Fontes Vivas (8) – Manuel Cruz Marques

“Ao despedir-me dos meus pais para ir para o Ultramar senti uma saudade e algum medo sem saber se regressava”

Como começa a sua envolvência com a Guerra do Ultramar?
Nasci em 1948 e, como todos os jovens da minha geração que tinham o serviço militar obrigatório, ingressei nas Caldas da Rainha para fazer o curso de Sargentos Milicianos; depois em Lisboa tirei a especialidade da intendência, formamos pelotão, fizemos a Instrução de Aperfeiçoamento Operacional (IAO) e em 4 de Fevereiro de 1970 parti com destino a Moçambique. Fui para a guerra com 21 anos.
Ao despedir-me dos meus pais claro que senti uma saudade e algum medo sem saber se se regressa ou não.
Cheguei a Porto Amélia, hoje Pemba,  a 28 de Fevereiro de 1970, onde permaneci até Junho de 1971, sendo que depois fomos destacados para Palma, uma zona de guerra muito activa, cem por cento A1. Aí passei o meu tempo até terminar a comissão, o que aconteceu em Junho de 1972. No final da comissão, desloquei-me a Nampula, Beira e Lourenço Marques para fazer a comissão liquidatária e regressei à minha terra Natal, a ilha Terceira.
Portanto, fiz uma comissão, como miliciano, e cumpri o meu dever para com a Pátria. Quando fui mobilizado, senti que era um dever meu, pois acreditava num país pluricontinental, pluriterritorial, mas principalmente plurirracial. Este era o ideal pelo qual eu vivia, pelo que não senti a comissão como uma obrigação, mas sim como um dever.

Qual era a sua função na guerra?
A nossa missão era abastecer as tropas que estavam em combate no norte do então distrito de Cabo Delgado, hoje Província, com o mesmo nome. Abastecíamos as colunas que partiam de  Porto Amélia, para Moeda e para outras localidades. Com o desenvolvimento da guerra fomos para Palma, onde havia um destacamento, que em Junho de 1970 foi substituído pelo nosso Pelotão da Intendência o PINT2220. Infelizmente, tivemos um morto numa missão a Quionga e resultante de uma emboscada. Nesta altura eu estava no Hospital Militar de Nampula, em convalescença, resultante de uma hepatite aguda, contraída em Porto Amélia, para onde fora evacuado, onde permaneci 60 dias, mas, graças a Deus, fiquei clinicamente curado.
Nesta altura, escrevi a um amigo dos meus pais, o Senhor Raul Galinha, para contar o que tinha acontecido, porque não queria preocupar os meus pais e se a situação piorasse ele já sabia o que se passava. Infelizmente, troquei as cartas e enviei para os meus pais a que reportava toda a situação; quando ainda estava no hospital tive a visita de um primo do meu padrinho, porque ficaram todos preocupados nos Açores.
Porém, aquele foi uma convivência muito grande, de amizade sobretudo, pois estávamos mais à vontade naquela zona; ouvíamos uns tiros, mas ao longe.
No âmbito da nossa missão, também, para além do reabastecimento dos géneros alimentícios, artigos de cantina, combustíveis e lubrificantes, também tínhamos a responsabilidade fornecimento das urnas às Unidades Operacionais.

A realidade de lidar com os camaradas já falecidos era complicada?
Sim, houve alguns episódios complicados. Certo dia, houve um alferes miliciano que se suicidou; fomos chamados de noite para irmos à messe de oficiais colocá-lo dentro da urna, isso foi chocante para mim. Por outro lado, também me sensibilizou a morte de um outro colega meu que morreu num acidente de viação, o que acontecia muito, e tive que o colocar na urna!
Na realidade houve uma convivência muito grande com as populações locais, principalmente em Palma, o que foi muito interessante.

Como eram estas populações?
Havia macondes e macuas, duas etnias do Norte, e interagíamos muito com a população, porque às vezes tínhamos sobras de géneros alimentícios e trocávamos com eles, com cabritos, galinhas, etc. Isso dava-nos uma certa afectividade e até à noite atrevíamo-nos e íamos para os batuques, que eram danças tradicionais daqueles povos. Desconfiávamos que alguns elementos da guerrilha, nomeadamente da FRELIMO, pudessem ali estar, porque naquela zona estava tudo interligado. Contudo, graças a Deus, consegui chegar são e salvo a casa e, sobretudo, com o dever da missão cumprida.
Esta ligação com as populações fazia-nos sentir mais em casa ou numa situação mais amena.
A minha mentalidade foi mudando, porque acreditava mesmo num País plurirracial, mas senti naquela altura que havia muita exploração em termos materiais, o que cá também havia, e em termos sociais. As pessoas de cor diferente eram tratadas de maneira diferente. Por isso, comecei a perceber as razões de as pessoas quererem a sua liberdade, porque não há nada que pague a liberdade.
Havia até alguns colonos antigos que diziam que estávamos a estragar a situação, porque convivíamos com as pessoas. Até nalguns clubes privados que havia segregação.. Mudei a minha mentalidade, mas obviamente, sem nunca trair o juramento que tinha feito.
Em Junho de 1972 regressei aos Açores, mas fui convidado para ir trabalhar para a SONAP de Moçambique. Regressei a Moçambique em Setembro do mesmo ano, resultante do seguinte episódio.
Quando estava em Palma, recebemos uma delegação da SONAP de Moçambique e o Director-Geral da empresa soube que eu era açoriano e falou comigo porque também tinha família em São Miguel. Perguntou-me o que eu iria fazer depois da tropa, convidou-me para trabalhar com eles e aceitei. Inicialmente eu ia trabalhar com o meu Pai, que era Chefe Moleiro, na Ilha Terceira, mas eu era novo e procurava outros horizontes, parti para esta nova aventura. Estive, portanto, em Moçambique até 1977.
Foi uma opção de vida que tomei e que me realizou profissionalmente e como homem. Mais tarde, em 1976, casei em Porto Amélia com uma moçambicana,  com neta do Régulo de Changa.  Já lá vão 43 anos.

