3 de dezembro de 2019

“Partidarite”

 

Alguém já comparou a “partidarite”, a uma doença como a meningite, apendicite, amigdalite ou outras terminadas em “ite”, só ultrapassada por esta outra que dá pelo nome de corrupção. Estudiosos destas “patologias” recomendam a tomada de medidas profiláticas para evitar as consequências do seu alastramento por todo o “corpo” a que os democratas, chamam de partidos, porque sem eles a Democracia não existe, sendo um dos seus principais baluartes.
Nos Açores a doença torna-se mais evidente, dada a caracterização geográfica e a reduzida população, onde “quase” todos se conhecem, pelo menos ao nível das “elites”. Acresce que os partidos que têm governado os Açores desde 1976, no seu fundamental ideológico, têm a social democracia. 
Tanto assim é, que após o 25 de Abril de 1974, quando um já integrava a Internacional Socialista, o outro para lá desejava ir. É da história. Sá Carneiro, co-fundador do PPD, com a “inteligência política” que lhe era reconhecida, logo em 1974, percebeu que o lugar do partido seria na Internacional Socialista, aliás onde ainda hoje se acham filiados todos os Partidos Sociais Democratas. Mais tarde passou a denominar – se PSD ou PPD/PSD, como alguns militantes ainda o intitulam. Os pais fundadores do PS, ao intento, opuseram-se.
Estes dois partidos têm governado os Açores, em alternância. PSD  de 1976 a 1995, 19 anos e PS de 1996 até à data, já lá vão 23 anos.
Dada a “proximidade”, dos programas de fundo, durante estas mais de quatro décadas, temos assistido, consoante as circunstâncias e conjunturas, a uma convergência ao “centro” político, porque a isso obriga a contingência eleitoral, sendo para alguns analistas, uma das causas para o sucessivo descrédito dos partidos, daí o aumento da abstenção, agravada pela coluna dos tais cerca de 80.000 “descamisados”, que não “cabendo cá dentro”, se vão esquecendo onde ficam as mesas de voto.
(Espera-se que para as próximas eleições de Outubro de 2020 os cadernos eleitorais já estejam rectificados, para se aquilatar da extensão do n.º dos açorianos que não votam, mesmo que em branco).
 Desde finais século XIX que a Social Democracia está relacionada com as lutas dos trabalhadores, com uma visão do Socialismo em Democracia, preservando as liberdades fundamentais, contrariando uma outra tendência autoritária do Socialismo, que teve o seu culminar com a Revolução Russa de 1917, e a constituição do Partido Comunista. 
Se em 2019 exista quem queira refazer a história e afirmar que o PSD é de direita, liberal, conservador, nada a opor, então que façam como Santana Lopes, e não há como não lhe reconhecer a honestidade política, saiu e fundou o seu partido liberal e democrático, de direita. Ou procurem o cartório mais próximo e mudem de nome.
Curiosidade. No tempo em que nos Açores governava o PSD, era comum a oposição do PS, mimosear alguns secretários do governo de então, de “comunistas e gonçalvistas”, só porque os governantes procuravam por em acção algumas das suas convicções sociais – democráticas.
Sempre que estes partidos, foram fiéis às suas linhas ideológicas e programáticas, os Açores “pularam e avançaram”. Ao contrário, sempre que, por razões eleitorais e de poder, as desvirtuaram, os Açores regrediram e os problemas acumularam-se até aos dias de hoje.
(A propósito desta “arrumação partidária” sugere-se que os resultados da Comissão Eventual para a Reforma da Autonomia – CEVERA, constituída em Janeiro de 2017, sejam divulgados, e bem assim o resultado das diligências para a constituição de partidos açorianos). 
A “partidarite” tem vindo a fazer o seu caminho de “empobrecimento” da Democracia e dos seus valores.
Aqui chegados, a qualquer democrata, entristece que não haja à direita um partido politico que possa disputar eleições e em alternativa, ser poder. Se já existem partidos liberais, conservadores, democratas – cristãos, todos democratas, que por caminhos diferentes pretendem almejar o mesmo objectivo dos sociais democratas, realizar politicas que tenham por único fim o Bem Comum, porque não votem os eleitores açorianos nessas forças politicas? 
O diagnóstico, para que tal ocorra, está feito e dá pelo nome de “partidarite”, só comparável há “clubite”. É-se do partido como se é do clube do coração. Aqui deveria entrar a pedagogia democrática, em que a Política fosse central, assim o cidadão seria mais livre para optar. Porque o que se assiste é que o cidadão comum, apesar de desconfiar cada vez mais dos partidos, nada faz por mudar a situação, sendo presa fácil dos populismos. E não se julgue, que os Açores estão imunes. Convenhamos que nos Açores os populismos de extrema direita, têm “muito terreno cultivado”, pelo que levam vantagem sobre os outros. 
As eleições de 2020 para o parlamento dos Açores, poderia constituir o ano “ zero” para dar combate ao cancro da “partidarite”, enquanto ainda é benigno. Que o ganho eleitoral fosse secundarizado e que o foco do debate fosse centrado em ideias e soluções estruturadas e planeadas estrategicamente. 
Que não se percam energias, em discussões estéreis, tais como “do antes e depois de 1996”. Que não se ceda às corporações e pressões que já se perfilam, assim como evitar a “armadilha” do argumento, muito comum nestas alturas, do “conflito de interesses”, condicionador da livre expressão de ideias. Que à esquerda e à direita existam ideias claras, como resolver o magno problema dos 30% de açorianos em risco de pobreza, é muita gente e sabemos que sem recursos humanos activos e a produzir, não há desenvolvimento, com a agravante de existirem ilhas a caminhar para a desertificação. O que mais espanta, é que não precisamos de inventar, é só copiar o que se fez noutras geografias, mas para isso há que tomar decisões impopulares, antes que venham os populistas e as concretizem, não em democracia mas em ditadura, como a história nos ensina.
Algumas medidas de tão simples até parecem aquela “história do ovo de Colombo”. Contudo são, é bem capazes de não darem votos, mas, garantidamente, são democráticas e respeitadoras das liberdades, nem poderia ser de outra forma.  
Transcreve-se a forma brilhante como a escritora Madalena San - Bento, há algum tempo atrás, definia “partidarite”:
“É uma doença que se manifesta em qualquer idade, porém não de modo súbito, mas anunciada por diversos sintomas tais como euforia, verborreia, fantasias de grandeza. Não é um mal recente, mas tem vindo a agravar-se. Apanha-se por contágio, insuficiências a nível da personalidade, exposição demorada a ambientes confortáveis”.  
 

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Categorias: Opinião

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