19 de novembro de 2019

Nos 60 anos do Colégio São Francisco Xavier

Pedem-me, como amigo e admirador do Colégio S. Francisco Xavier, dignamente dirigido pelas Irmãs da Congregação de S. José de Cluny, fundada em França, em 1807, por Ana Maria Javouhey, o meu testemunho, nos 60 anos das atuais instalações deste Colégio.
Testemunhar estes últimos 60 anos, leva-nos a recuar no tempo até 6 de fevereiro de 1893, quando, a pedido de um grupo de famílias da sociedade Micaelense junto da Superiora Geral desta Congregação, inauguram o Colégio S. Francisco de Xavier, no edifício, onde funciona hoje, a Escola Roberto Ivens, em Ponta Delgada, cobrindo, assim, uma enorme lacuna na oferta do ensino em S. Miguel.
Com a implantação da República, todas as Congregações religiosas foram expulsas do país, por razões de ordem política, provocando, assim, um interregno em Portugal entre 1910 e 1922. A pedido de antigas alunas e famílias Micaelenses, o Colégio São Francisco Xavier volta a abrir em 15 de outubro de 1932, nas instalações do Hotel S. Pedro, na rua dos Clérigos, em Ponta Delgada.
Em 29 de abril de 1943, a pedido do Bispo e Governo, o Colégio foi transferido para o Convento da Esperança, em Ponta Delgada. 
Com o crescimento do número de alunos e a exiguidade das instalações, torna-se imperioso a necessidade de se construir um edifício de raiz, um novo Colégio. Assim, em 25 de junho de 1955 é lançada a primeira pedra, em 1 de fevereiro de 1957 tem início a obra e em 11 de outubro de 1958 é inaugurado o atual Colégio, na rua Agostinho Pacheco, em Ponta Delgada. O Colégio só fica totalmente construído em dezembro de 1963. A salientar, como ex-líbris da obra, a bênção da Capela deste Colégio em 4 de março de 1960.
Como se verifica, as Irmãs da Congregação de S. José de Cluny e, inerentemente, o Colégio de S. Francisco Xavier estão em S. Miguel há 126 anos. 
O meu primeiro contacto com as Irmãs da Congregação de S. José de Cluny foi, por volta do ano de 1957, no edifício na rua dos Clérigos, n.º 20, onde minhas primas frequentavam aulas de bordados e lavores e sessões de teatro que eu muito apreciava. Tinha eu à volta dos seis anos. Um dia, uma Irmã, na minha presença, disse a minha prima que eu não podia frequentar o local porque era rapaz. Lembro-me que fiquei bastante triste com esta decisão, adorava assistir aos ensaios de teatro, julgo que, até, tinha esperança de entrar em cena. Enfim, eram as exigências da sociedade da altura, rapazes para um lado, raparigas para o outro. Hoje, é com alegria que os vejo a brincar todos juntos sem preconceitos de sexo.
Da passagem do Colégio pelo Convento da Esperança, tenho memória do que era corrente e se falava, na altura, na nossa sociedade. Um ensino de muito boa qualidade e a ajuda das Irmãs a tantas e tantas meninas que eram ali socorridas e encaminhadas na sua vida.
Mais tarde, em 1978 e 1981, com a entrada da minha filha e de meu filho neste Colégio, até aos dias de hoje, acompanhando os meus netos, comecei a conviver e a perceber melhor a enorme e preciosa obra que esta Instituição vem a desenvolver, em prol dos jovens e da sociedade Micaelense.
Na altura, o novo Colégio S. Francisco Xavier veio a enriquecer e, muito, o parque Escolar em S. Miguel, apetrechado com melhores condições e novas tecnologias, veio oferecer à comunidade estudantil e aos seus docentes ótimas condições de trabalho. Era uma referência no meio escolar, ainda hoje o é!
Também veio oferecer melhores condições aos pais e encarregados de educação, com um período mais alargado do horário escolar, onde os alunos tinham sala de apoio, estudo e recreio até os progenitores saírem do emprego. Era, e continua a ser, uma enorme mais valia! 
Para além do programa oficial a cumprir, o Colégio diversifica introduzindo a cultura, a arte, a religião e costumes locais criando as bases para o conhecimento e o apego à terra natal, na formação destes homens e mulheres de amanhã. Por vezes, chama familiares ou pessoas de relevo da sociedade para dialogar com os alunos sobre determinados temas, sendo estas conversas riquíssimas em termos pedagógicos e do agrado geral! 
