15 de outubro de 2019

O Reitor e a carne de vaca Ou a história do Professor Falcão e da vaca que ri…

O Reitor da Universidade de Coimbra proibiu o consumo de carne de vaca nas suas cantinas. Logo secundado pelo primeiro-ministro Costa, que iria dar instruções para se deixar de usar carne de vaca nos jantares oficias (será que se aconselhou com o presidente do seu partido e ex-presidente dos Açores Carlos César?). O reitor, professor Falcão, sublinhava que tinha a consciência que era apenas uma decisão simbólica, uma vez que conhecia que a actividade agrícola, na qual se insere a pecuária, apenas contribuía com cerca de 10% para a problemática do aquecimento global, sendo que só o consumo de energia seria responsável por 65%. Como sempre acontece, o argumento já é conhecido, “temos de começar por algum lado e dar o exemplo”. E lá está, os mais vulneráveis e com menos influência internacional, são os escolhidos. Os gigantes da produção e distribuição de energia, ficam para depois.
Sugeria ao Sr. Reitor a leitura do que por estes dias e sobre este assunto escreveram concidadãos açorianos e iria concluir que todos eles acompanham a urgência de encontrar soluções para tão complexo problema, contudo divergem nos caminhos para lá chegar, mas há um que afastam, o facilitismo apregoado pelos populismos, quer estejam em causa bifes de lombo ou vagens de feijão verde. Afinal na gestão quer seja pública ou privada, continuam válidas as palavras bom senso. 
Como o pensamento precede sempre a acção, bastaria ao Professor Falcão consultar os seus pares de outras universidades e institutos ou até ilustres investigadores e cientistas como o Professor Doutor Filipe Duarte Santos coordenador do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável que afirmava: “…As pessoas têm de se convencer de que não podemos continuar a queimar combustíveis fósseis como até aqui. E não é possível travar a crise climática sem este passo. O impacto de pequenos gestos no dia a dia é sempre algum, mas não vai resolver o problema…” 
 Com o devido respeito e até admiração, pelos nossos concidadãos que há muito tempo optaram por um estilo de vida vegetariana, quer por motivos de saúde, quer espirituais e até de humanidade, permitam que se reproduza a conclusão dum estudo sueco:”… a poupança financeira de uma dieta vegetariana, mais barata do que uma tradicional, é gasta noutros produtos, que também têm pegada carbónica. Levando este “efeito ressalto” em consideração, o vegetariano reemite, de outras formas, metade (em rigor, 49%) das emissões evitadas por não comer carne. Feita as contas, uma pessoa que deixe de comer carne reduz a sua pegada em menos de 4%...” 
Desde os anos 60 do século passado, que os Açores apostaram na produção de leite, lacticínios e carne de bovinos, dadas as suas condições naturais para o efeito. Grandes empresas instalaram-se. Os poderes públicos apoiaram. Em 2019 existem muitas famílias que vivem da pecuária, único sustento. A alternativa seria a emigração. As questões do ambiente há muito anos que têm sido incorporadas, como pilar dum desenvolvimento sustentado, quer pelas empresas, entidades públicas e pelas associações representativas dos agricultores e lavradores, conscientes que estão das respectivas responsabilidades nesta matéria. 
Pensar-se que os lavradores são todos ricos, que vivem de subsídios, corporação de poderosos, cujas organizações representativas constituem um “lobby” de interesses com grande influência junto do poder ou de “poderes difusos”, que deles não podem divergir ou pronunciarem a palavra “não”, senão lá vão milhares de votos ou aqueles negócios, que dão imenso jeito em alturas de “aperto”, se são verdade ou “verdades”, a cada qual o seu juízo.
Igualmente, não seria avisado esquecer-se os desmandos que a chamada “monocultura da vaca” originou, entre outros o exagerado corte de árvores para a reconversão em pastagens, assim como a eutrofização das nossas lagoas com a acumulação excessiva de matéria orgânica, processo que, se não fosse revertido, poderia conduzir ao aparecimento de zonas pantanosas.
Esqueça-se, por momentos, breves que sejam, o perfil do lavrador e/ou agricultor atrás traçado. Sabendo-se o quão difícil será ao cidadão comum doutras corporações, mesmo aquelas que no passado eram “quase” elites” e hoje muitos vieram engrossar o número dos novos pobres ou até da tão falada pobreza envergonhada, porque a crise ou crises não perdoam. Para esses, será sempre penoso aceitar qualquer exercício de excepção.
Pensemos naqueles lavradores, cujo sustento da família é o leite, entregue nas fábricas duas vezes ao dia. As “letras” no banco, estão quase vencidas e o “nó na garganta” aperta, porque a prestação é para se cumprir, é uma questão de honra. Que se levantam às 3 e 4 horas da manhã. Ou apenas não dormem, porque “a raiada” ou a “estrela” irão ter cria, e como qualquer parto, não há hora marcada. Porque aquele vitelo, macho ou fêmea, é o “mealheiro” que acautela o futuro ou irá contribuir para “endireitar” a vida ou quiçá ajudar o filho ou a filha a completarem, pelo menos, a escolaridade obrigatória. 
É este o perfil da maioria dos lavradores e agricultores que se conhece. Gente humilde e de carácter, honrados, que meteram as mãos na terra, e teimaram em ficar, aproveitando a oportunidade de realizarem na sua terra as suas vidas, sem terem de emigrar, como eram obrigados os seus antepassados.
São deste calibre os lavradores açorianos, os tais das vacas que riem. Sr. Falcão, as vacas destes heróis não sabem chorar. Sr. Costa, continue a autorizar o consumo de carne de vaca certificada dos Açores nos jantares oficiais.
Será que leram, o que por estes dias, escreveram o Director do jornal Correio dos Açores Américo Viveiros e  João Ponte, titular no Governo dos Açores da pasta da Agricultura?
Num vigoroso, conciso e sereno editorial, Viveiros, depois de traçar o quadro controverso em que este magno problema das alterações climáticas tem vindo a evoluir, salienta o ridículo das posições do reitor e do primeiro-ministro e enaltece a reivindicação universal e a participação da juventude para melhorar o clima. Por sua vez o governante Ponte, num bem conseguido esclarecimento, releva a aplicação de verbas na reflorestação, na modernização das explorações, na racionalização dos recursos, na produção de energias renováveis e redução de consumos com impactos muito positivos na redução dos gases de efeito estufa.
 

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Categorias: Opinião

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