16 de fevereiro de 2020

Crónica da Madeira

66 horas intensamente vividas na “Cidade dos Poetas”

     
Há, no dizer de Agustina Bessa Luís, duas pessoas em cada criatura humana: a que aceita a sua rotina e a que a devora. Eu pertenço à segunda, pois seria incapaz de aceitar a rotina. Necessito, de vez em quando, de me libertar, ter a sensação da viagem que, desde criança, alimenta os meus sonhos, sempre realizáveis. É uma espécie de inquietação que só termina quando piso o avião ou o barco que me leva em cruzeiro. Razão pela qual, sexta-feira última, me meti no avião da SATA e rumei à “Cidade dos Poetas”. Tinha necessidade de senti-la junto de mim; necessidade de me reencontrar com os escritores, com os poetas e com os amigos. Saudades de percorrer as ruas no silêncio das noites. Saudades de abraçar as planícies verdes, cujos caminhos se deitam em camas de hortênsias adormecidas nesta altura do ano. Saudades das Lagoas das Sete Cidades e do Fogo; saudades de sentir a voz da açorianidade.
Cheguei a Ponta Delgada numa tarde de sol. Estavam comigo o arquiteto Bramante, que no seu longo viajar pelo mundo nunca tinha visitado os Açores, e o Paulo Sérgio, que a última vez que ali esteve foi há 12 anos! Metemo-nos num automóvel e logo começámos a nossa digressão, aproveitando todos os minutos para vermos o máximo no mínimo de dias. E, assim, dei-lhes a provar a gastronomia açoriana no restaurante do “Alcides”. Porque a simpatia e o calor humano já a tínhamos vivido na “Casa Hintze Ribeiro”, onde a beleza e o conforto da decoração se conjugam à perfeição. Porque a simpatia dos proprietários, essa, é sempre indiscritível, pela generosidade, pela fidalguia. Na realidade, a Sr.ª D. Ermelinda e o Sr. Joaquim Neves constituem um casal onde a cumplicidade lhes permite serem como são: gigantes do bem receber e de cultivarem amizades. Conheci poucas pessoas com este dom, que é um sentimento nobre que extravasa da alma e se derrama em gestos e palavras que marcam os que têm o privilégio de usufruírem da sua amizade. Dois açorianos que propagam a sua ilha, as paisagens, a gastronomia, a cultura com tal entusiasmo que logo nos contagiam e nos fazem enamorados da terra e das suas gentes.
Do programa-relâmpago constava uma visita à Igreja do Colégio, hoje museu, e à Sinagoga que o jovem Dr. José de Mello, seu diretor, tão atentamente cuida, procurando sempre, e inteligentemente, aumentar o seu espólio. É um museu exemplar: do melhor que existe em Portugal neste sector. O Dr. José de Mello é um estudioso consciencioso que tem realizado trabalhos, dentro da sua área, que muito valorizam a cultura açoriana. Coadjuvado por técnicos competentes, Ronaldo e André, aos quais transmitiu o entusiasmo pelo projeto da Sinagoga e outros. 
Depois, passeámos os três pela cidade. O arquiteto Nicola, o italiano, como lhe chamo carinhosamente – somos amigos há 58 anos – já sensibilizado com o pouco que viu, entrou na igreja matriz e pôs-se a estudar as épocas da construção. Ali ficou por algum tempo, não em meditação, mas sim procurando localizar as datas das diferentes obras realizadas naquela que é, talvez, a mais importante de todas as igrejas da ilha. No largo onde se encontra o edifício do município, Nicola Bramante permaneceu em silêncio a contemplar a beleza e o equilíbrio do local, emoldurado por edifícios esplêndidos. Enamorado da praça, descreve-a não só em termos urbanísticos, mas exalta-a, também, na beleza e poesia que o convencem.


