11 de agosto de 2019

O espólio de Pré-História Peninsular, de Manuel Sousa d’Oliveira

Os Açores são parte integrante de Portugal, cujo território continental é de uma vasta riqueza arqueológica, em termos de evidências de ação humana, anterior ao surgimento da escrita. De antes sequer haver “Portugal”. Daí estudar-se “Pré-História Peninsular” e não “Pré-História de Portugal”, visto que a cultura material dos povos de há mais de 20.000 anos não se coibia nas fronteiras não naturais – conceito que nem sequer existiria. Por conseguinte, deve a investigação do passado remoto da Humanidade transcender as delimitações artificiais do território.
A materialidade antiga deve aqui, nos Açores, também assumir o seu lugar. Até porque os programas escolares regionais integram, como devem integrar, estes temas.
No entanto, ao aluno açoriano estão vedadas as condições para que usufrua diretamente desta parte essencial da sua própria História, enquanto pedaço da Humanidade. Isto provavelmente porque o tipo de objetos não faz parte integrante da “História dos Açores”, strictu sensu, que tem vindo a ser a prioridade da política educativa.
É essencial que a educação assuma, para além da imprescindível dimensão tecnológica, que se tem vindo a incentivar, uma extensão tridimensional. A observação de um artefacto, devidamente contextualizado, geográfica e cronologicamente, permite uma maior grandeza das conclusões que dele provêm. Sobretudo é um instrumento educativo. Um mecanismo didático, que é simultaneamente uma peça real do Passado.
Graças a Manuel Sousa d’Oliveira, pioneiro da Arqueologia nos Açores, que muitos artefactos, de sítios arqueológicos do continente, pré-históricos, e alguns romanos, estão na Região Autónoma, designadamente em S. Miguel: em Ponta Delgada e em Vila Franca do Campo.
Sousa foi professor em várias Escolas Industriais e Comerciais do país, nomeadamente Viana do Castelo (1951), Aveiro (1963), Coimbra (1965), Caldas da Rainha (1971). Locais icónicos da riqueza material pré-histórica e clássica, onde despertou o interesse aos seus alunos que, num tempo em que a logística de enviar uma peça era menos complexa que enviar uma fotografia (anos 60/70), lhe remetiam os objetos que encontravam, acompanhados do devido registo da sua contextualização, enquanto estava em S. Miguel, nas suas campanhas arqueológicas. O próprio trouxe por sua mão várias peças, reconhecendo a evidente pertinência da presença destes objetos nos Açores. A maioria das proveniências está devidamente documentada, dado que as peças são acompanhadas pelos registos de achado. Pequenas notas, manuscritas em papel, ou nos próprios vestígios.
Não é de todo recomendável isto suceda, dado que a descontextualização dos achados arqueológicos, sem registo de campo, inviabiliza quase a totalidade do seu potencial científico.
Facto é que, por isto, quer a Fundação Sousa d’Oliveira, quer o Museu Municipal de Vila Franca do Campo, são depositários da maior coleção regional de Pré-História Peninsular. Assim sendo, esta capacidade deve ser capitalizada em prol da Educação na Região.
Por direito histórico, cultural e identitário, estes fragmentos de um passado remoto, de milhares de anos antes de os Açores terem gente, é também da gente dos Açores.
Assim se faz, também, a construção dinâmica da Autonomia.
Na imagem: logótipo do primeiro “Clube de História”, criado por Sousa d’Oliveira, nas Caldas da Rainha, em 1971.

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Categorias: Opinião

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