8 de outubro de 2019

O equívoco da abstenção

Tal como era expetável, o Partido Socialista venceu as eleições para a Assembleia da República. Contudo, é preocupante que a abstenção tenha voltado a subir nos Açores e agora situa-se nos 63.5%. O Concelho a Ribeira Grande felizmente não foi o campeão da abstenção, embora na Vila de Rabo de Peixe, onde também é a zona mais jovem do país, ela atingiu os 78,7%, tendo exercido o seu direito de voto apenas 1. 479 eleitores.
Importa desconstruir este número, pois, considero que nem sempre a classe política e os comentadores fazem as interpretações mais corretas, sobre este fenómeno, sobretudo no que diz respeito a esta Vila, porque olham para os números sem saberem bem o que realmente está por detrás de tal situação.
A abstenção é sempre alta, continuando assim até que tenhamos uma estratégia arrojada e eficaz de consciencializar toda a população, a não ser que se aprove uma lei em que o Estado torne uma obrigação efetiva a ida às urnas, sob pena de se comprometer a própria democracia.
As razões são muitas para que este lugar mais populoso dos Açores vire as costas às eleições. 
Alguém sabe que no passado domingo, e isto é recorrente, as eleições coincidiram com as mais importantes festividades religiosas do povo de Rabo de Peixe, ou seja a festa em honra de Nossa Senhora do Rosário, onde as gentes desta Vila se esmeram em preparar e organizar umas das mais bonitas festas de verão nesta ilha de S. Miguel? Como se sabe, habitualmente, as eleições regionais e nacionais ocorrem precisamente no primeiro domingo de outubro, quando os rabopeixenses dão largas à sua alegria e celebram, à margem dos votos, esta festa desde tempos imemoriais.
Depois perguntam porque não vão votar, quando se sabe eu muitas famílias dão prioridade aos preparativos para a festa, confecionar refeições, enfeitar as ruas com os tradicionais tapetes de flores e verdura, integrar ou ir ver a procissão. É verdade que quem está determinado a votar sempre pode tirar um pouco dos seus afazeres festivos para ir a uma mesa de voto e na mesma ir ver a extensa procissão e desta feita, cerca de mil e quinhentas pessoas foram às urnas.
Toda a gente se lembra o que também aconteceu nas eleições europeias, em que coincidiu com as grandiosas festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres e a abstenção registada constituiu novo recorde, mesmo sabendo-se das questões relativas à abstenção técnica ou à inflação dos cadernos eleitorais, que é uma realidade, mas que ninguém trabalha no sentido destes serem devidamente corrigidos.
As razões que justificam a abstenção são muitas, mas não se vislumbra maneira de mudar a situação, pelo menos enquanto a população não for devidamente elucidada do dever de cidadania que se espera de cada pessoa com capacidade eleitoral. 
Assim, o sistema eleitoral fica ferido de representatividade, cuja indiferença se adensa de eleição para eleição. Que se tem feito de concreto, no sentido de combater essa indiferença, já que na noite eleitoral toda a classe política se compromete e trabalhar para acabar com este flagelo? Será que os resultados do estudo elaborado pela Universidade vão mesmo avançar?
Não se percebe porque hoje em dia, mergulhados como estamos no mundo das novas tecnologias, a era digital não seja um trunfo para se criar ferramentas, em ordem a facilitar a participação cívica do povo, permitindo a votação de forma mais moderna, já que tudo se faz, como se estivéssemos ainda no pós 25 de abril.
A verdade é que o aumento do nível da abstenção poderá traduzir uma maior distância entre eleitores e governantes, que apenas por ocasião das arruadas das campanhas eleitorais distribuem beijinhos a rodos. Tal situação pode gerar uma representação democrática enviesada, pelo que há que fazer alguma coisa para alterar esta situação.
Cada vez mais, muitos eleitores, muitos mesmo, olham para o dever de votar como uma mera contabilização custo-benefício individual, ou seja algumas pessoas votam quando o custo do “sacrifício” de ir votar é inferior à benesse prometida que advirá da sua ida à urna. Há que reverter tal situação.
 

Print

Categorias: Opinião

Tags:

x
Revista Pub açorianissima