Sexta-feira à noite
O poeta do amor, que é também pintor, Victor Meireles, recebe-nos na sua magnífica casa – um universo de coleções de quadros, pratas, objetos decorativos – uma casa que transmite a alma de quem, com tanta sensibilidade, vive o dia-a-dia rodeado de peças de arte e livros que lhe fazem companhia, por isso, não tem angústias nem solidão. A sua poesia tem a força da sua alma e a marca de quem viveu experiências ricas e únicas de vida; de quem amou e sofreu com encontros e desencontros. Nos Açores e nos Estados Unidos da América, onde nunca se adaptou viver. O mesmo sucedeu à Natália Correia. Foi uma noite muito especial, porque era o dia do aniversário do poeta. Ninguém se atreveu a perguntar quantos anos fazia. Os poetas não têm tempo porque vivem intensamente todos os momentos na beleza e na alegria que lhes transmitem; porque têm o condão de descobrir aquilo que os outros não conseguem ver. Um dia contei ao Victor Meireles, a propósito de fazer anos, o que uma minha amiga italiana respondia a quem lhe perguntava quantos anos tinha: “tenho a idade de Maria”. “E Maria quantos anos tem?”. “Tem a minha idade”. E assim, até hoje, ninguém sabe quantos anos tem a minha amiga Gabriela. O mesmo se passa com o Victor, o poeta que canta, exalta e pinta as paisagens de São Miguel. Visitar os Açores é uma coisa. Visitá-los pela mão de um poeta é outra coisa completamente diferente.
No jantar requintado que nos ofereceu o Victor, com uma mesa lindíssima, decorada com rosas vermelhas em salvas de prata, estava também a minha querida amiga Ângela de Almeida, uma açoriana que muito prezo, filha do meu amigo Pacheco de Almeida, umaexpert nas questões da cultura açoriana. Foi uma alegria reencontrá-la.


Sábado, 8 de fevereiro
Chegou o dia em que teria de mostrar aos meus acompanhantes uma das grandes maravilhas paisagísticas das ilhas atlânticas: a Lagoa das Sete Cidades. Rompemos pela manhã os caminhos traçados nas grandes planícies, povoadas de vacas bem nutridas. Verdes de todas as tonalidades. Havia uma luz especial a iluminá-los, garantindo a beleza que nos cobria. Há um aspeto curioso: quanto mais vemos estas paisagens, mais as descobrimos na riqueza da multiplicidade dos seus pormenores. A luz das diferentes horas tem uma grande influência. São os nossos olhos que ainda mais se valorizam perante tanta grandiosidade. E o poeta Meireles acompanhando-nos ajudou a que víssemos o que os seus olhos há muito descobriram…
Experimentámos o cozido como refeição obrigatória. Excelente. Regressámos ao entardecer e aí, com uma claridade que se estendia sobre os verdes, as paisagens ganharam uma beleza que se escondia por entre as árvores frondosas com raízes desenhando séculos.
Pelas 18 horas visitámos a Igreja de São José, onde o Rev.º Padre Dr. Duarte Melo realizou um trabalho notável. Licenciado por uma Universidade de Roma, com várias graduações em arte, o Rev.º Padre Dr. Duarte Melo é diretor do Museu Carlos Machado há 16 anos. A obra por ele ali realizada é o testemunho da sua competência, conhecimento e dedicação. Só com conhecimento e amor pelo que se faz se pode concretizar os projetos que o diretor do referido museu está a fazer. O mesmo acontece com a Igreja de São José. O teto da Sacristia, repintado, felizmente, com cal, apresenta agora uma espetacular pintura religiosa. Apesar da idade da obra, as cores mantiveram-se fiéis. Felicito o Rev.º Padre Dr. Duarte Melo pela extraordinária obra que vem realizando em prol da cultura do nosso país. É um exemplo a seguir. Se tal suceder, conseguiremos salvar muito do nosso vasto e valioso património. 


