14 de fevereiro de 2020

Em torno dos números

 O documento fundamental para a gestão do país e principal prossecutor de políticas públicas foi aprovado em votação final global. O mesmo é dizer que o país tem plano e orçamento para o ano que já decorre, possibilitando ao poder executivo a aplicação das medidas nele contratualizadas. Não obstante o debate em torno dos números atinentes ao IVA da eletricidade, o esboço orçamental aprovado é muito mais do que isso. Pese embora alguma estranheza pela quantidade de abstenções que permitiram a sua aprovação, a aceitação, pelos socialistas, de propostas dos partidos abstencionistas, permite entender tal posição. 
O documento aprovado mantém um excedente, mas o que mais importa, neste momento, é ter um instrumento que possibilite aos portugueses olhar para o futuro com esperança e confiança. Esperança por aquilo que o país pode criar, crescendo. Confiança no trabalho individual e coletivo de cada um e de cada instituição seja ela pública ou privada. Esperança no trabalho desenvolvido até aqui e confiança de que, apenas através do trabalho, poderemos aumentar a coesão social e dar oportunidades a quem ainda não as teve. Desta forma, iremos projetar um território mais igual entre as suas várias regiões, com melhores salários e mais justiça social. Um caminho longo que se vai construindo. Isto pressupõe, evidentemente, que cada um, individualmente, perceba que o resultado final, coletivamente, passa também por si.
Não nos colocarmos de parte desta ambição é fulcral. O orçamento de Estado sente-se diariamente nas vidas de cada um. Nos impostos, nos benefícios fiscais, nos subsídios, na aplicação de políticas públicas na habitação, na saúde e na educação. Nas injeções de capital em bancos, nas cativações, nas parcerias público-privadas, no incentivo ao investimento e ao arrendamento jovem. O apoio à cultura, às artes e à mobilidade elétrica. A perspetiva económica mundial, as principais economias europeias e o expetável crescimento económico nacional. O escalonamento das receitas previsíveis e as despesas estimadas. É um documento que tem por objetivo traçar um plano para o país. Em cada ano. 
O país continua com dois défices que nos atrasam. O primeiro, o dinheiro que devemos e do qual temos de pagar uma enormidade de juros, não nos permitindo usar esse dinheiro em rubricas de investimento. O segundo, intimamente ligado a este, é o fraco crescimento económico que, ano após ano, continuamos a ter. E sem crescimento económico não criamos riqueza para pagar a dívida mais depressa, usando o tal dinheiro de juros para o tal investimento de que precisamos para ontem. Contas difíceis que, diga-se em abono da verdade, se fossem fáceis já teriam sido resolvidas há muito tempo, por qualquer inquilino que passou por São Bento. 
Mas apesar das dificuldades, há sempre soluções. Uma delas, o incentivo ao investimento privado, tem dado alguns frutos. A urgente qualificação dos portugueses tem feito o seu caminho, apesar de o resultado ser sempre visto mais ao longe. Hoje, temos trabalhadores mais qualificados e patrões mais habilitados, que constroem mais soluções e melhores soluções nos seus postos de trabalho e nas suas empresas. Temos um Estado mais competente, com mais abertura às novas tendências, sejam elas tecnológicas, de organização ou modernização. No fundo, temos mais e melhor, mas ainda é pouco.
É pouco enquanto não chegarmos onde queremos chegar. Com níveis de bem-estar e salários que nos aproximem dos países que estão na dianteira em termos económicos e sociais. Mas isso dá trabalho. Ao Estado, às organizações e às empresas. E, no fundo, a cada um de nós. 

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Categorias: Opinião

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