Fátima Mota, directora da Galeria Fonseca Macedo

“Só será proveitoso continuar a trabalhar no mercado das artes se houver interesse real das instituições açorianas em colaborarem”

A Galeria Fonseca Macedo já caminha para os seus 20 anos de existência. Como tem sido este percurso?
A Galeria Fonseca Macedo foi inaugurada em Julho de 2000, e tem mantido, desde essa data, uma programação regular de exposições no seu espaço, em Ponta Delgada.
Paralelamente a esta programação, a Galeria tem desenvolvido parcerias com outras galerias e instituições públicas com a finalidade de divulgar exposições de arte contemporânea dos seus artistas representados, apoiando e/ou coproduzindo projectos de investigação nesta área. Neste âmbito, a Galeria Fonseca Macedo já viu projectos dos seus artistas Sandra Rocha e Catarina Branco apresentados na Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa; na Fundação Portuguesa das Comunicações, como é o caso da artista Isabel Madureira Andrade; no Arquipélago Centro de Artes Contemporâneas, a exposição de Manuela Marques e Sandra Rocha, “Estação Meteorológica”, patente ao público até 5 de Janeiro de 2020.
Nos museus dos Açores, nomeadamente no Museu Carlos Machado, vários artistas têm participado em exposições individuais e colectivas, como aconteceu com a obra emblemática de Catarina Branco, “Caligrafia”, de 2013, neste momento a fazer parte da exposição de longa duração do Núcleo de Santo André, e, mais recentemente, Marco Pires e Miguel Palma. No Museu de Angra do Heroísmo, no Museu do Faial e no Museu dos Baleeiros, no Pico, foram mostradas exposições das artistas Sandra Rocha e Cristina Ataíde, depois de terem sido apresentadas na Galeria Fonseca Macedo, em Ponta Delgada.
Em colaboração com outras galerias, destaco a mais recente participação da artista Beatriz Brum na exposição comemorativa dos 10 anos da galeria Kubik, na cidade do Porto, com curadoria de Miguel von Hafe Pérez, para além da exposição dos artistas Rúben Verdadeiro e Victor Almeida, na galeria Ángeles Baños e de Sandra Rocha na Galeria Alarcón Criado e no Museu de Belas Artes de Santander, todas em Espanha.

Desde 2003 que faz parte da Associação Portuguesa de Galerias de Arte. Quais as suas vantagens?
A Galeria integrou a Associação Portuguesa de Galerias de Arte até à sua extinção. Neste momento, é associada da EXHIBITIO, que está em formação. Participar activamente nas instituições representativas de uma profissão é, para mim, um direito e uma obrigação.
O objectivo primeiro da Associação de Galerias de Arte é defender os legítimos interesses dos seus associados, junto da comunicação social e das instituições públicas e privadas

Para além das exposições, também acolhe conferências e publicações de livros de arte…
Na programação dos primeiros anos da galeria, faziam parte conferências e publicações de livros de arte e catálogos. 
Com o desenvolvimento cultural de Ponta Delgada, com a renovação de equipamentos como o Coliseu Micaelense, o Teatro Micaelense, o Museu Carlos Machado e a Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, novos focos difusores de informação e cultura surgiram durante o final da primeira década deste século, oferecendo ao público uma grande variedade de actividades neste âmbito. É nesta altura que a Galeria percebe esta nova realidade e privilegia e reforça a sua presença em feiras internacionais de arte contemporânea, em Lisboa, Madrid, Santander, chegando a Miami e no passado mês de Outubro de 2019, participando na Art To – Feira internacional de Arte Contemporânea, na cidade de Toronto, Canadá.

Em quantas feiras a Galeria já participou? E no que consistem essas mesmas participações, para além da sua divulgação?
A galeria Fonseca Macedo já participou em inúmeras feiras internacionais de Arte Contemporânea, sendo que as mais relevantes são o Arco Madrid e o Arco Lisboa. Mais recentemente, com o surgimento de feiras mais especializadas, a galeria optou por integrar a feira internacional Drawing Room, que se caracteriza pela apresentação trabalhos de desenho. Esta feira teve o seu início em Madrid, em 2017, e já se expandiu para Lisboa, tendo a sua segunda edição tido lugar no início do mês de Outubro de 2019, na Sociedade Nacional de Belas Artes.

