8 de novembro de 2019

Os mesmos protestos outros objetivos

Os protestos têm corrido o mundo nos tempos mais recentes. As manifestações de rua multiplicam-se, à medida que aumentam as forças militarizadas fora dos quartéis. Gás lacrimogénio, balas de borracha e algumas reais, tanques e camiões. Bandeiras a desfraldar, e uma luta imensa contra uma panóplia de injustiças. Baixos salários, aumentos desmesurados de bens essenciais. Mas também livre arbítrio, liberdade e igualdade. Múltiplas respostas a diferentes cadernos de encargos. Curioso que todas estas manifestações de massas, em tantos países e vários continentes, aconteçam por altura dos trinta anos da queda do muro que partia a Alemanha em duas, uma sob controlo da União Soviética, outra sob gestão dos norte-americanos, britânicos e franceses. Há coincidências que nos permitem ir além das análises que vazam nas redes sociais. 
A esmagadora maioria das teses, das opiniões públicas e publicadas, e a imensa panóplia discursiva e argumentativa das redes sociais, resvalou para a análise superficial sobre o habitual nós e os outros. Os que continuam saudosos de regimes de partido único e os que se revêm nas democracias pluripartidárias. Os primeiros, acham que o Chile é bem pior do que a Venezuela ou, pelo menos, igual. Que a crise em Hong-Kong é fruto de uma conspiração internacional para enfraquecer a China, perpetrada por agitadores estrangeiros ao serviço dos países capitalistas e imperialistas. Os segundos, asseguram que a exportação do modo de vida norte-americano é a solução para todos os males, e que Maduro enviou contra agitadores para colocar a arder o Chile, o Equador e a Bolívia. A verdade talvez esteja a meio caminho. Ainda assim, há duas realidades dissemelhantes. 
Num dos casos, estamos perante democracias nas quais convivem várias forças políticas que, entre si, disputam a vitória em cada ato eleitoral. E perante os resultados, as forças políticas derrotadas têm por função fiscalizar a ação do representante maioritário que, ocasionalmente, detém o poder. Todas as tendências da sociedade, se representadas por partidos políticos, poderão ascender ao poder ou, pelo menos, ao papel de fiscalizadores. Ou seja, estamos perante um sistema político semelhante, em traços muito largos, àquele que temos no nosso país e na generalidade dos países europeus.  Separação de poderes, poder legislativo, executivo e judicial, comunicação social privada e pública, saúde e educação públicas e privadas. Mercado de trabalho relativamente estável, no qual a certeza jurídica existe e, em caso de diferendos, os tribunais são recurso para trabalhadores e patrões. E perante este cenário, por saberem que existem garantias que o Estado lhes oferece, podem contestar o que não lhes parece justo, reclamar melhores condições de trabalho e de vida, salários condizentes com as suas funções, um futuro melhor para os seus filhos. Outros começarão por outras reclamações. 
Grosso modo, é isso que acontece com os outros casos. Outras reclamações. Nuns casos, as pessoas manifestam-se por suspeitas de fraude eleitoral. Noutros, ainda, pretende-se a autodeterminação. Ou tão só a liberdade de dizer em voz alta aquilo que pensamos. Em Espanha, segundo uma parte, é mais do que justo. Já no caso de «um país, dois sistemas», a autodeterminação é só um embuste de contrarrevolucionários. E vice-versa, conforme a parte em disputa. Não consta que haja encarceramentos aleatórios e processos abertos a esposas e familiares pelos atos de outros. Dependendo do sítio de que estamos a falar. 
 

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Categorias: Opinião

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