3 de dezembro de 2019

Do Meu Olhar

Pobres - a derrota de um combate !

1. A mais recente afirmação que li sobre esta “ tragédia da humanidade”, sim, com estes termos duros e inquietantes, porque a pobreza é uma realidade cada vez mais crua e acutilante, veio de uma senhora chamada Isabel Jonet, presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome que, parecendo desolada, afirmou que “há em Portugal uma pobreza estrutural que não estamos a conseguir combater”. Assim mesmo, sem os pruridos dos políticos apaixonados pela retórica desenfreada, convencidos que tudo resolvem com um discurso e um rol de promessas sem prazo e sem validade! E até às vezes afrontam a opinião dos próprios cidadãos!

2. Os números, a nível nacional, são arrepiantes e consola-nos, pelo menos, o facto de nos Açores a situação não ser tão negra, mas ainda assim preocupante. São 2 milhões e 200 mil os portugueses em risco de exclusão social que vivem com menos de 500 euros por mês. Há um milhão de pessoas que não tem 250 euros por mês para viver! É evidente que esta proporção é menos gravosa nos Açores, mas não deixa de existir gente que passa fome ( muita pobreza envergonhada ), onde se evidenciam as viúvas, os desempregados, os doentes crónicos e os desamparados do sistema. E seria terrível se não recorressem aos subsídios estatais e, neste caso, ao Banco Alimentar  e a outras Instituições de solidariedade social. O docente universitário, especialista do estudo na área da pobreza nos Açores, doutor Fernando Diogo, afirmou recentemente que na nossa Região  “um em cada três açorianos é pobre” , o que afinal vem confirmar os dados atrás mencionados.

3. Em Lisboa, as paróquias do Chiado anunciam que é preciso “sair com Cristo ao encontro de todas as periferias sociais e geográficas”,mas já  à noite grupos de voluntários no Largo de São Domingos distribuem sopa quente e refeições e vestuário, tal qual se faz em Ponta Delgada , nos Manaias, no Carvão e na Cozinha Económica, de entre outras. A Igreja tem desempenhado um papel decisivo neste campo, em ações muitas delas desconhecidas do público. Claro que é preciso avançar mais e com maior eficácia e acutilância. E sempre em Rede. Como diz o Papa Francisco “a Igreja não é uma fortaleza, mas uma tenda ... a Igreja ou é em saída ou não é Igreja”, porque o Santo Padre quer “ uma Igreja com portas abertas, sempre de portas abertas”. E é isto que nos falta!

4. A pobreza é um desafio de todos, famílias, escolas, Igreja, Instituições e sobretudo do Estado. É um combate que nunca acaba, parecendo perdido nos meandros da erradicação, que é um processo complexo que requer políticas corajosas e de cooperação permanente entre todos aqueles intervenientes, o que raramente acontece porque cada um tem uma natural tendência para olhar apenas para o seu umbigo e há planos e mais planos que não passam disso mesmo!
O certo é que ninguém pode viver com quinhentos euros por mês, muito menos com apenas trezentos euros ou sem habitação ou então se estiver desempregado com família a cargo. Isto para já não nos referirmos a questões preocupantes que são adjacentes , como o álcool, a droga ou o abandono escolar, que agravam a situação.

5. As medidas que os especialistas e técnicos preconizam centram-se essencialmente no desenvolvimento económico da Região, base onde tudo assenta, depois a Educação, a qualificação do trabalho e a habitação, bem essencial para todos. O que é preciso é não parar e por pés ao caminho. Sim, acabando com as miseráveis pensões de trezentos e de quinhentos euros, com prioridade e urgência. As alternativas para o abandono escolar estão há muito equacionadas, onde as escolas profissionais  podem desempenhar um relevante papel. E que o governo não troque as prioridades de investimento,  para que este combate possa finalmente revestir-se de forte esperança!

                                                   No primeiro de Dezembro de 2019
 

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Categorias: Opinião

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