Foi neste Colégio que, pela primeira vez, o hino dos Açores foi musicado e cantado em cerimónia oficial. Há registo deste evento na RTP/A. 
A ligação com as Irmãs e docentes era e é muito próxima, envolvendo laços que acabam, inevitavelmente, em amizade e cumplicidade mútua. É uma mais valia na relação Colégio/pais/alunos. Aqui deixo um testemunho pessoal que muito me marcou: No ano de 2014, tive um problema oncológico que me levou ao IPO em Lisboa. Meu neto era muito chegado a mim, sentiu a minha falta, mostrou sinais de desorientação e a Irmã, Educadora de Infância, e a professora conhecendo-o bem, aperceberam-se da situação e apoiaram-no. Pediram à turma para rezar por mim. Fui informado do caso enquanto estava em tratamento. Quando cá cheguei e vim ao Colégio, a festa daqueles miúdos para comigo foi tão alegre como emotiva, eles vibravam por o avô do amigo estar ali presente. Como crente, não sei se mereço; no entanto, tenho a certeza que a oração destes miúdos chegou a Deus. Vem esta história para demonstrar o quão rico é o relacionamento entre todos neste Colégio, também, não tenho dúvidas que estas crianças, com a sua inocência e fé, ficaram enriquecidas para a vida, sabendo que, pela oração, podemos obter Graças de Deus. 
 Tem o Colégio, ao longo destes anos, um ensino de excelência, comprovado nas várias gerações que estão inseridas nas mais diversas profissões da nossa sociedade e não só! Na minha já longa vida, encontrei muitos destes então, “miúdos”, em posições de relevo que se distinguem, muito bem, pela sua postura, pondo em prática o lema que tem por base a Missão deste colégio: Saber Ser, Saber Estar, Saber Fazer e Saber Conhecer.
Na realidade, ao longo destes 126 anos em que as Irmãs de S. José de Cluny estão nesta ilha de S. Miguel, muito e honroso trabalho têm prestado à Sociedade Micaelense, não só no ensino, mas também, junto dos mais desfavorecidos.  Um dia que se faça a História do ensino nesta ilha e nos Açores, o Colégio S. Francisco Xavier tem lugar de honra reservado.
A fundadora da Congregação Ana Maria Javouhey como pedagoga tinha uma ideia muito forte sobre o ensino: “A educação do homem na sua plenitude como chave é única forma de se ser verdadeiramente livre”. Tem vindo o Colégio a respeitar esta ideia e a formar homens e mulheres para a sua liberdade. 
A nossa opção, colocando os nossos filhos neste Colégio, foi, sem dúvida, uma das melhores opções tomadas na nossa vida, educamos em casa, como nos competia, o Colégio complementou com o Saber Ser, Saber Estar, Saber Fazer e Saber Conhecer. É com muita alegria que os vemos já com família formada e com princípios e valores de vida. Enfim, honestos!
Seria fácil mencionar nomes de Irmãs, docentes e pessoal auxiliar, que muito nos enriqueceram ao longo destes anos; no entanto, em representação de todos os que não refiro, personifico na Irmã Natália Gouveia e na Irmã Luísa Ferreira, sempre com um sorriso, conselho, disponibilidade, mensagem de esperança e de uma humanidade fantástica, o enorme êxito deste Colégio S. Francisco Xavier, sobejamente reconhecido pela sociedade Micaelense. 
A sociedade Micaelense tem uma dívida de gratidão para com o Colégio S. Francisco Xavier, a Congregação de S. José de Cluny e as suas Irmãs que, ao longo destes anos, cuidaram da educação e formação dos seus milhares e milhares de filhos e contribuíram para uma sociedade melhor, mais justa e mais esclarecida!
Bem hajam Irmãs de S. José de Cluny e que Deus as recompense pelo vosso excelente e meritório trabalho!


*Intervenção nas comemorações dos 60 anos das atuais instalações do Colégio S. Francisco Xavier em 16 de novembro de 2019.
 

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Categorias: Opinião

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