Domingo, 9 de fevereiro
Fomos convidados pelo casal Neves para um lauto almoço na Pousada da Juventude. A abundância, a variedade e a qualidade dos pratos eram impressionantes. Saboreámos os diferentes paladares e perdemo-nos nos queijos e doçaria açoriana, famosos no mundo pelo gosto e confeção.
O melhor, porém, estava para chegar: a visita à Galera. Aquela “ilha” que a Família Neves criou na Caloura, dentro da ilha de São Miguel. É, certamente, um lugar único no mundo por onde tenho peregrinado. Não diria só pela excelente localização, que vai do mar até ao pequeno monte, mas pela beleza que oferece aos visitantes. Muros de pedras negras, medievais na sua construção, escondem os caminhos que nos conduzem aos diferentes miradouros. São muitos. A Sr.ª D. Ermelinda e o Sr. Joaquim Neves vão à frente, explicando aos meus companheiros de viagem as várias etapas da construção daqueles miradouros que oferecem perspetivas diferenciadas do oceano Atlântico. Enquanto eles percorrem demoradamente todos os locais, onde proliferam uma grande variedade de plantas, eu fico sentado num dos miradouros a contemplar o mar. O meu silêncio interrompe-se só com o bater das ondas nas rochas. É como que um cântico, embalando-as. Já estive algumas vezes na Galera. Volto sempre como se fosse a primeira vez, porque as emoções que sinto são de tal ordem que me proporcionam o encanto da novidade. E, apesar de conhecido, este local é sempre inédito para mim.
Sentado a olhar para o mar, com o qual desde criança criei pactos de amizade, tive a sensação de ouvir a voz de Pepe Dâmaso, esse pintor famoso, canarino, que pintou, entre tantas obras, os “Heróis do Atlântico”. Sempre que nos encontramos diz-me, com aquele calor e entusiasmo que o caraterizam: “Juan Carlos, o Atlântico é o nosso grande desafio. Temos de enfrentá-lo. Temos que realizar obras”.
Na verdade, perante esta realidade, não podemos parar. Temos que realizar obras que valorizem as nossas ilhas. Não nos podemos deixar adormecer numa preguiça mental que tanto nos prejudica. Se o Atlântico é o grande desafio, entremos nesse grande desafio. Aqui, onde estou, nesta Galera, tenho o testemunho vivo da tenacidade, do amor, da força dos meus amigos Neves, que transformaram, durante meio século, as rochas, que se diziam indomáveis, em esplêndidos jardins. Todos os recantos estão aproveitados e os miradouros têm nomes. À minha frente estão duas grandes araucárias. Uma representa o Vasquinho e a outra a Vera. É o futuro dos dois jovens, netos do querido e simpático casal Neves, que continuarão no tempo a enriquecer este pequeno paraíso, em homenagem permanente àqueles que, um dia, submeteram as pedras ao sonho e, com elas, criaram um universo de perseverança e dedicação. 
Fomos, depois, experimentar a cerveja a Água D’Alto. Um pequeníssimo local, ao lado da igreja, que vende litros de cerveja sem conta, porém, não encontrei ninguém bêbado. Encontrei, sim, uma praça cheia de jovens e gente de mais idade a confraternizarem: uns sentados nos muros, outros nos degraus da igreja. Todos alegres e, por entre palavras generosas, ouvia-se a voz forte do leiloeiro que, no adro da igreja, leiloava objetos. Até eu, que não sou apreciador de cerveja, deliciei-me com uma caneca.
À noite jantámos com a minha queridíssima amiga Teresa Neves, o marido Luís e os filhos Vera e Vasco. Um jantar agradabilíssimo pelo convívio de amigos que mutuamente se estimam e admiram. A Teresa tinha chegado, momentos anos, de Milão, gesto que muito me sensibilizou, e aos meus acompanhantes, o seu querer estar connosco, mesmo fatigada da viagem. A Vera, que estuda Direito, fez Erasmus em Buenos Aires. No final, aproveitou para fazer uma longa digressão, começando pela Argentina e, depois, Colômbia, Bolívia e, por fim, Brasil. Desde que existe a possibilidade de Erasmus, milhares de jovens portugueses têm aproveitado esta oportunidade que lhes dá outra forma de encarar a vida e de resolverem os seus problemas. Muitos deles têm, até, permanecido nos países para onde foram. Considero este relacionamento com jovens de outros países e experiências diferentes das medidas mais salutares e enriquecedoras. Em cada um deles cria-se um espírito universal.
Entrámos na reta final de uma estadia proveitosa. Os meus acompanhantes, maravilhados, certamente serão novos promotores da vivência que tiveram nesta ilha e na “Cidade dos Poetas”. Ainda tive tempo para abraçar mais dois amigos: o Dr. José de Andrade e o poeta e pintor Armando Moreira.


Segunda-feira, 10 de fevereiro
Às 08:20 deixámos Ponta Delgada. “Partir é morrer um pouco”. Quando se ama uma pessoa ou uma terra, como acontece comigo e Ponta Delgada (minha “Cidade dos Poetas”, de Antero e de Natália), quando a deixo é sempre um pedaço de mim que fica nela. Mas prometo que brevemente voltarei…

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Categorias: Opinião

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