11 de agosto de 2019

Arquitectura LXVIII

...”Quando havia estratégia para o desenvolvimento profundo dos lugares, os arquitetos eram parte dessas decisões. Hoje, a economia e a política têm uma dinâmica sobre as decisões, mesmo as que dizem respeito à construção e transformação dos lugares, procurando soluções mais rápidas, menos aprofundadas. O caminho do futuro é voltarmos a encontrar algum tempo para a reflexão e para a ação.”
Ricardo Back Gordon, arquitecto, in entrevista de Valdemar Cruz, “E - Revista do Expresso” de 27 de Julho de 2019.
Neste quadro, de juristas e políticos requererem só para si o planeamento do território, acabou-se com o Conselho Superior de Obras Públicas, ultimo bastião do pensamento técnico nas obras públicas, mas que avaliados os danos daquela empresa, em boa hora, recentemente se retomou.
Mas é claro que nem tudo lá vai, aliás poucas lá irão, e até que ele retome a sua antiga força, e reconheçamos a sua importância, não nos doa a nós a cabeça, porque no erário público e no território continua a doer.
Em abono de falsas urgências e falaciosas economias, como bem sabemos, vale tudo, e aqui, infelizmente encaixa-se bem todo o processo da construção do novo Estabelecimento Prisional de Ponta Delgada.
Em 2017 o Governo aprovou, e bem, por urgente, digo eu, o Relatório que prevê a construção de um novo Estabelecimento Prisional na ilha de São Miguel.
Tomada a decisão, o Governo Regional, cede como terreno, a Mata das Feiticeiras, um morro de escórias vulcânicas, classificado no Plano Director Municipal da Lagoa (PDM), como “Espaço afeto à exploração de recursos geológicos”(!).
O referido morro está adjacente à localmente denominada Área Industrial do Cabouco, na Lagoa, e começou em tempos a ser explorado no seu recurso geológico, a extracção de bagacinas, entretanto desactivada, não constituindo pois, surpresa para ninguém o que lá estava, de que se tratava, e a assunção de assumido atropelo ao PDM, que a decisão constituía.
A Mata das Feiticeiras mantinha todo o seu feitiço que contaminaria todo o processo.
Os Planos, como nos habituaram, são um “faz de conta” que se tornou corrente, mas que no entanto dá jeito ter para dar ar de coisa séria, e por isso já ninguém estranha que a própria administração central que os encomenda e aprova, não os respeite, como é o caso.
Para dar ar de coisa séria, como convém, a Portaria de 2018, que assume os encargos pelo corte do morro pela base(!), refere que o Instituto de Gestão Financeira assegura de forma racional e eficiente a gestão dos seus imóveis e das suas empreitadas!
Que faria se a gestão fosse irracional e ineficiente!
E pasme-se o descaramento, porque a Portaria refere ainda:
-...“Com base no levantamento topográfico e no estudo geológico e geotécnico efetuado ao terreno, verificou-se que o mesmo está coberto por bagacinas, que urge remover antes do início da execução da empreitada de construção do novo Estabelecimento Prisional”...
Se não fossem aqueles estudos, ainda que o PDM o referisse, com certeza que ninguém teria dado pelo morro que tem nove hectares de área e talvez quinze a vinte metros de altura média, carregado de bagacina à vista!
Mesmo assim, o DN de 13/10/2017, noticiava:
-”O terreno foi identificado, como reunindo todas as condições para a construção do novo estabelecimento prisional, na sequência dos trabalhos desenvolvidos”.
A relação entre a natureza e a construção que era uma preocupação decisiva na arquitectura deixou de o ser, e por isso cortando o morro pela base, decapitando-o, ignorando as cicatrizes que daí advirão na envolvente, implanta-se aí, na área industrial, sem qualquer cerimónia ou pudor.
E o rapar pela base o morro de bagacina, ao longo de três anos, até 2021, estima-se em três milhões de euros, quando um terreno de quinze hectares no Cabouco, está anunciado on line por cento e seis mil euros...
Mas não deve ser bom, nem de ninguém conhecido, e obrigaria à suspensão do PDM, o que é uma complicação, que desacreditaria o processo...
E ainda que não tendo acontecido, porque é urgente, foi anunciada a apresentação do Estudo Prévio de Arquitectura para Julho, que afinal com tantos e aturados estudos não dispôs certamente de levantamento topográfico, porque só se poderá realizar depois da decapitação do morro, quando aí nascer o terreno de implantação.
É realmente o reino do faz de conta...
E para onde levarão a bagacina, que pelo seu inusitado volume dará ocasião a novo atentado ambiental?
Com certeza que racionalmente e eficientemente já o pensaram!
Caramba, os nove hectares com uma altura média, estimada muito por baixo, de cinco metros, darão um volume equivalente a um edifício de seiscentos metros de comprido, por quinze de largura com doze andares, o que também no reino do faz de conta, se arruma bem em qualquer grota!
Num tempo de reflexão, a que é urgente voltar, como refere o arquitecto Back Gordon, com base em sérios pareceres técnicos ter-se-ia encontrado um terreno adequado, cuja compra até aos três milhões, não acarretaria extensão dos prazos, antes pelo contrário, nem aumento de custos, e construiria cidade, porque não faltam por aí vazios urbanos que agradeceriam o seu preenchimento, no respeito pelos Planos existentes; e a bagacina da Mata das Feiticeiras continuaria a ser explorada, ao longo do tempo, suprindo reais necessidades de obras, garantindo a sua absorção com menores impactes, e não iríamos substituir um capricho da natureza por um capricho de políticos!

 

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Categorias: Opinião

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