14 de agosto de 2019

As Lajes, os ingleses e a USAirForce

Na minha infância terceirense, ouvia falar da Aldeia Nova, do Bairro de Santa Rita e do capitão Romão, sem imaginar que, por detrás desses nomes estavam histórias relacionadas com o Campo de Aviação, que parecia americano, dava emprego a muita gente, e permitia, uma vez por ano a distribuição de “caixinhas escolares” com objetos maravilhosos para os nossos olhos carentes, e facilitava, também uma vez no ano, a “entrada geral” na Base.
Afinal, a Aldeia Nova era o resultado do realojamento das famílias a quem tinham sido expropriados os terrenos de cultivo, para serem construídas as pistas do aeroporto; o bairro de Santa Rita era onde se alojavam alguns militares americanos e muitos operários que, de outras localidades da Terceira, mas também de outras ilhas, se deslocavam para estarem mais perto do novo trabalho que tinham conseguido ao serviço do exército português ou dos aviadores ingleses e americanos. E as “caixinhas escolares” eram os lindos recipientes de cartão colorido que os americanos faziam distribuir pelas escolas, em nome do ‘apreço pela comunidade’. Conceitos estranhos na altura! E rodeados de encantamento...
Tudo tinha começado quando, iniciada a II Guerra Mundial, o governo de Lisboa, apesar de se declarar neutro, acedia aos apelos ingleses, em nome da velha aliança luso-britânica, para ser organizada a defesa das ilhas. A Inglaterra receava os alemães e a América pretendia estabelecer as suas fronteiras longe da sua costa leste, aqui no meio doAtlântico.
Já havia uma pista de aviação desde 1930, a da Achada, única nos Açores até então. E fora na Terceira a sua localização porque, por uma lado, parecia, na altura, que seria a aviação naval a prevalecer, para a qual já havia aeroportos naturais nas baías de Ponta Delgada e da Horta, só faltando uma pista terrestre como recurso perante o estado do mar, que, mesmo nas baías, impossibilitasse o poiso dos ‘barcos voadores’. Por outro lado, o atrevimento dos terceirenses fora notável: o Estado não se comprometera com o custeamento da construção de aeroportos e endossara os respetivos encargos para os municípios. Tanto Ponta Delgada como a Horta se arrepiaram com a perspetiva do investimento: afinal a aviação que se avizinhava não era ainda negócio atrativo. Em Angra havia, porém, nos arredores, um terreno baldio que podia servir, sem custos de expropriação e a obra fez-se com o entusiasmo dos decisores locais que assim marcavam pontos perante S. Miguel e o Faial.
Com o início da guerra mundial, impunha-se obra mais sólida e útil: a Achada, além de ter uma pista curta, de 600 metros, padecia com nevoeiros frequentes. As autoridades de Lisboa decidiram então enviar um corpo expedicionário para construir uma pista em S. Miguel e outra na Terceira. Desde a altura da construção da Achada, dez anos antes, se sabia que os locais adequados eram em Santana e nas Lajes, então ainda Lagens. Para Santana deslocou-se uma parte dos militares para construírem o que seria ali a Base Aérea n.º 4, e, para a Terceira, dirigiu-se o resto da tropa, que começou os trabalhos nas Lagens. Um certo capitão Romão foi nomeado responsável pelas obras e logo se tornou o empregador de muitos carros de bois e operários para as terraplanagens, com vista a ser construída uma pista de terra batida mais fiável que a da Achada. 
Estava-se em 1941 e os ingleses impacientavam-se com a lentidão das obras. Só a Inglaterra tinha, então, a noção da importância estratégica destas ilhas que, no meio do mar, se afiguravam extraordinários porta-aviões fixos para a aviação que então se desenvolvia. E, em 1943, foi celebrado um acordo que permitia que a RAF-RoyalAir Force viesse acelerar a construção da pista das Lajes. A RAF, mas não os americanos de quem Salazar desconfiava! Por isso, quando desembarcaram os ingleses em Angra, levavam consigo uma força americana, disfarçada de apoiante da RAF...e rapidamente a pista de terra batida começou a ser reforçada com chapas de ferro.

José Adriano Ávila

Print
Autor: CA

Categorias: Opinião

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima