10 de novembro de 2019

O fundador do Correio dos Açores e as ligações aéreas para as ilhas (1919-1937)


O presente trabalho, cujo conteúdo corresponde ao de uma dissertação de mestrado concluída no corrente ano na Universidade dos Açores, pretende ter como linha condutora os Açores nas vésperas dos serviços aéreos regulares – entre 1919 e 1937, focando-se especialmente na cobertura noticiosa e propagandística de José Bruno Tavares Carreiro, fundador e primeiro diretor do jornal Correio dos Açores, que completa cem anos de existência a 1 de maio próximo. Será publicado semanalmente a partir de agora, no âmbito das comemorações do primeiro século de vida do nosso jornal.
Tido como um dos principais animadores do segundo movimento autonomista, José Bruno Carreiro recebia o testemunho da geração autonomista dos finais do século XIX, dos tempos do Governo, na monarquia constitucional, de Hintze Ribeiro, através de Aristides Moreira da Mota, seu amigo pessoal. Teve também condições particulares para estabelecer entendimentos entre as ilhas de S. Miguel e Terceira, que tinham relações sempre tensas, alimentadas por uma rivalidade secular, ao casar com uma terceirense, o que facilitou o estabelecimento de pontes de diálogo com a elite da ilha rival, para o que contou com a interlocução intelectualmente cúmplice do prestigiado jurista e etnólogo Luís Silva Ribeiro, também cronista frequentemente lido na imprensa regional, que marcaria o seu tempo na atividade política e intervenção cívica na Terceira. 
A fundação do Correio dos Açores foi marcante para permitir debater a identidade e a unidade política do arquipélago.
Pretendendo-se conjugar uma exposição cronológica com a interligação dos factos, pareceu adequado procurar-se compatibilizar a consulta da bibliografia pertinente com a leitura da imprensa, nomeadamente a do Correio dos Açores, da época. Por conter informação genérica sistematizada sobre a atividade aeronáutica de há um século, ou sobrea aviação nos céus dos Açores; por analisar a importância estratégica dos Açores no contexto internacional, ou ainda por refletir sobre a personalidade de José Bruno Carreiro, enquanto jornalista e animador do segundo movimento autonomista.
A leitura revisitada do diário Correio dos Açores permitiu, na elaboração deste trabalho, complementar a investigação e a reflexão constantes nas obras elencadas como referências bibliográficas, com as notícias, os editoriais, as colunas e textos de opinião acolhidos no jornal de José Bruno Carreiro. Por fim, a consulta do espólio da correspondência deste com figuras marcantes como Fernando Borges, Francisco Aragão, José Agostinho, Luís Ribeiro e Simas Machado, bem como com organizações como os SAP-Serviços Aéreos Portugueses, ou a UP-United Press, permite compreender melhor a impressionante rede de contatos de José Bruno Carreiro e a influência que ela potenciava para contribuir, nas décadas em análise, para o desenvolvimento dos Açores.
Portugal levou muito tempo a reconhecer-se, no conjunto do Continente com os arquipélagos dos Açores e Madeira, como um triângulo, com assimetrias em qualquer dos vértices, em vez de uma metrópole com ilhas adjacentes. 
A motivação da proteção dos cabos submarinos transatlânticos, que então amarravam na Horta, a segurança dos comboios marítimos que ligavam a América à Europa, e a cobertura aérea das rotas atlânticas que então se desenvolviam são, como escreveu José Medeiros Ferreira, eloquentes mostras daemergência da importância internacional dos A çores e a perspetiva do seu uso estratégico pelas grandes potências.
Em ligação com as comunicações internacionais proporcionadas pelos cabos submarinos, a emergência da aviação foi fator decisivo para acentuar a importância dos Açores, para além daquela que os próprios cabos submarinos, as estações de comunicação por rádio e os depósitos de carvão já lhe atribuíam. 
Neste contexto, afigura-se oportuno salientar também a relevância crescente do Serviço Meteorológico dos Açores, fundado em 1901, cujas continuidade e regularidade das observações meteorológicas se traduziam na constante prestação de serviços às duas margens do Atlântico - Europa e América, tornando-se essencial para apoiar o planeamento da navegação da altura, ainda predominantemente marítima, mas logo para a emergência dos voos transatlânticos. No começo do século XX, o mundo era eurocêntrico, era ainda a Europa que detinha o poder, a riqueza e a inteligência da civilização ocidental. Enquanto, para os ingleses, a importância dos Açores se devia então principalmente às condições da baía da Horta como ponto de escala para a navegação e estação de cabos submarinos, para os americanos tratava-se de estabelecer um posto avançado para defesa da América e não ainda para projetar poder na Europa, pelo que a base naval instalada em Ponta Delgada em 1918se traduziu, na altura, essencialmente no estabelecimento de um posto avançado de defesa da costa leste dos Estados Unidos.
