31 de agosto de 2019

Directo ao Assunto

De novo as promessas políticas nos debates televisivos bem como nos palanques das cidades e vilas!

É sabido, mas tantas vezes confundido, que temos o “direito à liberdade”. De facto, é um direito inapelável, intocável, irreversível até nos meios da comunicação social de exprimir o eventual pensamento único dos seus proprietários, naturalmente em consonância com os seus interesses pecuniários e a sua tão repetida pauta eleitoral. De igual forma, é facultado – nestes particulares momentos - o direito de mentir e distorcer. Em abono da verdade, é francamente observável nas temporadas eleitorais a toada para alguns de uma nota só que se torna uma obsessão, de forma a impedir que reflua para algum noticiário televisivo determinada nota dissonante (que podia ser musical) por parte de quem seja julgado a ralé das redações ou candidato do outro lado contrário. É interessante observar que, quando os adversários pretendem exercer também os mesmos “direitos”, nessa tão defendida liberdade de expressão, valem-se de um eufemismo: “quem responde aos desmandos defende a censura. ” Perante tudo o quanto atrás foi manifestado, penso quão prodigioso seria para mim poder melhor explicar o que por inerência do contexto que é para muitos indivíduos subjectivo, pelo que sou compelido a pegar num assunto sobre política (também filosofia) que julgo ser perfeitamente cabível nesta renovada época de promessas políticas que põem a cabeça dos eleitores a andar à roda, ou melhor, a percorrer e a condescender no mesmo cenário. Pois não há outro, na verdade!
 
Tenho grande pesar que a ética, sendo um dos grandes capítulos em que se divide o pensar do ser humano desde os primórdios da filosofia, na Grécia Antiga, nestes momentos não seja sentida e exercida com honestidade. Também, sinto consternação em poder analisar que a maior parte dos eleitores e, muito particularmente, a maioria dos que procuram ser eleitos, ignorem completamente que a origem da ÉTICA teve e tem uma íntima ligação com a política, atrevendo-me a dizer que chega mesmo a uma quase identificação, mas somente naquele tão longínquo tempo da Antiguidade. É que - ética - é um conceito iminentemente ligado ao colectivo seja esse colectivo a congregação (o caso das éticas profissionais), a nação ou a humanidade (onde se colocam todas as questões dos direitos humanos). Na verdade, deste modo é que a Filosofia Política foi sempre tratada dentro do grande capítulo da ética que, com a Física (e também a Metafísica) e a Lógica, compunham o quadro geral da filosofia na Antiguidade. Aproveito para referir, que o conceito de ética é também algo estreitamento vinculado ao sentimento dos povos, ao seu modo de viver e aos seus costumes, como indica a raiz grega da palavra (ethos), que tem naturalmente evoluído no seu conteúdo, como evoluem todos os costumes ao longo do tempo e da história. As éticas de hoje são em vários aspectos profundamente diferentes das antigas, e a forma de encarar a escravidão é provavelmente o exemplo mais conspícuo dessas diferenças, que abrangem muitos outros aspectos relevantes. Por exemplo, os antigos não conheciam nenhuma ética da humanidade e um dos seus princípios de virtude era o de fazer o mal aos povos inimigos. Mas, não querendo muito afastar-me do título deste texto quero referir,   quanto à política que a sua ideia básica desdobrar-se-á em dois conceitos diferentes que convivem diariamente na opinião de uma grande parte dos cidadãos e, por conseguinte, na motivação da acção dos políticos: 1) - é o de que a política, na minha opinião particular deveria ser a mais nobre das ocupações humanas, é o empenho na realização do bem comum, do bem da colectividade ao qual se aplica como a um propósito final; é a concepção de Platão e de Aristóteles, ou seja, dos filósofos gregos que a especificaram na sua polémica de afirmação da filosofia (que se confundia nessa altura com a política), contra o pragmatismo dos sofistas e dos retóricos que ensinavam a linguagem eficaz para a condução das assembleias e das suas próprias funções políticas; 2) - é o de que a política é a arte e a sabedoria de conquistar e de manter estável o poder; o fazer o bem; nesta visão, não é propriamente um fim, mas apenas um meio de ganhar o apoio dos cidadãos para a conservação e a estabilização do poder, sendo servidor paralelo com outros meios também válidos, como o estratégia de mercado, a influência dos meios de comunicação social, o clientelismo, o populismo e até mesmo a mentira, a violência e a corrupção. Este é o conceito derivado das interpretações mais correntes dos conselhos de Maquiavel e é o que melhor se pode enquadrar nas concepções da ciência política moderna, naturalmente entendida esta ciência como conhecimento neutro, isto é, destacado de qualquer consideração de natureza ética!
 
CONCLUO dizendo (de forma politicamente incorrecta): o político uma vez mais falará o que o eleitor quer escutar, não sendo na maioria das vezes o que ele, concorrente, acredita e nem o que seria para ele viável. Portanto, caros leitores, começou já a época da reprodução à larga do que a maioria quer ouvir, porquanto o que essa maioria quer ouvir nem sempre é o que é possível realizar. Por favor, não se admirem e, muito menos, não lamentem mais tarde!

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Categorias: Opinião

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