Artur Goulart no Colóquio sobre o Culto ao Santo Cristo e ao Espírito Santo

“Há que respeitar a fé dos nossos antepassados”

Vários são os palestrantes e temas abordados neste importante evento, que tem o seu encerramento, precisamente esta quinta-feira, a partir das 21 horas, na Matriz de Ponta Delgada, com a Conferência “Dimensões missionárias da devoção ao Senhor Santo Cristo e ao Espírito Santo”, a cargo de D. Carlos Azevedo, do Conselho Pontifício para a Cultura.
Sensivelmente uma hora mais tarde, pelas 22 horas, decorrerá um concerto a cargo do grupo musical Vox Cordis, intitulado “A Universalidade do Culto ao Divino Espírito Santo”.
Na tarde de ontem tivemos a oportunidade de chegar à fala com Artur Goulart de Melo Borges, que abordou o tema “Os Santuários hoje: visitas, circulação e interpretação do património”.
Artur Goulart é natural das Velas de São Jorge. Licenciado em Arqueologia Paleocristã, em Roma, Itália, com estudos de pós-graduação em Museologia e História da Arte. Foi Professor do Seminário Maior de Angra de 1962 a 1978. Foi colaborador da arquidiocese de Évora e responsável pela recolha do património artístico de todas as igrejas e ermidas da mesma diocese. É um poeta notável. Foi Chefe de Redação do Jornal “A União”, da ilha Terceira e colaborador de vários suplementos literários. É um dos maiores especialistas em património religioso de Portugal e autor do livro “No Fio das Palavras”.
Sobre a sua comunicação: “Os Santuários hoje: visitas, circulação e interpretação do património”, entende que “sem nunca perderem a sua função de local privilegiado de devoção dos fiéis, os santuários, seguindo as exortações pontifícias, deverão ser pólos especiais de evangelização para todos, crentes ou não. Numa maior integração na comunidade e aproveitando o próprio património material e imaterial, deverão ser capazes de provocar ou reforçar em cada visitante a descoberta ou transformação ou evolução da vida cristã. O acolhimento, a oração e a misericórdia poderão ser, segundo o Papa Francisco, os esteios para deixar um sinal e um alimento motivador de reflexão, de mudança e de apoio na caminhada comum”.

“Não são todos iguais”

Questionado como interpreta nos tempos de hoje a riqueza patrimonial e artística, dos grandes santuários portugueses e do mundo, disse que “do ponto de vista patrimonial não são todos iguais, uns são mais ricos do que outros, há outros com mais peças de arte e outros de cariz popular, mas são todos importantes, seja lá de que tipo for, o património que tem e são todos para respeitar, porque na verdade o património é o resultado da fé dos nossos antepassados, e portanto, neste campo, temos que respeitar, o máximo possível e procurar aproveitar esse património, insistindo continuamente, para que vingue e fale às pessoas. Antigamente, o património tinha um aspecto catequético, pedagógico e de devoção, mas é bom que o património continue a ter essas mesmas características”.
Já sobre como é que se pode pôr esta riqueza ao serviço da acção social que a igreja tanto apregoa, responde da seguinte forma: “Depende muito da imaginação e de reflectir um pouco sobre isso, mas sobretudo é necessário que as pessoas que a visitam e que vão lá, até por motivos de promessas ou de uma devoção especial e que às vezes passam pelo património construído ou móvel, sem olhar muito para ele, e podermos chamar a atenção, através de pequenos actos ou guias. Ou seja, há muita coisa que pode ser feita e que é necessário um pouco de imaginação, e sobretudo um acolhimento às pessoas para que compreendem o sítio onde estão”.
Para um esclarecimento dos leitores, quisemos de igual modo saber como explica qual a diferença entre Santuário e Basílica, dado que este ano, pelo Bispo D. José Avelino Bettencourt, foi aventada a hipótese do Santuário da Esperança ser elevado a Basílica. Artur Goulart respondeu que “gostava muito de dizer qualquer coisa sobre isso, mas com franqueza também não estou muito dentro do assunto. É um problema administrativo que não sei bem qual é. Julgo que a Basílica tem um cariz mais vasto, dentro do panorama eclesial, mas de qualquer forma, o Santuário já tem em si, tudo aquilo que é necessário para que possa vingar como meio de manter a devoção de todos os crentes que ali vão e até mesmo dos não crentes, quando se sentem bem no sítio onde são acolhidos”.
A título de curiosidade, refira-se que os Açores têm cinco santuários: Santo Cristo, em São Miguel, Bom Jesus, no Pico, Santo Cristo da Caldeira, em São Jorge, Senhora da Conceição, em Angra e Senhora dos Milagres, na Serreta.
Na calha está a elevação da Nossa Senhora da Paz, em Vila Franca do Campo.
É nos Açores que está a diocese do país com mais santuários, em termos de extensão.

“Excelente iniciativa”

Sobre o Colóquio, não teve dúvidas ao afirmar que “é uma excelente iniciativa, porque parecendo que não, tudo aquilo que diz respeito ao culto do Santo Cristo, aqui em São Miguel, e do Espírito Santo, abre tantas reflexões, tantas formas de discutir e de ver, quer o acesso das pessoas, quer a devoção, quer a forma de o animar, quer a forma de transformar isso no futuro, em qualquer coisa que entusiasme as pessoas para alterar a própria vida, como cristãos. Qualquer reunião deste tipo ou colóquio é muito relevante e tem sido muito interessante as palestras que já foram feitas até agora, que poderão ser um grande contributo, nesse sentido”.

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