 A participação nas feiras é sempre uma mais-valia…
A participação das galerias em feiras de arte contemporânea faz parte integrante da sua actividade normal de divulgação e comercialização de obras de arte. Hoje em dia, o mercado da arte é constituído pelas feiras de arte e pelos leilões. É nas feiras de arte que os artistas têm oportunidade de apresentar as suas obras a um público mais abrangente e, ao mesmo tempo, mais exigente. 
Fazem parte dos visitantes mais influentes das feiras de arte os curadores, historiadores de arte, directores de museus e de outras instituições públicas ou privadas, que analisam, comentam, seleccionam e adquirem obras de arte para as instituições que representam. 
Para uma galeria de arte situada fisicamente longe dos centros de decisão, como é o caso da Fonseca Macedo, é nas feiras de arte que tem a possibilidade de mostrar e chamar a atenção dos visitantes e coleccionadores para as obras dos seus artistas. Daí que, a selecção de obras e o design dos stands das galerias sejam determinantes para o sucesso de cada participação, para além da notoriedade dos artistas apresentados. 
A notoriedade dos artistas é decorrente do reconhecimento das instituições de referência nesta área, através das exposições que os artistas realizam nestas instituições e também da sua representação nas coleçcões mais conceituadas, em termos nacionais e internacionais. 
A Galeria Fonseca Macedo participou na Art Toronto, a Feira Internacional de Arte Contemporânea e Moderna. É a primeira vez? 
Este ano, a Direcção da feira de Toronto convidou Portugal como foco da feira. Nesse sentido, foram criadas condições especiais de participação para as galerias portuguesas, com o apoio da feira e do Governo português. Estiveram presentes cinco galerias portuguesas, incluíndo a Fonseca Macedo, e duas instituições: o Festival Walk&Talk e o Carpe Diem, Arte e Pesquisa.
Durante a feira de Toronto, verifiquei que a maioria dos visitantes perguntava acerca das colecções em que os artistas que apresentei estavam representados, já que lhes era desconhecido o seu currículo. Numa primeira participação, o resultado ao nível da divulgação foi interessante, mas, do ponto de vista comercial não foi brilhante! Há muito trabalho a ser desenvolvido tanto pelas instituições do Canadá como pelas instituições portuguesas, se este for um país alvo para divulgar a Arte Contemporânea portuguesa.
Como se compreende do que acima foi exposto, à partida tinha expectativas elevadas uma vez que o Canada é um grande país de imigração. No entanto, percebi que o nicho de visitantes e coleccionadores da feira não integra portugueses. Nesta área, é urgente que as instituições governamentais açorianas, com facilidade de contacto com os emigrantes em geral e com os nichos culturalmente mais activos, em particular, possam fornecer informação e ajudar a estabelecer contactos entre os dois lados. Sem estas pontes, não será viável uma nova participação nesta feira.

Que artistas estiveram representados?
Nesta edição comemorativa dos 20 anos da Art TO, a Galeria mostrou obras de uma selecção dos seus artistas representados: Sandra Rocha (Angra do Heroísmo), Vasco Barata (Lisboa), Isabel Madureira Andrade (Ponta Delgada), José Loureiro (Mangualde) e Graham Gussin (Londres).
As obras apresentadas foram pintura, desenho, fotografia e vídeo. Algumas destas obras já tinham sido apresentadas na galeria Fonseca Macedo, em Ponta Delgada, e em feiras de arte em Lisboa, nomeadamente, Arco Lisboa e Drawing Room. As obras da artista Isabel Madureira Andrade eram inéditas.

Relativamente ao ramo das artes, crê que os Açores necessitam de continuar a trabalhar neste mercado?
Como atrás referi, em relação a esta questão, parece-me que só será proveitoso continuar a trabalhar neste mercado se houver interesse real das instituições açorianas em colaborarem com as galerias e instituições culturais. Esse trabalho terá de ser realizado com muito profissionalismo e disponibilidade de investimento. Temos de ter em mente que o público canadiano dispõe de um mercado riquíssimo em termos das artes plásticas que é o mercado americano, ao qual tem grande facilidade de acesso.
            
                     

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Autor: Rita Frias

Categorias: Regional

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