15 de setembro de 2019

Crónica da Madeira

Uma ilha onde se refugiam os poetas

 


Como todos os anos, venho ao Porto Santo em setembro, quando a praia menos povoada me proporciona encantos que jamais encontrei em outras praias do mundo;
    Como todos os anos, desfruto aqui dos mais relaxantes dias de férias que se podem planear; 
Como todos os anos, encontro-me nesta pequena ilha com grandes amigos. Com eles convivo e abraço-os na fraternidade de um espírito que fortalece e faz bem à alma;
Como todos os anos, respiro neste oásis de paz, um ar admirável e uma temperatura amena invejável;
Como todos os anos, deixo-me escorregar nesta areia terapêutica, cobrindo-me com o seu calor para que todas as minhas maleitas ósseas desapareçam na manhã seguinte;
Como todos os anos, aqui ponho em dia as minhas leituras preferidas – livros admiráveis que me conduzem à reflexão e à beleza de uma escrita que fascina;
Como todos os anos, refugio-me no silêncio, sentado nas pedras das Serras de Fora e de Dentro e do Pico do Castelo, ouço o assobiar do vento que arrasta o cantar dos poetas;
Como todos os anos, uma das minhas evasões que me transporta aos tempos de criança, é “furar” as ondas, desafiá-las e, depois, afundar-me no mar cristalino, voltar à tona de água, transportando a alegria do feito realizado;
Como todos os anos, quando o sol abandona a terra e a noite baixa, de mansinho, fixo o meu olhar no horizonte e revejo as terras por onde andei; 
Como todos os anos, como o pão de Capela que só os Porto-santenses sabem fazer, dando-lhe aquele paladar que tanto me saboreia;
Como todos os anos, dou voltas à ilha e descubro recantos novos onde deposito as minhas confidências;
Como todos os anos, assisto ao Festival de Colombo, por mim há tantos anos inventado e que, felizmente, perdura no tempo como cartaz;
Como todos os anos, recomendo este destino turístico aos meus amigos, como medicamente ideal para a cura de todas as doenças…;
Como todos os anos, viajo no “Lobo Marinho”, um navio admirável nas suas linhas exteriores e, no interior, de um confronto principesco – duas horas e meia de um percurso entusiasmante, por vezes acompanhado pelos lobos-marinhos que, numa verdadeira exibição circense, distraem os passageiros veraneantes;
Como todos os anos, tenho de regressar a casa, ao Funchal, ao trabalho. Antes, porém, faço um convite aos meus possíveis leitores açorianos: venham ao Porto Santo. Experimentem a inigualável temperatura do mar. Percorram a ilha e ouçam as vozes dos poetas que aqui se reúnem todos os anos e sempre descobrem os deuses e as deusas que dão forma aos seus poemas.
As musas, essas, sentam-se na praia e fixam o olhar no horizonte distante e misterioso, onde todas as coisas acontecem… Escondem-se na noite até que a lua, de novo, as ilumine e, de novo, ressuscitem para a felicidade dos poetas.
Enquanto a pequena ilha continua a flutuar neste atlântico imenso, desbravado, da nossa paixão.
 

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Categorias: Opinião

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