A propósito do XXIV Congresso Regional do PSD/Açores

Uma viagem no tempo pela nossa geografia eleitoral


Nas 11 eleições legislativas regionais dos 44 anos da Região Autónoma dos Açores (1976, 1980, 1984, 1988, 1992, 1996, 2000, 2004, 2008, 2012 e 2016), o PSD venceu as primeiras seis e o PS as últimas sete. Mas, curiosamente, se somarmos as votações acumuladas pelos dois partidos, verificamos que o PSD recebeu 515.646 votos e o PS 470.514.
No primeiro ciclo da governação regional, o PSD venceu quatro eleições com mais de 50% dos votos, enquanto que, no segundo ciclo, o PS só ultrapassou uma vez a metade da votação expressa pelos eleitores açorianos.
O PSD registou a sua melhor votação em 1980, com 68.951 votos (57,34%) e a pior em 2008, com 27.309 votos (30,27%). Em 28 anos, perdeu 41.642 votos. Nos oito anos seguintes (2008-2016), recuperou apenas 1.481 votos. Aliás, nas últimas eleições, o PSD registou o seu segundo pior resultado de sempre, com 28.790 votos (30,89%).
Apesar de tudo, o PSD nunca chegou ao mínimo histórico do PS, que obteve 25.806 votos (24,20%) em 1984. O melhor resultado do PS (e segundo melhor da Autonomia) ocorreu em 2004, com 60.133 votos (56,96%), ironicamente, vencendo a Coligação Açores constituída por PSD e CDS.
Significativamente, foi nas últimas eleições, em 2016, que o PS obteve a sua vitória mais reduzida de sempre, com 43.266 votos. Menos 8.641 votos do que a votação que obteve em 1996, quando igualou o número de deputados do PSD.
As 11 legislaturas do Parlamento dos Açores somam 759 deputados eleitos. Destes, o PSD elegeu 459 (60,4%), o PS 258 (33,9%) e os outros partidos 42 (5,5%). Incluem-se aqui 24 deputados do CDS, 9 do PCP (APU e CDU), 5 do Bloco de Esquerda, 3 do PPM e 1 da Aliança Democrática - Açores.
Nos 99 atos eleitorais realizados nas nove ilhas para as 11 eleições legislativas regionais dos últimos 44 anos, o PS venceu 51 vezes por ilha, o PSD 45, a CDU duas (Flores) e o CDS uma (Corvo). O PS venceu em todas as nove ilhas em duas eleições (2008 e 2012) e o PSD apenas o conseguiu nas primeiras (1976).
A primeira ilha a votar maioritária e sistematicamente no PS foi Santa Maria (1980), seguida da Terceira (1988), São Miguel (1996), Graciosa e Pico (2000) e São Jorge (2008). O Faial e as Flores deixaram de votar maioritariamente no PSD em 1996, quando da primeira vitória regional do PS, mas o eleitorado faialense voltou a conferir a maioria local ao PSD em 2004 (com o CDS) e já em 2016, enquanto que os florentinos preferiram uma vitória local da CDU nas eleições de 1996 e 2016. O Corvo contrariou o ciclo social democrata com uma vitória do PS em 1988 e o ciclo socialista com uma vitória do CDS em 1996.
A maior vitória do PSD por ilha foi em São Jorge (70,94%) em 1980, enquanto o PS registou a sua mais expressiva votação local em Santa Maria (68,68%) em 2004.

SANTA MARIA
Foi nesta ilha que o PSD primeiro perdeu as eleições regionais. Logo em 1980 e até hoje. Ironicamente, obteve em 1976 o seu melhor resultado (60%) e, logo a seguir, o seu pior (22%), na sequência da transferência da placa giratória dos voos internacionais de Santa Maria para a Terceira. Mesmo vencendo as eleições autárquicas desde 2009, o PSD continua a perder as legislativas e, em 2016, com menos 133 votos do que em 2012.
Assim, só na primeira legislatura é que o PSD conseguiu eleger dois dos três deputados marienses, passando depois a obter sempre um único mandato. Em 1980, o terceiro mandato ainda transitou para o CDS, mas foi conquistado pelo PS a partir de 1984.
Nas últimas eleições, o PS perdeu 336 votos em relação às anteriores, mas a distância do PSD tem sido significativa relativamente ao vencedor: menos 434 votos em 2008, menos 668 votos em 2012, menos 465 votos em 2016.

