cuidar do pequeno Vicente de 18 meses enquanto trabalha, em plena baixa da cidade de Ponta Delgada.
Filipa Sousa é técnica de acção social de formação mas florista por uma questão de oportunidade e de dar seguimento ao negócio de família. É ela que, juntamente com o colega Paulo, está diariamente entre a Igreja Matriz e as Portas da Cidade numa colorida e perfumada banca de flores. A sogra é florista e quando Filipa Sousa não conseguiu arranjar trabalho na sua área de formação decidiu enveredar por uma outra profissão. “Tive esta oportunidade e vim, mesmo sem conhece nada do negócio. Na altura não havia muitas vagas de creches, lares, nem com instituições com pessoas especiais onde pudesse exercer. Estava muito complicado”, revela.
Desde Outubro de 2013 que é “a cara” daquela pequena banca e vai conversando com quem passa ou com quem deixa nas suas mãos algum arranjo especial. “Sinto-me feliz no trabalho em que estou. Foi um benefício que tive desde o primeiro dia, vim para aqui sem conhecer ninguém e hoje em dia conheço muita gente. Não tenho problema em falar com as pessoas”, comenta Filipa que diz que o apoio do marido, que a incentivou a abraçar esta nova carreira, foi fundamental para ali continuar até hoje. E já não pensa voltar a procurar emprego na sua área de formação.
Filipa Sousa assume-se agora como “florista, técnica de acção social, mulher e mãe, e nada melhor para educar o meu filho” que passa todo o tempo junto da mãe. E também já começa a ser sociável com quem passa.
A jovem admite que quando engravidou para o pequeno Vicente as incertezas, como de qualquer mãe, sempre apareciam. Mas a gravidez correu bem e não sentiu qualquer dificuldade em manter-se na sua banca, dando um cumprimento a quem passa e acenando a quem conhece. “Trabalhei até ao último dia de gravidez, sem problema nenhum”, afirma.
Depois de ser mãe gozou os cinco meses de licença de maternidade mas enquanto ficava em casa, ali “na rua de cima” mesmo junto à sua banca, começou a pensar no futuro do pequeno Vicente e como iria ser quando voltasse ao trabalho. “Pensei nisso. Mas deixar com alguém de família não podia ser porque as avós trabalham e não havia essa possibilidade. Uma creche sempre foi uma hipótese, caso eu não tivesse o apoio do meu colega Paulo e não conseguisse trabalhar com o meu filho aqui. Se tal acontecesse, não tinha outra opção senão ele ir para uma creche”, conta.
Quando Filipa Sousa regressou ao trabalho, ainda ia só a meio tempo e umas vezes ia durante a tarde, outras durante a manhã. E o Vicente ia sempre consigo.
“Tive sempre um apoio do meu colega Paulo, que é empregado tal como eu aqui na banca, mas é como se fosse da família” e o tempo com o bebé ia sendo dividido “um bocadinho para um, um bocadinho para outro. Aqui no trabalho é como se fossemos uma família”, comenta. E correu bem. E tem corrido bem.
Desde os cinco meses que o menino vai vendo a cidade correr. “Desde muito pequeno que está acostumado com muitas pessoas, a todo o tipo de pessoas e é muito sociável”, explica a mãe. 
O gosto pelas flores parece que também já vai nascendo e o pequeno Vicente “gosta de mexer e quer estar sempre com as flores nas mãos, mas não posso deixar mexer”, diz Filipa.
Sendo o seu primeiro filho, Filipa Sousa diz que “não me via a fazer as coisas de outra maneira”, até porque também estava habituada a trabalhar seis dias por semana ali, mesmo no centro da cidade de Ponta Delgada. “Tem valido a pena. É o primeiro filho e também é tudo ainda muito novo”, explica Filipa que acrescenta que nos dias de chuva e de vento “o meu filho não está aqui comigo na banca”, mas sim mais resguardado em casa. Até mesmo actualmente quando é a hora da sesta, “ele vai dormir para casa” e o colega Paulo “é como se fosse um avô para ele e ele adora-o e fica com ele”.
Ao longo de tantos meses a acompanhar a mãe no trabalho ou a passear no carrinho para acalmar alguma birra, “ele adora a cidade, manda beijos e sorrisos a toda a gente. Foi-se criando aqui neste ambiente da mãe. E nunca se sabe se não será um futuro florista também”, dando seguimento ao negócio da família. 
