3 de novembro de 2019

Onde está a ambição?

Durante a apresentação do Programa de Governo para a legislatura que agora se inicia, foi apresentada como uma medida de grande alcance e enorme impacto na economia, a integração das diversas sociedades financeiras que estão na dependência do Ministério da Economia, numa só instituição, apelidando-a de “verdadeiro banco promocional nacional”.
Segundo o Ministro da Economia, a nova instituição terá como objectivo financiar as empresas, em dívida e capital, a custos mais baixos do que os praticados no mercado.
Sem estabelecer qualquer grau de prioridade, apontou ainda outro objectivo dizendo que a instituição, será concomitantemente um “Banco Verde”, virado para apoiar projectos que tenham por fim a descarbonização da economia e combate às alterações climáticas.
Ou seja, de uma só cajadada, o Governo sem geringonça, quer matar dois coelhos, dando uma cenoura ao patronato e uma rosa ao PAN. 
Só que o número dois do Governo de António Costa esqueceu-se do histórico desse inovador projecto, porque tal medida é um “remake” com pouca ou nenhuma inovação, porquanto em 2014 o XXI Governo do Primeiro-ministro Passos Coelho criou esse Banco de Fomento, baptizando-o como banco grossista com função de operacionalizar soluções de financiamento que permitissem colmatar falhas de mercado no acesso das PME ao financiamento, com um capital social de 100 milhões de euros e 100% português, 
Naquela altura, o Governo apontava como objectivo imediato dobrar o capital social para 200 milhões de euros podendo, desse modo, liberar linhas de crédito através de várias instituições multilaterais e bancos de fomento, entre os quais o Banco Europeu de Investimentos, o alemão KFW ou o Nordic Investment Bank.
Como se sabe, o projecto sofreu várias entorses no reinado da Troikae o banco acabou como Instituição Financeira de Desenvolvimento, agora transformada numa única instituição, rebaptizada de “verdadeiro banco promocional nacional”, e anunciada como uma medida inovadora e de grande fôlego político.
Todos os instrumentos que tenham como finalidade criar condições benéficas para o financiamento às Pequenas e Médias Empresas, capaz de estimular o investimento emprestando robustez a esse importante sector económico, e contribuir desse modo para o crescimento económico, é de registar.
Mas, do programa do XXIII Governo, fica a percepção que vamos ter uma governação à vista, pobre em medidas estruturais e apostada a governar ao sabor da agenda mediática de cada dia, e das ordens de Bruxelas.
Pergunta-se onde está a ambição para o futuro, repetidamente reclamada pelo Presidente da República, e no caso, apontada como pedra angular em que deveria assentar a próxima legislatura?
O Governo está “condenado” a governar para agradar às minorias, legislando para moldar a sociedade de acordo com as reivindicações partilhadas por grupos com influência mediática, mas sem poder popular. Apresentam-se como arautos da mudança, sem cuidar da qualidade e dos efeitos futuros.
Num contexto em que o que conta é o que nos chega ao segundo pelas redes sociais, esquecemos o que se passa dentro de portas.
Referimo-nos às nossas fragilidades e ao faz de conta com que as encaramos. Numa sociedade dominada pela finança global e pelos donos do dinheiro, somos defensores de que a Região precisa de ter instituições com poder financeiro próprio apostadas na dinamização da nossa economia. Essas instituições dependem de medidas e vontade política, tal como a que agora é renovada pelo XXIII Governo da República.
Enquanto isso, a Região deve ser parte no “verdadeiro banco promocional nacional” agora ressuscitado. 
Assim haja vontade política de ambas as partes, porque as necessidades existem e vão crescer no imediato.
  

Print

Categorias: Editorial

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima