1 . O conceituado escritor João de Melo, natural do meu concelho, pois ele nasceu em Achadinha, consagrado, entre outras, com as obras “ O meu mundo não é deste reino “ e “Gente feliz com lágrimas” , deslocou-se recentemente à sua ilha para essencialmente ser o orador no lançamento do livro “São Coisas” - “A vida de tio João Pacheco “, saudoso cidadão que muito admirei e que em vida me fez amizade, um livro que retrata a sua vasta ação no Nordeste e na Povoação, como veterinário, experiente e sabedor, apesar de possuir apenas a formação da universidade da vida. Mas isto ficará para outra nota.
Aí pelo dia dos Avós revejo o livro de João de Melo “ AÇORES - O segredo das ilhas, narrativa de viagem que o autor realizou em 1997, publicado em 2000. Já o tinha folheado à pressa, mas agora dispus-me a lê-lo capítulo a capítulo, ilha a ilha. E quando me deliciava com a narrativa do segredo da nossa ilha, deparo-me com a abordagem de um assunto, a páginas 180 e 181, já por nós ventilado e direcionado à Câmara de Ponta Delgada, e que se prende com o nosso grande Antero. Então aí João de Melo escreve que “ No sítio onde o glorioso e revolucionário poeta e filósofo se suicidou ... trataram de erguer uma estátua a uma antiga madre prioresa do Mosteiro da Esperança (que agora se sabe que vai ser mudada para o interior do Convento)... Nunca por nunca uma mão, nem uma mente abençoada, nem um eleito com um poucochinho de poder local, se mostrou sensível a mandar erguer ali uma memória, templo do suicídio de um dos mais brilhantes e combativos espíritos do povo lusitano e, sem dúvida, o mais ilustre de todos os Açorianos, Antero de Quental. Bastava pouco mais do que nada: afastar a estátua da (Madre Teresa), dar espaço ao poeta, pôr ali uma lápide narrativa por baixo da palavra ‘ Esperança ‘ que lá figura sobre o banco público (devia, aliás , ser uma réplica do verdadeiro - ao que se diz atirado para os fundos de um armazém de velharias , ... )”.
Aqui fica a transcrição do nosso grande João de Melo, e que em estilo de rapsódia estival , enviamos à consideração da Câmara de Ponta Delgada para que se digne apreciar e, vencidas as habituais e ronceiras burocracias, pareceres e opiniões, possa aquele interessante e oportuno alvitre ser concretizado em memória e em honra da cultura desta nobre cidade!
2 . Lembrou- se o Governo dos Açores por intermédio da Secretária Regional Andreia Cardoso de criar um Sistema de Lista Única para as vagas nos Lares de Idosos dos Açores, à revelia da opinião da maioria das Instituições, nomeadamente as Santas Casas.
Este esquema, fervorosamente defendido pelos técnicos, possibilita que seja o ISSA (conhecido Instituto de Segurança Social dos Açores), um dos mais acorrentados e burocráticos Departamentos do governo, uma espécie de poço sem fundo, cuja burocracia se perde facilmente nos gabinetes e corredores dos pisos do elevado edifício, a decidirem quem entra nos Lares dos Açores, numa corrente de prioridades que eles, bem sentados nos seus gabinetes, julgaram ser as mais convenientes, após consulta às partes envolvidas. Trata-se, como é óbvio, de uma tentativa do Governo querer mandar nas Instituições, velha manha de quem se julga senhor e rei só porque, em parceria, assinou um acordo de cooperação, para realização de tarefas, neste caso com os Idosos, que competem ao Estado por obrigação e por lei. Sim, por obrigação e por lei!
Imaginem agora, que estão eles a desenvolver o processo penoso e burocrático, cujo resultado por força da aludida determinação, obriga a que o Idoso dos Ginetes tenha vaga no Nordeste ou que um idoso de Água Retorta tenha vaga na Lagoa e por aí adiante! Não é que, por exemplo, a obrigação do Lar da Povoação é servir, em primeiro lugar, as necessidades e prioridades daquele concelho? Ou será que os idosos de Vila Franca ainda vão parar à Maia? Esta rapsódia estival vai certamente provocar reclamações e dissabores, discussões e transtornos aos familiares. Pode que o bom senso impere e na prática esta inútil tentativa não consiga ver a luz do dia! Assim o esperamos. E, já agora, em vez do Governo dos Açores andar a gastar milhões em museus, em publicidades turísticas e em outras tretas, por que não adquire a Casa de Belém, fechada e enferrujada, por razões que agora não vêm à colação, e destina aquele magnífico Lar aos casos mais prioritários e urgentes da área urbana da ilha?
3. Tem havido ultimamente muitas querelas relacionadas com queixas e queixinhas, muitas delas eivadas de politiquice, partidarite e outras vinganças mal digeridas, tudo por causa da lei das Contratações Públicas que os políticos elaboraram e aprovaram para, depois, muitos deles serem réus da sua própria iniciativa legislativa ou do Partido a que serviram ou ainda servem! É evidente que este é um país inclinado à corrupção e ao compadrio, conhecidas que são as heranças históricas e culturais de Reis, príncipes, marqueses, ministros e responsáveis autárquicos. À triagem e vigilância férrea de Salazar herdamos agora a abertura democrática, às vezes extremista, galopante e avassaladora , onde quase tudo deve ser permitido e alargado para bem de uns tantos e exclusão e esvaziamento de outros tantos, apesar dos seus impostos e contribuições! E até os animais qualquer dia são tratados em pé de igualdade com o (pobre) do ser humano. A Lei não pode nem deve prejudicar o cidadão ou quem assumiu os cargos públicos por eleições livres e democráticas. Não pode nem deve acarretar prejuízos (para o erário público) só porque a lei é seca e vertiginosa e não prevê os casos em que os concelhos, as ilhas ou as províncias do continente ficam prejudicadas por itens, artigos ou parágrafos que não olham às especificidades locais e aos próprios condicionalismos geográficos. É por isso urgente rever esta situação para que, clarificada a lei, sejam arguidos apenas os que comprovadamente roubaram, desviaram ou corromperam o Estado e os seus Serviços, sejam eles nacionais, regionais ou locais. A bem da nação, como se repetia antigamente!
Fajã do Araújo, Julho de 2019