1 de setembro de 2019

Terceira

Estive recentemente na ilha da Terceira a efetuar trabalho de campo para os Planos de Gestão dos Parques Naturais de Ilha dos Açores. No entanto, esta é uma ilha que já tinha tido por diversas vezes a minha atenção, nomeadamente quando da elaboração do doutoramento. 
A Terceira é a ilha mais oriental e também a mais antiga do grupo central, com uma idade máxima de 3.52 milhões de anos, ou seja, apenas menos 500 mil anos que São Miguel. É dominada pela existência de quatro grandes aparelhos vulcânicos com diferentes idades e em diferentes estágios de evolução: o mais antigo é o maciço dos Cinco Picos; depois o de Guilherme Moniz; seguido do vulcão de Santa Bárbara e o mais recente é o maciço do Pico Alto. O primeiro apresenta-se muito desmantelado, correspondendo os flancos da antiga caldeira à Serra do Cume e da Ribeirinha. Os outros três exibem ainda caldeiras relativamente bem conformadas, por vezes soterradas por outros produtos vulcânicos mais recentes. 
A Serra de Santa Bárbara domina o extremo ocidental da Terceira. Caracteriza-se pela sua maior dimensão, pela altitude alcançada (1021 metros - o ponto mais alto da ilha) e pelos flancos escarpados e bastante ravinados da sua caldeira onde se localizam diversos aparelhos vulcânicos secundários. Caracteriza-se também pelo seu valor natural, pela integridade dos ecossistemas presentes e pela escala das manchas de vegetação endémica e nativa, com diversos habitats pertencentes à Rede Natura 2000 com estatuto de habitat prioritário dos quais se podem destacar as turfeiras altas ativas, as turfeiras de cobertura e as turfeiras arborizadas, as florestas de laurissilva macaronésica, as florestas endémicas de cedro (Juniperus brevifolia) e também as charnecas macaronésicas endémicas. O valor natural da Serra de Santa Bárbara e da área central da Terceira é muito elevado no contexto do arquipélago, esta é uma ilha com um enorme potencial para o estabelecimento efetivo de ações de conservação da natureza e para a divulgação científica e ambiental.
Para além do valor natural da paisagem, a ilha Terceira, ou a ilha de Jesus Cristo, como também é chamada, caracteriza-se também pelo seu valor cultural. A recuperação da cidade de Angra do Heroísmo e a sua preservação atual é um bom exemplo do que os açorianos podem fazer, em termos de concretização prática de um desígnio local e regional quando se dispõem a isso. O Museu de Angra é um local de grande interesse para se entender a história do arquipélago, e a vida cultural da ilha tem relevância no panorama de todas as ilhas.
Com efeito, esta é a segunda ilha mais populosa dos Açores. Para além dos núcleos de Angra do Heroísmo e da Praia da Vitória o povoamento é caracteristicamente linear e surge praticamente em redor de toda a ilha. A percentagem de área ocupada pelas pastagens e espaços agrícolas é aproximadamente igual à de São Miguel, mas existe menos área de floresta de produção e uma área consideravelmente maior com vegetação natural. Na Terceira encontram-se diversas zonas de pastagem no interior da ilha, por vezes associadas às lides tauromáquicas que aqui têm tradição. O modo de ser combativo dos terceirenses, que se encontra inscrito na História de Portugal, terá conduzido a que esta seja a ilha de origem do lema dos açorianos, que adoto também como meu: “Antes morrer livres que em paz sujeitos”. 

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Categorias: Opinião

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