Mas nem tudo foram rosas e Filipa Sousa recorda que quando o Vicente era mais pequeno, e mesmo agora com 18 meses, eram frequentes os comentários menos próprios que ouvia. “Diziam que eu era louca, por ter o meu filho aqui. Perguntavam porque não o punha na creche ou deixava com alguém”, recorda. As críticas, acredita “vêm talvez por as pessoas não serem mães ou daquelas pessoas que têm o dom de criticar a vida dos outros”, comenta entre sorrisos.
Por isso o pensamento de Filipa Sousa continua a ser o mesmo: “nada melhor do que estar com a mãe quer para estar com ele quer para educar. Apesar de ele se dar muito bem com os avós, nada melhor que a mãe. Daí que sou da opinião que quem pode, e tem essa possibilidade, que fique sempre com os filhos”.
Mas a jovem admite que ainda tentou que o pequeno Vicente se tentasse adaptar a outras realidades. E recorda que no ano passado, quando o filho tinha um ano, na altura do Dia de Todos os Santos, que “é uma altura em que temos mais trabalho”, Filipa Sousa sentiu necessidade de afastar o pequeno Vicente daquela azáfama para poder ter outro rendimento no trabalho. “Pus o meu filho numa senhora da minha alta confiança, que também cuida da sua neta em casa, onde tem brinquedos e tudo preparado para uma criança”, explica a jovem mãe que comenta que “só o consegui deixar lá durante duas horas”.
A experiência não correu bem porque “ele é muito sociável, adora crianças apesar de não conviver com muitas, mas quando ficou sem a mãe ressentiu-se e foi como se se sentisse desprotegido e não parou de chorar”. Filipa Sousa diz que “com um ano é tarde para colocar as crianças numa creche ou numa ama”, daí que considere que “não tive outra opção e ele vem trabalhar todos os dias comigo. E está aí muito sociável e muito saudável”, comenta orgulhosa. 

Mas é caso raro
Filipa Sousa considera-se “privilegiada” por poder partilhar todo o seu dia com o seu único filho ao mesmo tempo que pode trabalhar fora de casa. Diz mesmo que tem “muita sorte” pelo facto do seu trabalho lhe poder proporcionar essa possibilidade e por ter um colega de trabalho que também ajuda nessa tarefa de ajudar a criar o filho “como se fosse um avô”. 
A jovem tem consciência que nem todas as mães trabalhadoras têm essa possibilidade e que talvez cedo demais tenham de deixar os seus filhos ao cuidado de outros para poder voltar a trabalhar. Volta a aconselhar que “quem pode, e tem essa possibilidade, que fique sempre com os seus filhos pois não há melhor”. 
Mas a realidade das famílias trabalhadoras é bem diferente. Desde cedo é preciso assegurar que os filhos têm vaga em creches ou em amas para que a mãe e o pai possam voltar ao trabalho. Muitas famílias optam por dividir a licença de maternidade entre mãe e pai, que pode ficar um mês em casa em exclusivo com o bebé desde que a mãe volte ao trabalho após os 120 dias de licença de maternidade, passando a ser 150 dias de licença partilhada. 
Ao fim desse tempo há que fazer uma opção sobre onde fica o bebé. Se os pais não asseguraram antecipadamente vaga na creche ou na rede de amas, o mais certo é a criança não conseguir colocação. 
O ‘Correio dos Açores’ fez uma pesquisa onde contactou perto de 30 creches públicas ou de Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) em São Miguel, a maioria no centro e arredores de Ponta Delgada, para a possibilidade de colocação de um bebé a meio do ano lectivo numa creche.
A resposta de todas foi, com mais ou menos simpatia, que as vagas estavam todas ocupadas. Para a sala dos bebés não havia nada a fazer e foi dito até por algumas creches que “seria injusto” para com mães que estavam a pagar mensalidade ainda antes mesmo da criança ter começado a frequentar a creche, abrir as portas a um bebé que não fez a matrícula atempadamente. 
Fora do concelho de Ponta Delgada a resposta era semelhante. A meio do ano lectivo seria impossível garantir uma vaga. E houve até uma creche onde foi perguntado se quem ligava era da Segurança Social, já que devido à nova legislação, pelo menos aquela creche, tinha indicações para aceitar nesta altura do ano apenas crianças indicadas pela segurança social de mães que se encontrassem a receber do Rendimento Social de Inserção. 
Nem as creches privadas aceitam, a esta altura do ano lectivo, crianças. Pelo menos por telefone não o asseguram e a indicação é para que seja feita a inscrição para, internamente, ser avaliada a entrada ou não na sala dos bebés. No entanto, a salvaguarda era sempre de que “para esta altura, o mais certo é não haver lugar. Só para Setembro poderemos dar essa resposta”. 
