13 de agosto de 2019

“O uso das novas tecnologias será um problema social?”


“O Uso das Novas Tecnologias e as Redes Sociais pelos Jovens” é o nome do estudo de carácter exploratório que efetuamos este ano letivo com o objetivo de compreender a utilização das Novas Tecnologias e Redes Sociais por jovens dos 12 aos 15 anos na costa sul da Ilha de São Miguel e cujos resultados são agora divulgados.
O interesse pelo tema deveu-se, sobretudo à observação e constatação, em contexto de consulta de Psicologia e Pedopsiquiatria, de um aumento de preocupação por parte dos progenitores em relação ao uso excessivo das redes sociais e tecnologias por parte dos seus filhos, e daí resultante a sua dificuldade na definição de limites da utilização assim como do tempo despendido no uso das mesmas.
A verdade é que estamos perante a “Era da Tecnologia”, em que o acesso a esta revela-se cada vez mais fácil e imediato e presume-se que, se a sua utilização for de carácter moderado e não excessivo, não acarretará consequências físicas e psicológicas nefastas para os seus utilizadores. 
Mas será assim mesmo? O uso de formas rápidas e práticas de comunicar terá apenas vantagens ou representa um problema social? 
O nosso trabalho clínico levou-nos a esta reflexão. 
Quando, em contexto de intervenção psicológica, é solicitado à criança que faça o desenho da sua família, e a criança retrata as pessoas, animais e até o sol com a forma geométrica de um quadrado, elucida-nos especificamente para o jogo favorito daquela faixa etária. 
Adicionalmente à preocupação pelo uso excessivo das redes sociais por parte das crianças e jovens, ainda denotamos em contexto de consulta a criação de crenças de estabelecimento de uma relação amorosa com uma pessoa que se encontra a quilómetros de distância ou até no outro lado do mundo, parecendo, por vezes, notar-se alguma dificuldade em distinguir o que é real da realidade puramente virtual. 
Da revisão bibliográfica que efetuamos sobre esta matéria, estudos recentes apontam para que a utilização excessiva das Novas Tecnologias poderá provocar um desequilíbrio físico e psicológico, com problemas como timidez, ansiedade, isolamento social e depressão. É frequente a presença de alterações no humor dos jovens quando impossibilitados de aceder à internet, sendo notório o desagrado e a angústia na procura da resolução da situação, bem como episódios graves e frequentes de conflituosidade entre pais e filhos. Enquanto técnicas de psicologia cuja pedra basilar passa pela prevenção e intervenção no âmbito da saúde mental dos indivíduos, decidimos levar a cabo uma investigação de carácter exploratório para compreender este fenómeno.
A população alvo incidiu em jovens a frequentar o 3º Ciclo do Ensino Básico nas escolas de EBS de Povoação, EBI de Ponta Garça, EBI de Água de Pau, EBI de Ginetes e EBS de Laranjeiras. O acesso à amostra contou com a colaboração das escolas que autorizaram a investigação, sendo a amostra constituída por 547 estudantes. 
De acordo com a análise dos resultados, observa-se que a maioria dos jovens (51%)começou a utilizar a internet a partir dos 3 anos de idade. Quanto à utilização das Redes Sociais 49% da amostra indica a sua utilização a partir dos 9 anos de idade, o que poderá significar que a utilização das novas tecnologias assume um carácter cada vez mais precoce. 
Quanto ao tempo despendido, 77,1%refere que utiliza as redes sociais todos os dias da semana e 56% entre 2 a 5h por dia.
O Youtube foi indicado como a Rede Social mais utilizada pelos jovens, seguida do Instagram e logo depois pelo Facebook. Os resultados diferem quando se trata da rede social preferida dos jovens. Neste caso, o Instagram foi considerado a Rede Social favorita pela maioria jovens, seguida do Youtube e do Facebook.
Este estudo sustenta as conclusões dos estudos contemporâneos de outros autores que se interessaram sobre esta matéria, nomeadamente que: 
- As Novas Tecnologias e as Redes Sociais são inevitáveis e fazem parte do quotidiano das gerações mais jovens.
- Os jovens, apesar de possuírem informação sobre perigos e riscos associados à sua utilização, estas constituem o alicerce da manutenção das relações sociais presenciais. 
Será que esta nova forma de comunicar é o pilar para um desenvolvimento saudável e para a promoção de interações adequadas? Concluímos que as redes sociais têm o seu valor como meio de interação, partilha de informação e conhecimento entre as pessoas que as integram, mas o seu uso excessivo poderá levar à trivialização da interação social e à superficialidade das relações interpessoais. A interação social nas redes não deve ter um efeito sobre a nossa rotina da vida quotidiana, mas sim acrescentar novas interações online às relações sociais previamente existentes.
Baseado nestes resultados, desenvolvemos o Programa “Consciencializar para o Bom Uso das Redes Sociais” que foi implementado durante o ano letivo 2018/2019 a trinta crianças de uma turma do 5º ano e outra do 6º ano da EBI de Água de Pau.
Este programa teve como objetivos promover o uso consciente das redes sociais e enfatizar a importância das interações sociais para o crescimento saudável entre as crianças/jovens. 
Observou-se que o grau de satisfação dos participantes nas sessões foi positivo e que o programa foi útil essencialmente para fazer “parar e pensar” acerca do uso das Novas Tecnologias e das Redes Sociais. A análise qualitativa dos resultados da avaliação das sessões aponta que no geral os jovens ficaram elucidados acerca das vantagens e desvantagens das redes sociais, dos perigos associados à utilização das mesmas, da noção do tempo que passam no telemóvel, sobre aquilo que sentem quando estão a fazer “zapping”, na aprendizagem da gestão de tempo e do local de utilização das tecnologias e redes sociais, principalmente em ambiente familiar, e tal como descrito por uma criança “aprendi a utilizar as redes sociais com inteligência”.
No futuro pretende-se que sejam as crianças e os jovens, os detentores “desta mensagem”, sendo os próprios a dinamizar, de forma coordenada e sob tutoria, as sessões para os restantes colegas de outras turmas.
Em jeito de conclusão e para que as Novas Tecnologias sejam utilizadas de forma consciente e não abusiva, deixamos o que consideramos como principais recomendações.
Os jovens deverão ser elucidados acerca das vantagens e desvantagens das redes sociais e dos perigos associados à utilização das mesmas, estar conscientes do tempo que passam no telemóvel e no computador, das oportunidades que poderão estar a perder de aprendizagens úteis e interações salutares com o mundo que os rodeia e do isolamento e tensão que esta adição pode causar no ambiente familiar. Os pais, por sua vez, deverão fomentar o diálogo sobre este assunto, estar informados e ficar seguros da sua importância em traçar limites relativamente ao tempo permitido e ao conteúdo visualizado, dado que é difícil para os adolescentes, principalmente para os mais jovens, fazê-lo.

                          23 de julho de 2019

Ana Cristina Nunes/Vanessa Pereira
 

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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