Aproxima-se mais um ciclo eleitoral e é recorrente a expressão, “as eleições ganham-se ao centro”. Ciclo após ciclo e apesar de todo o progresso verificado, os Açores continuam a ocupar os primeiros lugares dos indicadores negativos em sectores como a educação, níveis de pobreza e desigualdades sociais, saúde, desemprego, demografia, mobilidade, transportes… A pergunta impõe-se. Irão os partidos agendar nos seus programas eleitorais, estes problemas reais e apresentar soluções concretizáveis, mesmo que impliquem ir de encontro a alguns interesses instalados?
O que irá prevalecer? Ganhar eleições ou apresentar respostas? Fica o desafio.
Os eleitores do “centro”, podem ser encontrados em todas as classes sociais, se militantes não mudam, são do partido como são do seu clube do coração. Os simpatizantes flutuam. O zelo militante não “deixa ninguém para trás”, assim aos idosos e aos beneficiários do rendimento mínimo, é disponibilizada a “generosa ” logística” desinteressada, para que cumpram com o seu dever cívico de votar.
Aprecia-se num líder, para além da “inteligência política” o seu “carisma” ou o que isso possa significar de sedução, fascínio e persuasão, assim como a capacidade de “passar pelos pingos da chuva”, ou “ desaparecer”, quando as situações se complicam, tudo isto temperado com alguma humildade.
São características, igualmente muito valorizadas, em tempo de eleições, ser popular sem ser populista, afirmar o que os tais eleitores pretendem ouvir, sem caírem na demagogia. Não estará este justo equilíbrio, só ao alcance de experimentados “trapezistas da política”?
Afirmam com toda a convicção determinada promessa, e o seu contrário depois das eleições, mas com tal “arte”, só ao alcance de alguns predestinados. Porque isto de “ser político” não é para qualquer um. Há quem defenda que é uma qualidade “quase” genética.
Desde há mais de quatro décadas que dois, são os partidos que têm governado os AÇORES com o voto livre e democrático dos açorianos, são PSD e PSD. Mas? Eu explico. PSD é a sigla do Partido Social Democrata e PSD é do Partido Socialista Democrático. Bem sei que o primeiro foi também conhecido durante algum tempo de PPD- Partido Popular Democrático, até de PPD/PSD e o segundo de apenas PS.
Em comum, pretendiam integrar a Internacional Socialista. Só o PS logrou entrar para o “clube”. Nas grandes linhas ideológicas, têm mais a uni-los do que a separá-los. Mas ficaram quase” irmãos” , quando a palavra “marxista” foi retirada do programa do PS, que durante um período de “vacas magras”, chegou a guardar o socialismo na gaveta.
Aqui talvez resida a explicação para alguma crispação e “quase” insulto, quando se deviam discutir ideias. Em período eleitoral a “coisa” aquece. É o que acontece quando o caminho é o mesmo e apenas com um sentido. O pior é a “contramão” e o choque se torna inevitável.
De 1976 a 1995 o Presidente Amaral governou, sempre com maiorias absolutas, com o programa social - democrata do seu PPD/PSD, o que valeu, algumas vezes, a alguns dos seus militantes, serem chamados de “marxistas”, quando ousavam tomar medidas mais à esquerda, nomeadamente em matéria laboral e social.
Quando os analistas davam como certa, mais uma vitória do Presidente Amaral nas eleições de 1996, este um ano antes pedia a demissão e era substituído pelo Presidente do Parlamento. Recentemente, numa entrevista, os açorianos tiveram conhecimento, que a primeira personalidade, a quem o Presidente Mota Amaral comunicou a sua decisão foi ao líder da oposição socialista e mais tarde ganhador das eleições de 1996 Carlos César.
Implicitamente, Amaral, para além da “cortesia”, reconhecia ao opositor qualidades de talento e inteligência políticas.
Tanto assim foi, que anos mais tarde, o Presidente César, soube com sabedoria, acautelar a sua sucessão ganhadora para “um dos seus”, assim como influenciar legislação limitadora de mandatos futuros.
César provando que a “política é arte do possível”, em 1996 nos Açores, “empatando governou”, e em 2015, já em Lisboa como presidente do PS, “perdendo ganhou”. Digam-me lá se semelhante proeza, só pode estar ao alcance de muito poucos.
Ainda há dias, um amigo, que sei admirador e fiel seguidor de César, dizia-me com alguma graça, que tal como o Pauleta estava para o futebol, César estava para a política. Curiosidade, jogam como avançados centro “ marcando muitos golos”, aproveitando com eficácia os passes, quer venham da esquerda ou da direita. Para memória futura, o golo de trivela de 2015 do Presidente César, resultou dum passe do esquerdino Jerónimo.
Os dois Presidentes, Amaral e César, governaram ao centro. Embora, e conforme as circunstâncias, por vezes mais à esquerda, outras à direita. Como se costuma dizer na gíria, “foram como os eucaliptos, secaram tudo à volta”. Não deram hipóteses às outras forças partidárias.
Correndo o risco de cometer uma “heresia democrática”, será que nos Açores podemos vir a falar duma democracia “ quase” iliberal, liderada por um “quase” partido único?
Aproximam-se eleições, e na opinião de alguns observadores e cronistas, nos Açores o Presidente Cordeiro, sucessor de César, voltará em 2020 a ganhar as eleições. Porquê? Porque, não “inventou”. Aprendeu rápido com os seus antecessores. Sabe como se ganham eleições nos Açores. Ao “centro”. Pois claro. Contudo, a concluir convém reflectir que o “afunilar” pode trazer surpresas, e lá virá um dia que o “funil” entope. Os sinais críticos ou de crise sistémica, já aí estão. Mas lá está, a Democracia tem sempre as respostas para estas e outras angústias, tenhamos a “arte e o engenho” de a tratar bem.