14 de agosto de 2019

Guilherme provoca turbilhão de vontades, de interesses e de receios

QUEM É GUILHERME? - Guilherme Shettine Guimarães é um dos cerca de 13 milhões de praticantes federados no Brasil que através do futebol procura melhorar a vida. Os clubes europeus são uma excelente montra para os jogadores com o estatuto de Guilherme. Não se evidenciaram nos campeonatos locais, mas há centenas dos chamados agentes que os vão colocando em clubes por este mundo fora. Clubes de média e de pequena dimensão. 
Em Portugal são centenas, talvez perto de um milhar, por todas as divisões, incluindo as que não são nacionais. Só no Santa Clara são 11 desde que Zé Augusto foi riscado do plantel e de uma forma que já motivou critica de quem o representa, aguardando-se pelo prometido esclarecimento da SAD.
Guilherme aterrou em Ponta Delgada em Janeiro de 2017. Veio por empréstimo do Atlético Paranaense. Tinha 21 anos de idade. 
O Santa Clara ia no quarto treinador da época de 2016/2017. Carlos Pinto manteve Berny Burk/Pineda, Clemente e João Reis no ataque. Foi uma época que a equipa começou muito bem com Daniel Ramos, mas acabou a 2.ª Liga em 10.º lugar.
A estreia de Guilherme aconteceu a 12 de Fevereiro, em Barcelos, num jogo com o Gil Vicente. Entrou aos 64 minutos a render Ruben Saldanha e aos 83 minutos marcou o golo do Santa Clara na derrota por 2-1. 
Nunca foi prioridade de Carlos Pinto. Esteve 429 minutos em campo, apenas por 3 vezes como titular. Marcou mais um golo, no jogo final do campeonato, com o Portimonense.
Na época seguinte (2017/2018) começou com Carlos Pinto. Esteve em 7 jogos (954 minutos), mas somente em um como titular. Foi na Taça de Portugal. Não marcou nenhum golo. 

ANDOU PELAS ARÁBIAS - Em Janeiro de 2018 foi emprestado ao clube da Arábia Saudita do Al Batin. Fez até Abril 10 jogos e marcou 5 golos.
No início da época passada, com contrato com o Santa Clara até Junho de 2020, apresentou-se. Foi riscado do plantel que iria competir na 1.ª Liga. Foi novamente emprestado, agora para o Dibba Al Fujairah, dos Emirados Árabes Unidos. 
Depois de 4 jogos voltou ao Santa Clara. Estava-se em Setembro. Já não podia ser inscrito. Andou a treinar cerca de 3 meses até à reabertura do segundo período de inscrições.
Com a saída de Fernando e com a lesão de Thiago Santana, Guilherme teve finalmente a oportunidade de jogar com mais frequência. E fê-lo no palco privilegiado da 1.ª Liga. Estreou-se com o Benfica, a 3 de Fevereiro. As boas exibições levaram-no a ser 14 vezes titular e suplente utilizado em 4 desafios. Foram 1 324 minutos, com 7 golos. 
Guilherme saiu do anonimato. Para gáudio do atleta, de quem o representa, dos apêndices, do Santa Clara e do Atlético Paranaense, que tem 50% dos direitos económicos do passe do jogador.
Uma “explosão” de 5 meses que mereceu a atenção de clubes nacionais e estrangeiros.

CONTRADIÇÕES - Com o campeonato a terminar, foi público o interesse manifestado pelo Sporting de Braga. Estava-se no início de Maio.
Num pormenorizado comunicado, a SAD do clube do Minho conta a história do processo.
Refere ter mandatado um empresário para saber junto do Santa Clara as condições para a transferência. Ficou com a informação de que a transferência só se concretizaria pelos 3 milhões de euros. Desistiu face ao valor pedido.
Aqui começam as contradições. 
Revelou a SAD do Santa Clara, também em comunicado, ter havido uma abordagem directa a Guilherme sem passar pelos administradores, situação que “não tolera” e “punível nos regulamentos”, para mais estando o jogador com contrato de trabalho. 
Foi esta conduta, diz o Santa Clara, que levou a exigir ao Braga o valor da cláusula de rescisão para a transferência. Não são mencionados os números, mas, pelo que diz o clube minhoto, eram 1 milhão e meio de euros.

