13 de agosto de 2019

Trilhos de S. Miguel

Há já alguns anos que eu não percorria os trilhos de S. Miguel, onde tive, então, a grata possibilidade de conhecer melhor alguns dos mais belos recantos da nossa ilha, que me fascinaram, não apenas pela profusão da paisagem luxuriante micaelense, como pela descoberta de lugares inimagináveis.
Passados todos estes anos, nestes dias de Verão, fui instado por familiares a voltar a andar a pé ao redor da ilha e com gosto lá me pôs a caminho, numa jornada de convívio e lazer que sempre fazem bem à alma e ao corpo.
Desta vez, o que mais me impressionou foi a quantidade de grupos de pessoas, nacionais e estrangeiros, que faziam o mesmo percurso, pois em dez anos reparei na grande diferença que é fazer um trilho em S. Miguel. Trata-se de uma vertente turística já com um peso significativo, que eu ainda não me tinha apercebido. É evidente que eu tinha conhecimento que havia turistas a andar a pé na nossa ilha, o que eu desconhecia era que são muitos os que aproveitam a vinda aos Açores para percorrerem os nossos trilhos a pé e apreciarem que a nossa mãe-natureza foi pródiga para com estas ilhas.
Sobre as maravilhas dos Açores já quase tudo foi dito ou escrito, afinal, o nosso arquipélago tem sido, nestes últimos anos, distinguido pelas mais diversas entidades, como um destino de eleição mundial a nível do turismo de natureza, paisagístico ou sustentável.
Caminhos ancestrais que os nossos antepassados calcorreavam por necessidade de mobilidade, estão a ser transformados em pequenas e grandes rotas pedestres, que atraem, também eles, cada vez mais visitantes, vindos um pouco de todo o mundo, em busca dessa ligação telúrica, experiência espiritual ou simples desafio físico, ou mesmo talvez um pouco disto tudo, pois cada um aqui vem com a sua própria motivação pessoal.
No entanto, com o crescimento exponencial do turismo, naturalmente surgem preocupações sobre a real sustentabilidade e a capacidade de se preservar o nosso ambiente sem menosprezar a qualidade de vida nestas ilhas. Os governantes afirmam que não há razões para alarme, mas convém olhar com olhos de ver para esta situação. É exemplo disto, o que acontece na Lagoa do Fogo, cujo “trilho” é percorrido por inúmeros turistas, quando se sabe que não e permitido descer até às margens da lagoa, que é um dos principais reservatórios de abastecimento das nascentes de água potável que rodeiam aquela serra.
Por isso, torna-se importante a implementação de medidas de controlo, já que os Açores são uma Região bem dotada de regulamentos para zonas sensíveis, bem como de instrumentos de ordenamento do território, que possam possibilitar uma equilibrada gestão e proteção desses espaços.
Pensei que conhecia bem a nossa ilha e a suas belezas naturais. Contudo, foi palmilhando-a, na companhia de amigos, que tive a dita de observar as mais belas vistas do mundo e estas encontrei-as precisamente nas nossas ilhas. 
Fiz bem em aceder ao convite para fazer uns trilhos, pois continuo a impressionar-me, em cada recanto desta ilha, pela variedade do verde intenso, em que o nosso olhar se queda na exuberância das altas ravinas e cortam a respiração, pela explosão de tanta beleza. Apreciar a exuberante vegetação, prenhe de flora endémica, toda ela densa e cheia de encantos revestidos da imensidão da distância que guarda características inigualáveis em vários pontos de S. Miguel, supera qualquer cansaço físico, e dão-nos a sensação que vivemos noutro mundo com paisagens únicas e deslumbrantes que extasiam qualquer pessoa.
Por tudo isto, é de enaltecer o esforço de investimento que as autarquias e o governo têm feito na manutenção desses caminhos e trilhos, pois cada vez mais adeptos optam por caminhar a pé e desfrutar das maravilhas que a natureza nos bafejou.
Outrossim, importa, igualmente, investir e muito na sensibilização ecológica das populações, pois não é fácil eliminar pequenos focos de lixo abandonado, que pululam por vários pontos desta ilha do Arcanjo, embora fora dos aglomerados.
Numa terra de sonho, há ainda muito a fazer para que a nossa sumptuosa paisagem continue a impressionar e a emocionar todos os que procuram os Açores, não pelo sol, mas pela gratuidade perene da natureza que nos envolve.

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Categorias: Opinião

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