Avaliando pela forma como os povos “engolem” a propaganda política, a credulidade é uma caraterística comum à generalidade dos povos, independentemente da área geográfica ou grau de desenvolvimento económico. Como tudo na vida, há graus diferentes de credulidade, desde os que acreditam no Pai Natal até aos que duvidam da própria sombra. Até dentro dos partidos políticos a (in)credulidade varia, conduzindo por vezes a situações caricatas, onde o sectarismo ou a ganância se impõem à lógica e à visão estratégica, com consequências a longo prazo. Várias décadas depois, a prática mostra como a estratégia delineada em 1944 no acordo de Bretton Woods, ao conferir ao dólar (e, em parte, à libra inglesa) um papel preponderante na economia mundial, permitiu a dominância dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha no pós-guerra. Simplesmente, como a História demonstra e o ditado popular confirma, não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe, como aconteceu com a oposição ao domínio anglo-americano pela ex-URSS, pela sua herdeira Rússia de Putin, pela China e – surprise!—pelo sucesso da CEE/União Europeia. Os crédulos da velha aliança transatlântica, entre os quais me incluo, pasmaram de incredulidade ao ouvir o Presidente Trump dizer aleivosamente que a União Europeia se comportava como “inimiga” dos EUA, para pouco tempo depois vir à Europa dizer o contrário nas comemorações dos 75 anos do Dia D.
O euro estava a seguir pisadas ameaçadoras da hegemonia do dólar como moeda de referência internacional, pois a UE, no seu conjunto e caso continuasse a crescer, já era uma economia maior que a dos EUA. Apercebi-me disso quando andei envolvido nas negociações de dossiês como o da Boeing/Airbus, da carne americana com hormonas e da BSE, a “doença das vacas loucas”, ou ainda da famosa “Farm Bill” versus PAC. A delegação de eurodeputados e congressistas americanos tinha tarefa difícil há 30 anos, pelo que era previsível a tentativa de, mais tarde ou mais cedo, os EUA tentarem desunir a União Europeia. O brexit deu-lhes essa oportunidade e a dificuldade europeia em resolver as novas presidências institucionais confirmou-a. Porém, mau grado a descrença de muitos, a futura Presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen (uma distinta médica, de currículo académico, profissional, político e pessoal notáveis) é uma europeísta convicta, nascida em Bruxelas e filha de um alto quadro da Comissão Europeia. Resumiu magistralmente o que pensa quando disse que “nasceu europeia, antes de ser alemã” algo que muito poucos líderes europeus teriam coragem de dizer. Certamente não seria expetável tal frase do Presidente Juncker ou do holandês D’Ijsselbloem, candidato(?) na corrida à presidência do FMI, em que o Prof. Centeno é um dos favoritos. É lógico: o FMI é um organismo das Nações Unidas, cujo Secretário Geral é o ex-PM português António Guterres e onde um dos mais influentes Diretores Gerais é Vítor Gaspar, ex-Ministro das Finanças de Portugal. Christine Lagarde sai do FMI para o Banco Central Europeu, abrindo vaga para Centeno, que deixa o Eurogrupo para outro Ministro(a) das Finanças.
Esta dança de cadeiras poderosas tem muito a ver com jogos de bastidores envolvendo terceiros, incluindo os membros influentes da Assembleia de Governadores, onde estão representados os 188 países membros e onde o único poder de veto pertence aos EUA, de longe o maior “acionista” do grupo. Não é despicienda esta posição, porque tradicionalmente, a presidência do Banco Mundial cabe a um americano e a do FMI a um europeu; saindo Lagarde-a-Europeia, uma vez que a tradição já não é o que era, o peso norte-americano pode trocar as cadeiras, embora seja pouco provável que não esteja tudo previamente negociado, como manda a astúcia dos banqueiros. Temos exemplos nos Açores, cuja banca está completamente fora do controlo açoriano, incluindo aquela que diz o contrário. Um banco dito da Região que para abrir uma dessas contas de “cácarácá” para jovens, precisa de autorização dos patrões de fora, é açoriano? Quem manda e dita as regras é o capital, ao ponto da distribuição de dividendos secundarizar os acionistas açorianos, uma matéria em que somos todos mini FMIs. Talvez seja por isso que só se fala em dívida pública portuguesa, quando esta não chega a metade dos 730 bilhões da dívida total não financeira, a qual acaba de subir pela 5ª vez consecutiva, desatualizando pela negativa o que escrevi há 8 dias. Incrível, mas verdade.
O banco que substituiu o BES vai vender crédito malparado com desconto de 90%, numa negociata de abutres; a Região, classificada como BBB- pela notadora Fitch, emitiu 223,5 milhões de euros de dívida a juros de 1,006%, quando a do País, notado como BBB, paga menos de 1%, mas estamos na maior, apesar de tantas incredulidades.