Há ainda a rede de amas. Geridas por instituições e onde cada ama certificada apenas pode receber em espaço próprio até quatro crianças. Talvez aqui haja uma possibilidade. Errado. Particularmente as amas não podem decidir sobre as crianças que aceitam e tem de ser através das instituições onde estão registadas que é feito o contacto. A resposta é a mesma: “a esta altura do ano as amas estão cheias. Faça a inscrição na nossa instituição e em Setembro pode ser que haja vaga”. 
É então contactada a Segurança Social que, de acordo com as regras dos protocolos estabelecidos com as IPSS, poderá garantir vagas nas creches excepcionalmente e sempre que a capacidade dos estabelecimentos não permita admissão do total de crianças inscritas, nos casos detectados em que as crianças estejam em situação de risco; na ausência ou impossibilidade dos pais poderem assegurar os cuidados às crianças, ou mesmo em crianças provenientes de famílias monoparentais ou de famílias numerosas. 
Neste sentido a Estratégia Regional de Combate à Pobreza e Exclusão Social lançada em 2018, e em vigor durante dez anos, assume como uma das prioridades estratégicas o “aumento do acesso de crianças na primeira infância a respostas sociais e educativas”, assumindo que se pretende alcançar em 2028 “uma taxa de integração nestas respostas sociais, 60% das crianças a partir de um ano de idade e com menores rendimentos”, ou seja, enquadradas no 1º escalão do Abono de Família. É por isso que nesta Estratégia regional “entende-se que as crianças com idade até 3 anos, quando inseridas em contextos familiares que, de algum modo, limitem o seu desenvolvimento cognitivo pleno, deverão ver assegurada, prioritariamente, a sua integração em creche ou ama, como forma de o promover”.
Este grupo de crianças, pode ler-se na Estratégia Regional de Combate à Pobreza e Exclusão Social, este grupo de crianças “apresenta uma taxa de integração em creche inferior à média regional”. 
O documento entende que o reforço deste tipo de respostas “além de promover a inclusão e combater as desigualdades, traz também ganhos ao nível da conciliação da vida familiar e profissional, aspecto particularmente relevante se se considerar que, na Região Autónoma dos Açores, a taxa de actividade feminina, embora registando uma evolução muito significativa, apresenta ainda valores inferiores à média nacional, com impacto ao nível do rendimento familiar. Acrescem ainda vantagens ao nível da promoção da natalidade”.

Mais vagas para creches
De acordo com o Serviço Regional de Estatística dos Açores (SREA), em 2018 nasceram 2.253 crianças nos Açores, mais 1,5% do que em 2017, sendo que a taxa de natalidade atingiu um valor superior à média regional apenas na ilha de São Miguel  onde foi de 9,9 por cada mil habitantes.
Seguindo este aumento da taxa de natalidade e dando resposta à Estratégia Regional de Combate à Pobreza e Exclusão Social, o Presidente do Governo Regional dos Açores, Vasco Cordeiro, inaugurou no início de Fevereiro uma creche e o centro de actividades de tempos livres em Ponta Garça, com capacidade para 90 crianças. Um espaço, também contactado pelo Correio dos Açores e que dias antes da inauguração já não tinha vagas. 
Na altura, Vasco Cordeiro anunciou até final deste ano mais 300 vagas em creches só para São Miguel, entre obras de intervenção que estão a decorrer e outras que vão ainda acontecer até final do ano. 
O Presidente do Governo Regional dava conta que desde 2012 aumentaram em 926 o número de vagas em creches por toda a Região. “Entre Janeiro de 2018 e Janeiro de 2020, foram criadas mais cerca de 200 vagas em várias ilhas neste tipo de valência”, referiu Vasco Cordeiro que apesar de reconhecer que “muito já foi feito, mas também há aspectos em que é ainda necessário fazer mais e fazer melhor”.
Até final do ano haverá mais 300 vagas em creches só em São Miguel, mas haverá sempre mães de famílias trabalhadoras que precisam de assegurar uma vaga pagando a mensalidade, em muitos casos durante alguns meses, logo após a criança nascer e até ao fim da licença de maternidade da mãe. Porque nem todas as famílias têm a possibilidade de Filipa Sousa. Porque nem todas as famílias estão enquadradas no 1º escalão do Abono de Família. Porque a maioria das famílias não é considerada carenciada já que recebe rendimentos, apesar de em muitos casos ser a remuneração mínima regional. 

                                      

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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