SÃO MIGUEL
O círculo eleitoral de São Miguel começou com 13 mandatos (1976-1984), cresceu para 18 (1988-1992) e para 19 (1996-2012) e agora tem 20 (2016). Nas onze eleições legislativas regionais já disputadas, o PSD obteve percentagens muito variáveis dos deputados eleitos por esta ilha: 53% (1976), 76% (1980), 71% (1984), 61% (1988), 66% (1992), 42% (1996), 31% (2000), 36% (2004), 31% (2008), 35% (2012) e 33% (2016). Teve mais deputados em 1992 (12) e menos de 2000 a 2008 (6).
Nas últimas eleições, em 2016, o PSD registou um dos seus piores resultados de sempre: a segunda pior votação (14.379) e a terceira pior percentagem (30,61%). Mas, comparativamente com 2012, o PSD (-4.213) perdeu menos votos do que o PS (-6.051) e reduziu a sua distância em relação ao partido mais votado: menos 10.594 votos em 2012 e menos 8.756 votos em 2016.
Acompanhando (e impulsionando) a tendência regional, o PSD começou a perder eleições legislativas em São Miguel no ano de 1996, mas o PS registou aqui, já em 2016, o seu pior resultado desde que assumiu o poder nos Açores. Ganhou, na primeira vez, com 26.366 votos, chegou a conseguir 32.583 e, nas últimas eleições, acabou por obter 23.135 votos.
De resto, neste círculo eleitoral, apenas dois outros partidos elegeram um único deputado: o CDS em 1976, 1996, 2000, 2004 (pela Coligação Açores) e 2008 e o Bloco de Esquerda em 2016. Nas duas últimas eleições, os abstencionistas aumentaram de 67.593 (54%) para 80.182 (63%), superando mesmo as perdas conjuntas de PS e PSD.

TERCEIRA
O PSD registou em 2016 o seu pior resultado de sempre na ilha Terceira: 6.198 votos (28.78%). Chegara a conseguir 15.558 votos e a obter 52,48% nas duas primeiras eleições regionais.
Relativamente às eleições anteriores, de 2012, é verdade que aqui todos os partidos perderam votos, mas também é certo que o PSD (com menos 898) perdeu mais votos do que o PS (menos 745) e o CDS (menos 437). Só a abstenção ficou a ganhar, com mais 2.397 abstencionistas.
O círculo eleitoral da Terceira contava oito mandatos nas primeiras três legislaturas e elege 10 deputados nas últimas oito. Não obstante, para o PSD, há três ciclos eleitorais distintos: elegeu cinco deputados em 1976 e 1980; elegeu quatro deputados de 1984 a 1996; elege três deputados desde 2000 (excetuando 2004, no quadro específico da Coligação Açores, em que, contraditoriamente, o PS obteve o seu melhor resultado de sempre).
É na ilha Terceira que o CDS regista, historicamente, o seu resultado eleitoral mais consistente e consequente: passou a eleger sempre um deputado, desde que, em 1984, Alvarino Pinheiro abandonou o grupo parlamentar do PSD.
O PSD na Terceira começou a perder eleições regionais em 1988 (tal ainda só havia acontecido em Santa Maria), fica abaixo dos 40% a partir de 1992 e não atinge sequer 8000 votos, por si só, desde o ano 2000.

GRACIOSA
Nas últimas eleições regionais, o PSD obteve o seu pior resultado de sempre no círculo eleitoral da Graciosa. Passava de quase 2000 votos, em 1976 e 1980, para menos de 900, em 2016.
Relativamente às eleições precedentes, de 2012, o PSD perdeu 505 votos e voltou a eleger apenas um deputado. Este meio milhar de votos perdidos em 2016 terá fugido para a abstenção (+258), para o PS (+141), para os brancos (+28), para os nulos (+25), enquanto o número de eleitores inscritos decresceu de 4.478 para 4.406.
Nas primeiras seis legislaturas, foram eleitos dois deputados do PSD e um do PS. Esta tendência inverteu-se em 2000. Nas últimas cinco legislaturas, foram eleitos dois deputados do PS e um do PSD. Esta tendência interrompeu-se em 2012.
Desde que começou a perder eleições na Graciosa, foi em 2016 que o PSD mais aumentou a sua distância do partido vencedor, com menos 431 votos do que o PS, regressando assim a um patamar inferior a 40% que apenas registara em 2008. A Graciosa foi a única ilha em que o PS aumentou (em vez de diminuir) a sua votação nas últimas eleições.

SÃO JORGE
São Jorge passou de ser a ilha mais social democrata dos Açores (70,94% em 1980) para o terceiro pior resultado de sempre do PSD em todas as ilhas (21,40% em 2016). Aqui, o PSD caiu de 4.033 votos nas segundas eleições para 969 nas mais recentes. Só começou a perder eleições em 2008 (12 anos depois da mudança regional), mas registou menos 706 votos de 2012 para 2016.
Nas primeiras três legislaturas, esta ilha disputava três mandatos e o PSD alcançou o feito inédito de conseguir eleger a totalidade dos deputados, em 1980 e 1984. De 1988 a 2012, passou a disputar quatro mandatos e o PSD registou um número tendencialmente decrescente de deputados eleitos: dois, três, três, dois, dois, um, um. Em 2016, voltou aos três mandatos elegíveis e o PSD passou a ser, pela primeira vez, o terceiro partido, só elegendo um deputado depois do PS e do CDS.
O CDS, historicamente, tem aqui a sua segunda melhor prestação por ilha, depois da Terceira, elegendo um deputado em cinco das 11 legislaturas. E, em 2016, obteve o seu segundo melhor resultado na ilha, depois de 1976, vencendo nas Velas, o único município centrista dos Açores, com 916 votos, o dobro da votação do PSD.

