20 de setembro de 2019

A agricultura e a pecuária dos Açores no contexto das alterações climáticas

 As questões relacionadas com as alterações climáticas estão, cada vez mais, na ordem do dia. Enquanto se discute, se ganha palco, com populismos e demagogias, enquanto a tomada de posições aquece, a verdade é que o que vai, verdadeiramente, aquecendo é o planeta!  
A decisão do Reitor da Universidade de Coimbra em não incluir a carne de vaca nas ementas das cantinas da mais antiga Universidade portuguesa deixou perplexos muitos cidadãos. Uns porque dependem desta atividade económica para sustentar as suas famílias, outros porque encaram esta decisão unilateral como um ataque à liberdade individual, às suas ideologias, às suas crenças e aos seus costumes. 
Independentemente do ceticismo relativamente aos verdadeiros propósitos desta posição, aparentemente com alguma demonstração de desconhecimento relativamente ao verdadeiro contributo da agropecuária para as alterações climáticas, o que é certo é que estas declarações são mais um alerta para a necessidade de se efetuar uma reflexão com toda a profundidade e cuidado sobre esta temática.   
Sim é verdade, a Agricultura e a Pecuária contribuem para as alterações climáticas! Mas serão as únicas? Serão as que mais contribuem? Está na moda “ir na onda”, apontar o dedo, arranjar culpados e a agropecuária infelizmente é um alvo fácil. Muitos dos que apontam o dedo são os mesmos que apreciam uma boa refeição acompanhada de um bom vinho, um bom queijo e uma boa carne.
Será mesmo a agropecuária a desgraça da nossa e das futuras gerações? Valerá também a pena falar do contributo dos transportes, do setor energético, do comércio, do turismo ou da indústria?
O que gostaria de destacar nesta decisão do Reitor da Universidade de Coimbra, por mais que nos incomode, por mais peso económico que este setor desempenhe, é que se trata de uma verdadeira chamada de atenção para se agir. Cada um no seu setor, na sua atividade, no seu dia-a-dia pode e deve contribuir para melhorar a saúde do planeta. 
Apesar dos naturais constrangimentos de uma Região Ultraperiférica como os Açores, a natureza brindou-nos com condições magnificas para a produção agrícola, em particular para a produção de leite e de carne.  
As nossas características edafoclimáticas conferem às produções locais caraterísticas muito apreciadas pelos consumidores e simultaneamente uma forma de produzir ambientalmente mais sustentável, à base da pastagem, com solos férteis e uma abundante precipitação. 
Dos 28 países que integram a União Europeia, a Irlanda é o único país que se assemelha à forma de produzir dos Açores. Uma produção pecuária praticamente extensiva, à base da pastagem durante todos os dias do ano. 
Por outro lado, um estudo promovido pela União Europeia coloca precisamente a Irlanda como a mais eficiente em relação à pegada carbónica resultante da produção de leite e de carne de bovino. Mesmo sem este estudo se debruçar especificamente sobre os Açores, que produzem 35% de todo o leite do país, facilmente se identifica o importante contributo que a Região dá para a redução da pegada carbónica, já que aqui 1/3 do território é floresta e as pastagens ocupam mais de 90% da superfície agrícola útil da Região. 
As condições especificas de alimentação dos animais à base da pastagem, com uma produção ambientalmente mais sustentável, para além de possibilitar uma produção de leite e de carne diferenciada e mais saudável, leva a que a pegada ambiental para produzir um litro de leite ou um kg de carne nos Açores seja muito inferior a outras regiões ou outros países.  
Apesar de produzirmos de uma forma mais amiga do ambiente, estamos empenhados na adoção de políticas regionais de combate às alterações climáticas. 
Na verdade, os Açores têm as preocupações ambientais no centro das suas políticas. Só desde o início deste Quadro Comunitário de Apoio, quase 50% das ajudas do 2.º Pilar, referentes às políticas de desenvolvimento rural foram afetas aos compromissos assumidos pelos agricultores em medidas agroambientais, clima, extensificação da pecuária ou até na agricultura biológica. 
A este propósito, já está em implementação na Região o Plano Estratégico da Agricultura Biológica, que, em complemento com as majorações introduzidas nas ajudas do 1.º Pilar, criaram condições para estimular a produção de carne e de leite biológico nos Açores, com os benefícios em particular os ambientais que lhes estão associados. 
Simultaneamente, o setor agropecuário açoriano soube adaptar-se e crescer em profissionalismo, trabalhar na redução de custos de produção, dando respostas às exigências de qualidade, de bem-estar animal e acima de tudo, permitindo que os Açores se afirmem, cada vez mais, como Região de excelência na produção de leite e de carne.
Conjuntamente, esta evolução na melhoria genética dos animais, do desempenho sanitário, reprodutivo, na produção de pastagens e forragens tem contribuído de forma decisiva para responder ao objetivo de uma produção, cada vez mais, ambientalmente sustentável. 
Nos últimos anos, fruto dos investimentos efetuados foi possível fazer chegar água a cerca de 50% dos agricultores dos Açores e reforçar a capacidade de armazenamento em cerca de 500.000 m3, com recurso a água essencialmente proveniente de ribeiras e nascentes que era desaproveitada.
Foram aplicadas avultadas verbas provenientes de Fundos Regionais e Comunitários em reflorestamentos, na modernização das explorações, na racionalização dos recursos, na produção de energias renováveis e na redução de consumos com impactos muito positivos na redução dos gases de efeito estufa. 
Temos lançado programas com preocupações ambientais e investimentos inovadores, por exemplo relacionados com a produção e a redução de consumos de energia ou com redução de consumíveis, favorecendo a agricultura de precisão.  
Está em curso no domínio da agricultura e das florestas um trabalho que visa a definição de medidas a aplicar na Região Autónoma dos Açores para mitigar e fazer face às alterações climáticas. Este trabalho permitirá à Região, simultaneamente, integrá-las no Plano Estratégico do próximo Quadro Comunitário por forma termos nos Açores uma agricultura e pecuária ainda mais amiga do ambiente. 
Muitos outros exemplos poderiam ser dados, mas na verdade sabemos que ainda muito haverá a fazer e as Universidades, em particular a de Coimbra, que muito têm contribuído para o desenvolvimento do país, poderão ajudar, de forma decisiva, com o seu conhecimento e auxiliar os pequenos e grandes agricultores na transição para uma agricultura ambientalmente mais ecológica. 

João Ponte
Secretário Regional da 
Agricultura e Florestas

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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