Repare-se nas motivações que levavam José Bruno Carreiro a interessar-se pelo desenvolvimento da aviação com uma ação tão persistente, designadamente no Correio dos Açores, que o tornou credível como interlocutor dos atores intervenientes nos primeiros passos da aviação civil em Portugal: - afigura-se evidente que não foi pela aviação em si, mas pelo desenvolvimento dos Açores que ela potenciava. Esse desenvolvimento seria baseado, não tanto no êxito das ligações que se conseguissem estabelecer desde as duas margens do Atlântico Norte, mas obviamente no movimento turístico, que, na altura, tal como a própria aviação, era ainda incipiente.
A esse propósito, afigura-se oportuno interrogarmo-nos sobre o papel efetivamente desempenhado, ao longo da História, pelas correntes de opinião, particularmente quando impulsionadas pela imprensa, e designadamente a sua influência, que se mantém na nossa atualidade, sobre a natureza e as decisões do poder político. 
Procurando ter sempre presente os motivos da presente dissertação - os Açores nas vésperas dos serviços aéreos regulares e a cobertura noticiosa e propagandística de José Bruno Carreiro – procurou-se seguir uma ordem cronológica no respetivo enquadramento histórico e social. Contudo, nem sempre os acontecimentos se a têm ao calendário convencionado, até por não ser possível – nem desejável – isolar o desenvolvimento dos Açores da evolução do Mundo. Por outro lado, porém, sendo o nosso foco a antecâmara da aviação civil nos Açores, o elenco dos acontecimentos teve de obedecer a um critério de relevância naturalmente divergente da hierarquização da História mundial. A travessia aérea do Atlântico Norte, realizada por John Alcock e Arthur Brown no seu Vickers Vimy, em 1919, um mês depois da de Albert Read no NC-4 da US-Navy, veio ofuscar esta, exceto na perspetiva dos Açores que serviram de escala à primeira tentativa com sucesso, a do NC-4 Liberty; a ligação esforçada do Fokker T. III Infante de Sagres entre Lisboa, a Madeira e S. Miguel, em 1926, terá sido modesta realização, se comparada com a do Dornier-WalPlus Ultra no Atlântico Sul, no mesmo ano, mas, para os Açores, aquele é que foi um marco histórico; o feito solitário de Charles Lindbergh, em 1927, foi mais decisivo para a aviação transatlântica que o do coronel italiano De Pinedo, quase simultâneo, exceto para os Açores, que protagonizaram diretamente a aventura deste; a tragédia do Amiot 123 polaco na Graciosa, em 1929, teve certamente mais projeção nas notícias do Mundo do que o início da construção do primeiro aeroporto terrestre dos Açores, o da Achada, na Terceira. Contudo, para nós, açorianos e portugueses, a inauguração da pista da Achada terá sido, a par do voo do Infante de Sagres de 1926, o acontecimento mais decisivo para o desenvolvimento das ligações aéreas no arquipélago e entre as ilhas e o Continente. Por razões desta natureza, nem sempre foi fácil, ou mesmo possível, seguir uma linha de exposição linear, suscetível de ser refletida num índice esquemático.
Por outro lado, procurou-se seguir, em relação a cada tema, uma linha de acompanhamento que, a par das fontes bibliográficas, tivesse algum reflexo no trabalho noticioso do jornal Correio dos Açores, fundado em 1920 por José Bruno Carreiro, que o dirigiu até 1937. Nesse fórum privilegiado de debate sobre a identidade açoriana nas suas diversas vertentes, como o classificou Carlos Cordeiro, constam, nos anos das décadas de 1920 e 1930, notícias, comentários e reflexões sobre o progresso da aviação, designadamente algumas de intelectuais açorianos com o prestígio de Luís Silva Ribeiro e José Agostinho.  Entre a variadíssima rede de importantes contactos e influências que José Bruno Carreiro alimentava, procurámos identificar, no seu espólio epistolar, a correspondência mais significativa, para ilustrar a influência que exercia no meio em que despontava a aviação comercial em Portugal, particularmente no âmbito que, de algum modo, dissesse respeito aos Açores. 

José Adriano Ávila
 

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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