Açoriano ligado à criação de aplicação premiada que aproxima os cidadãos da política nacional

“Criar uma espécie de simulador do Parlamento”, foi esta a ideia posteriormente transformada numa aplicação móvel que valeu a Nuno Moniz, açoriano natural da ilha do Faial, a Arian Pasquali e a Tomás Amaro o prémio “Arquivo.pt” entregue esta semana no encontro nacional “Ciência 2019”, onde foi lançado o desafio de se criarem estudos, aplicações e sites que utilizem a memória colectiva de páginas portuguesas desde a década de 90.
Neste sentido, adianta Nuno Moniz, havendo a possibilidade de submeter um projecto ao prémio “Arquivo.pt”, criado através da Fundação para a Computação Científica Nacional, uma unidade da Fundação para a Ciência e Tecnologia, o grupo composto pelos dois investigadores científicos do INESC TEC e pelo engenheiro de software na Hostelword começou por pensar de que maneira a memória colectiva poderia ser utilizada “de forma inovadora”.
“Em conjunto falámos sobre várias possibilidades e chegámos à conclusão de que a questão da memória era muito importante para nós, principalmente ao nível da política, uma vez que há pessoas que não se lembram o que foi decidido no Parlamento ontem ou na passada semana, e pensámos que isso seria algo que valeria a pena explorar nos tempos da democracia digital”, conta o açoriano que é também docente na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.
Assim, com a criação desta nova plataforma intitulada “meuParlamento.pt”, o grupo de investigadores teve em vista a “criação de uma ligação muito mais estreita e muito mais directa entre o Parlamento e os cidadãos, não apenas pelas notícias”, utilizando para isso a internet e os telemóveis, tornando assim possível que todos “tenham o Parlamento no seu bolso, que consigam interagir com ele e que sejam recordados sobre o que é decidido acerca das suas vidas”.
Por este motivo, explica, neste momento a funcionalidade da aplicação é semelhante à de um simulador ou, se quisermos, “uma espécie de jogo” onde, adianta, “será depois incluída a funcionalidade que permitirá às pessoas pesquisarem as propostas” que já foram entretanto votadas no Parlamento, já que de momento estão apenas disponíveis as propostas votadas desde 2011.
Ao utilizar a aplicação, o cidadão terá acesso a um excerto das propostas que surgirem e apenas “no fim têm acesso não só à proposta completa como aos autores da proposta e às notícias relacionadas com esta proposta”, acabando também por descobrir “que partidos é que concordaram com as respostas dos utilizadores”.
Contudo, e ao contrário do que se poderá pensar, o objectivo desta interactividade não passa, em momento algum, pela manipulação das opiniões ou ideologias políticas dos utilizadores, uma vez que foi crucial para a equipa “fugir dos estudos ou surveys que nos dizem em quem votar ou qual a nossa matriz ideológica”.
“Não queremos dizer às pessoas em quem votar, queremos apenas dizer às pessoas, depois de darem a sua opinião, quem mais concordou com elas, mas não queremos de maneira nenhuma que isso seja uma sugestão, acrescenta Nuno Moniz.
Da mesma forma, a equipa que desenvolveu a aplicação quis também garantir que não existisse “qualquer tipo de questões a nível da privacidade ou do anonimato” dos participantes, salientando que a esta questão serão sempre fiéis mesmo com o desenvolvimento da plataforma que se prevê no futuro.
Tendo em conta que as expectativas do grupo que concebeu o “meuParlamento.pt” são “muito altas”, já que apenas no dia do lançamento da aplicação se seguiram centenas de downloads provenientes tanto da App Store (iOS) como da Play Store (Android), Nuno Moniz conta que, partindo do princípio que “esta aplicação tem a capacidade para mudar a forma como as pessoas lidam com o Parlamento”, são esperados no futuro números que rondem os milhares.
Para isso, a equipa irá tentar, mediante a aproximação das eleições legislativas, “fazer com que a aplicação funcione em tempo real e fazer com que as pessoas ao estarem a almoçar, por exemplo, recebam uma notificação a convidá-las a votar as propostas que serão votadas no Parlamento nessa tarde”, aumentando assim o grau de interactividade.
Para além disto, ao terminarem as votações na Assembleia da República, os utilizadores do “meuParlamento.pt” receberiam também “uma nova notificação a dizer como é que a votação decorreu e de que forma os seus votos se comparam com os votos dos partidos”.
Numa terceira fase, conta o filho do empresário que criou a primeira empresa especializada em informática na ilha do Faial, a Micro-Horta, tendo sempre em conta que neste momento “o mais importante é fazer com que as pessoas exercitem a memória colectiva” em relação ao processo legislativo, a ideia será estimular “novas instalações a nível nacional e a nível internacional”.
Significa isto que, mediante o crescimento gradual da plataforma, no futuro surjam novas aplicações como “meu parlamento Açores” ou “meu parlamento Madeira”, uma ideia que pode também ser extensível quer ao nível das juntas de freguesia, câmaras municipais ou ainda ao nível do Parlamento Europeu.
“Nós achamos mesmo que este projecto pode mudar a maneira como as pessoas lidam não só com o Parlamento mas com todas as estâncias de poder, quer seja a junta de freguesia, a câmara municipal, o parlamento nacional ou o parlamento europeu”, adianta o açoriano doutorado em Ciência de Computadores, salientando ainda que “é muito importante pensarmos como este ramo da ciência pode ser utilizado para melhorar a vida concreta das pessoas”.
Tendo em conta o valor do prémio atribuído, 10 mil euros, o grupo conta que esta verba será aplicada no sentido de “tentar espalhar a aplicação o máximo possível”, considerando que para além das melhorias que lhe estão inerentes há também custos associados a uma aplicação deste tipo, sendo por isso fundamental “fazer com que as pessoas a usem o máximo possível”.
De momento, conta o açoriano docente na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, este é um projecto inovador tanto em Portugal como a nível internacional, uma vez que não existem outras aplicações que se debrucem sobre o mesmo conceito: “Nós achámos que, tendo em conta toda a tecnologia que já existe, que até era um pouco estranho este tipo de coisas ainda não existirem, mas fomos procurar e, de facto, não existia a aplicação nem em Portugal nem a nível internacional”, conclui.        

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