PORQUE GUILHERME INTERESSA AO BENFICA? - O Sporting de Braga refere que após o fecho do campeonato tomou conhecimento das negociações com o Benfica para a aquisição do avançado por 1,5 milhão, permanecendo Guilherme no plantel do Santa Clara. 
O processo não avançou porque o jogador não aceitou, preferindo o Sporting de Braga, como deu conhecimento público, por ter a oportunidade de jogar e de estar numa equipa com outras perspectivas nas provas que compete.
Agora, qual o interesse do Benfica em pagar por um jogador que, provavelmente, nunca iria jogar pela equipa, como tem acontecido com outros, incluindo Patrick, alvo do mesmo movimento quando estava no Marítimo da Madeira?
O interesse do Benfica começou por Rashid e passou para Guilherme. As negociações com o avançado foram mais precisas. Surgiram após o último jogo do Santa Clara, que foi precisamente contra o Benfica em Lisboa e cuja vitória confirmou o título pela equipa de Lisboa.
No curto comunicado da SAD do Santa Clara, em resposta ao Sporting de Braga, não é feita referência às negociações com o Benfica pelo passe de Guilherme.

ACUSAÇÕES GRAVES - Aliás, o comunicado da SAD do Santa Clara fala de generalidades e deixa por responder aspectos que são graves e que ferem a honorabilidade dos responsáveis. 
As frases são mais de apaziguamento. Não respondem às acusações. O Santa Clara passa ao lado. 
Ao não serem elucidados os aspectos mais gravosos mencionados pelo Sporting de Braga, deixam como conclusão que o processo teve os trâmites referidos.
Ao ser afirmado terem os representantes de Guilherme informado a SAD bracarense que o Santa Clara aceitava negociar o passe pelos mesmos valores do Benfica, independente do clube, o Sporting de Braga avançou com a proposta no dia 31 de Julho, mas nunca obteve resposta;
Refere ainda o clube de Braga que “a 1 de Agosto o CD Santa Clara contactou o jogador e os seus representantes para a marcação de uma reunião, no dia seguinte, em Lisboa, com os responsáveis do SL Benfica. Guilherme Schettine e os seus empresários recusaram reunir”;
Adianta o comunicado ter o presidente António Salvador contactado “diretamente o administrador Diogo Boa Alma, que afirmou que não negociaria com o SC Braga por ter um compromisso pessoal para colocar o jogador no SL Benfica e por temer represálias, remetendo para a cláusula de rescisão e assim faltando à palavra dada aos representantes do jogador”.
Noutro ponto de alguma gravidade, mas que não atinge o Santa Clara, diz o Sporting de Braga ter “a 2 de Agosto, e apresentando-se como representante dos interesses do SL Benfica, José Luís Gonçalves (ex-diretor de futebol do CD Aves) entrou em contacto com o empresário do jogador, Javier Rangel, pedindo uma reunião com o presidente do SL Benfica e garantindo que tanto Guilherme Schettine como o seu agente seriam “bem recompensados”. Tal abordagem pode ser facilmente comprovável”.

A TRISTE REALIDADE - Enfim, esta a triste realidade do futebol global, principalmente quando se atingem verbas avultadas e muitos, muitos interesses, ficando muitas vezes os indefesos atletas de mãos atadas, prejudicados, encostados.
O Sporting de Braga, que foi um aliado no processo que pretendia retirar o Santa Clara da 1.ª Liga, porque a sua equipa “B” desceria de divisão se o União da Madeira se mantivesse, terá situações em casos de transferências que não abonam. 
A parte final do comunicado do Santa Clara, ao afirmar “infelizmente, de putativos ‘Salvadores’ está o futebol português cheio”, numa indirecta alusão a atitudes tomadas pelo presidente do Braga, acaba por ser a única resposta directa ao comunicado bracarense, que termina afirmando “no futebol português, de boas almas está o inferno cheio!”.

“A FACHADA DO FUTEBOL PORTUGUÊS” - Independentemente do conteúdo dos passos dados até ao desinteresse em contratar Guilherme, a SAD do Sporting de Braga aborda um tema premente mas que está há muitos anos enraizado.
Refere que “deviam as Sociedades competir num plano de igualdade” e não resignarem-se “a uma lógica vertical de influências, na qual “manda quem pode e obedece quem tem juízo” e onde se multiplicam operações que escapam à lógica desportiva, se inflacionam de forma especulativa os valores do mercado e se impede que outros clubes possam reforçar-se.”
Outra realidade focada é sobre “a fachada do futebol de um País que tem uma Federação tão pujante e uma Liga que se apresenta cada vez mais sustentável, esconde a pobreza de um edifício de campeonatos profissionais onde competem clubes tão dependentes de uma mão que as alimente política e financeiramente e tão permeáveis a influências externas, não pela sua falta de grandeza institucional, mas pela pequenez de alguns dos seus dirigentes.”
A pura da verdade. O campeonato da 1.ª Liga está inquinado e quase todos resignam-se. Este panorama interessa aos três maiores clubes portugueses, porque mantêm o poder e o domínio sem serem acossados.
E como estará Guilherme? Onde jogará? As respostas devem ser dadas oportunamente.

 

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Categorias: Opinião

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