PICO
No círculo eleitoral do Pico, durante as últimas nove legislaturas, PSD e PS repartem por igual os quatro mandatos em disputa. Esta tendência só foi contrariada logo nas duas primeiras legislativas, em que o PSD conseguiu eleger três deputados.
O PSD só começou a perder eleições regionais do Pico em 2000 (quatro anos depois da alternância regional), mas há 12 anos que não consegue voltar a superar a barreira dos três mil votos ou dos 37% (obtivera a sua melhor votação logo em 1976, com mais de cinco mil votos ou 62%). Registou os seus piores resultados nas três últimas eleições e, inclusivamente, em 2016, teve menos 227 votos do que em 2012.
Por outro lado, nas mesmas três últimas eleições, o PSD tem vindo a melhorar a sua diferença de votos em relação ao PS: menos 589 em 2008, menos 573 em 2012 e, sobretudo, menos 115 em 2016.

FAIAL
O Faial é a única ilha onde o PSD venceu as últimas eleições regionais. Conseguiu mais 562 votos do que a lista liderada pela própria presidente do Parlamento.
Historicamente, o seu melhor resultado das onze eleições legislativas foi logo em 1976 (60%), mas caiu para metade (30%) 14 anos depois, no mínimo histórico do ano 2000.
Depois de um período tendencialmente decrescente de 1976 a 2000 (60%, 58%, 54%, 46%, 48%, 41%, 30%), e excluindo a Coligação Açores em 2004 (40%), o PSD regista um percurso ascendente de 2008 a 2016 (35%, 37%, 41%).
Aqui, o PSD começou a perder eleições em 1996, acompanhando a tendência regional, mas começou a recuperar primeiro que as outras ilhas.

FLORES
Neste círculo eleitoral de três mandatos, o PSD só elegeu dois deputados nas primeiras três legislaturas. Obteve o seu melhor resultado (62%) logo em 1976 e o seu pior resultado (21%) já nas últimas eleições. Aliás, o PSD sofreu nas Flores, em 2016, o seu pior resultado dos Açores. Neste ano, perdeu 211 votos, que terão revertido para a abstenção, para o CDS, para os brancos, para os nulos e, até, para a CDU. Contudo, foi o PS (com menos 567 votos) que mais contribuiu para a eleição do deputado comunista (com mais 594 votos) comparativamente a 2012.
É nas Flores que a CDU regista, historicamente, os seus resultados mais proveitosos, com quatro mandatos para Paulo Valadão (1988-2004) e um quinto, agora, para João Paulo Corvelo – o mais votado dos três deputados eleitos em 2016, o que já acontecera em 1996.
O CDS parece ser o mais direto adversário local do PSD – seja nas eleições de 2008 (666 votos para o PSD, 560 votos para o CDS), seja nas eleições de 2016 (424 votos para o PSD, 342 votos para o CDS). Curiosamente, a soma destes dois partidos não produziu resultado vantajoso com a Coligação Açores em 2004 (829 votos) e, até, foi nesse ano que o PS registou, também aqui, a sua maior votação de sempre (1.067 votos).
Na ilha das Flores, o PSD começou a perder eleições em 1996 (no ano 2000 ficou apenas a quatro votos da vitória) e, em 2016, passou a ser, pela primeira vez, o terceiro partido.

CORVO
O Corvo é o único círculo eleitoral dos Açores onde o PSD não elegeu um deputado, em 2008 e em 2016, e onde chegou a nem sequer apresentar candidatura, nas eleições de 2012. Está, portanto, há três legislaturas (12 anos) sem representante corvino no seu grupo parlamentar.
O PSD teve apenas dois diferentes deputados nos primeiros 32 anos – David Santos (1976-1992) e José Manuel Nunes (1992-2008) – perdendo o seu mandato para Paulo Estevão desde que o PPM passou a eleger um deputado próprio. O PS assegurou sempre um mandato, com exceção de 1996, em que o perdeu para João Greves, do CDS.
O PSD obteve a sua melhor votação em 1984 (57%) e a pior em 2008 (12%), registando então apenas 37 votos. Aumentou para 67 votos quando voltou a concorrer em 2016, ficando a 16 votos de recuperar o mandato perdido. Nas últimas eleições, este círculo eleitoral registou 78 eleitores abstencionistas, cinco votos brancos e um voto nulo.

* Texto baseado na proposta temática “Lições da História”, apresentada este fim-de-semana no Congresso do PSD/Açores
 

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Categorias: Opinião

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