12 de outubro de 2019

Cesto da Gávea

Scapa Flow 2019

A baía escocesa de Scapa Flow, nas ilhas Órcades (Orkney, em inglês) compreende mais de 350 kms quadrados de mar, enquadrados por 5 ilhas que a protegem do oceano aberto e lhe dão desde a navegação viking caraterísticas únicas de porto de abrigo. Scapa Flow entrou na História do século XX como base da Royal Navy em 2 acontecimentos de cariz e resultados opostos: em 1919, no fim da I Guerra Mundial, com o auto-afundamento da esquadra da Alemanha Imperial; em 1939, na II Guerra, quando o audacioso raide do submarino alemão U-47 afundou o couraçado Royal Oak, danificou seriamente o Repulse e regressou incólume. Passaram 100 anos sobre o afundamento pelos próprios alemães dos seus 74  navios (na realidade, a Marinha inglesa conseguiu encalhar 22)  internados em Scapa Flow durante o armistício, e na próxima segunda-feira, terão passado  80 sobre a vendetta alemã, ocorrida num distante 14 de Outubro. Nesse dia, ao largo da costa da Islândia, o destroier HMS Wolverine atacou e afundou o U-47, vingando os 31 navios dos Aliados  que afundara e levando para o túmulo o Comandante Prien e a  sua tripulação. 
Scapa Flow e as Órcades, como as vizinhas Shetland, são hoje importantes para a  Escócia por razões diferentes, uma vez que é nessa área  do Mar do Norte que se encontram  jazidas petrolíferas que a Oil&Gas estimou valerem 1,5 biliões (milhões de milhões) de libras. Ao ritmo de extração atual, é produção para cerca de 40 anos, se não for mais. Em percentagem, a produção de petróleo bruto (crude)  e gás natural, extraído  em àguas escocesas, representou sempre mais de 90% do total produzido no Reino Unido nos últimos 20 anos. Para mais, é em Flotta --uma ilhota com 900 hectares de Scapa Flow -- que se encontra o 2º maior terminal de receção petrolífera para transbordo, o maior estando em Sullom Voe, nas Shetland. Winnifred Ewing, uma colega escocesa do Parlamento Europeu, nos anos 90, tinha razão quando defendia acérrimamente a integração europeia da Escócia, argumentando com a questão dos hidrocarbonetos, da plataforma continental e dos recursos pesqueiros. Acontecendo um brexit sem acordo, vai por-se novamente a possibilidade de um referendo que, desta vez, vai dar o “sim” à permanência da Escócia na União Europeia e à independência do país. Não se trata apenas do binómio petroleo/gás natural, mas também das tecnologias “limpas” que a Enercon alemã instalou precisamente em Flotta, com uma turbina eólica gigante a olhar  os destroços  da Armada alemã afundada 1 século atrás. 
Quando se revisita a História do século XX na Europa, percebe-se melhor o alcance visionário dos “cabouqueiros fundadores” da atual União Europeia, nascida das cinzas de conflitos trágicos. Percorrendo uma senda de sucesso, solidariedade, paz e desenvolvimento, tendo ainda pela frente uma longa via sacra de dificuldades, a União Europeia e o projeto que a enforma não mereciam as deserções algo viciosas e egoístas de gente como os apoiantes do brexit. Vendo bem, por trás deles estão outros interesses, calculisticamente ocultados por líderes como Johnson e manobrados sinistramente por uma Câmara dos Comuns agarrada a regras imperiais, tornadas obsoletas face ao futuro. Era de esperar que o Reino Unido chegasse a este ponto, só não acontecendo mais cedo porque a adesão britânica à então CEE abriu caminho à paz na Irlanda do Norte, calou as impaciências escocesas deu novo alento à posição inglesa no mundo. Todavia, os apetites desmedidos dos financeiros de Londres, aliados a resquícios do ex-império e ao avanço da mundialização (que reacendeu a ideia imperial, sempre latente) cegaram os políticos, iludindo uma população envelhecida que vê na Europa Unida uma ameaça e não uma esperança. 
David Cameron e o referendo de 2016, não foram uma causa, mas uma consequência inevitável da política de “um pé dentro e outro fora” que sempre caraterizou a relação britânica com o Continente. A comprová-lo está a posição de BoJo --  significativa alcunha do Primeiro-Ministro  -- afirmando  que, se o brexit não ocorrer dia 31 deste mês, “prefere morrer numa valeta”, ou que sairão venha  o que vier (“come what may”). Johnson  sabe bem que não prefere nada disto, porque  o que quer , é arranjar um motivo para convencer os eleitores que foram os mauzões europeus a empurrá-los para o desastre. Convencido do apoio do seu “amigo americano”, incha o peito e fala grosso, o que dará seguramente mau resultado, pois Donald Trump não é de fiar, como se viu pelo abandono das milícias curdas à sua sorte, depois de as ter usado contra o Daesh. Se necessário, fará o mesmo com Johnson ou connosco nos Açores, pois a História dá muita volta, conforme se viu com Scapa Flow.
Nota final: Este artigo é dedicado ao amigo Garoupa, companheiro do Clube Naval de Ponta Delgada que esteve em Scapa Flow, um porto dos 7 mares que visitou e me descreveu com o habitual entusiasmo de velho lobo do mar.
 

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Categorias: Opinião

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