Não teve contacto directo com o combate?
Eu estava em zona de combate, mas nunca tive nenhuma acção combativa apesar de ter passado alguns sustos.
A certa altura, colocávamo-nos mais à vontade, feliz ou infelizmente. Havia ali um pequeno aeroporto de terra, em Palma, e tínhamos que lá ir, mas com escolta operacional. Certo dia passou uma avioneta e fomos no jipe até lá ver quem tinha chegado. Não vimos ninguém e numa pequena casa que lá existia de apoio havia um papel pregado onde se podia ler que aquele aeroporto não estava em condições e quando lá voltassem queriam-no arranjado; o documento estava assinado por Samora Machel. Claro que ficamos com receio que houvesse alguma emboscada no regresso. Viemos rapidamente para Palma e reportamos o que se tinha passado ao Comando Operacional.
Palma fica junto ao mar. As nossas Instalações e Armazéns encontravam-se numa zona perto do porto. O quartel das tropas operacionais, situava-se noutra zona de Palma. Convivíamos muito, falávamos das boas e más notícias, também tínhamos momentos de humor e de descontração, numa  sã convivência de boa camaradagem, tudo isso recordo, nas minhas boas memórias. Tive a sorte de estar à beira-mar e sentia-me bem por isso, tinha sempre água à volta e a meia dúzia de passos estava no mar!

Quando se deu o 25 de Abril estava então em Moçambique. Como era África neste tempo?
Em Moçambique a guerra sentia-se a Norte. Portanto, em Nampula, na Beira, em Porto Amélia e noutras localidade as pessoas viviam bem e naturalmente. Depois passei a ter colegas africanos de profissão e as conversas foram-me ajudando a perceber tudo aquilo. No dia 26 de Abril, estava em Nacala, numa festa com amigos da Terceira, e disseram-nos que tinha havido uma revolução em Portugal. Não sabíamos bem o que se tinha passado, mas festejámos a liberdade. E foi assim esse momento.
Nos finais de 1974, eu era o Encarregado Geral das Instalações da Sonap de Moçambique em Mocímboa da Praia e começou a haver uma aproximação dos guerrilheiros da FRELIMO, tendo através de um amigo meu, recebido na minha casa um grupo de guerrilheiros
Foi uma experiência de que gostei muito e não tive receio. Falávamos descontraidamente. Entre militares há sempre respeito. Foi isso que ponderou no diálogo de um ex- militar miliciano do exército Português, com Guerrilheiros da Frelimo.
Quando ocorreu o 7 de Setembro em Lourenço Marques, achámos por bem que o melhor era regressarem à sua Base, pois não sabíamos o que poderia acontecer. Após a normalização da situação regressaram a Mocimboa da Praia.
Já depois da independência, em Porto Amélia, como eu tinha estado na intendência, conheci os responsáveis por esta área e dei alguma formação, porque foram para um local onde eu já tinha estado antes. A convivência deu-se e mais tarde fui compadre até de um guerrilheiro. São factos históricos engraçados que mostram como o mundo dá muita volta.

No regresso a Moçambique é que conhece a sua esposa, não é?
Sim, mais tarde, em 1975. Na altura eu era encarregado-geral em Nacala e vivíamos aí. Quando se passava de uma província para a outra havia muito controlo, revistavam-nos e tudo mais. Eu tinha ido para Porto Amélia com um colega indiano, que tinha tirado as fotografias do nosso casamento, e entre a província de Cabo Delgado e a de Nampula mandaram-nos parar, o que era normal; o meu amigo começou a fotografar e o militar não gostou, pegou na máquina e no rolo, pelo que fiquei sem as fotografias do casamento tiradas por ele! Tenho muito poucas por causa disso.
Outra experiência aconteceu em Mocímboa da Praia quando eu ia viajar e houve um problema qualquer com o meu passaporte; prenderam-me no aeroporto, estive detido, mas não me trataram mal.

Por que razões regressaram aos Açores?
Eu já estava para me vir embora, em 1977, porque a minha mulher engravidou. Gosto muito de liberdade e nesta altura o ambiente era muito pesado, as pessoas denunciavam-se umas às outras e eram presas, muito embora eu tivesse muita segurança. Como tinha garantia de emprego em Portugal e tive que optar, ou vinha para Portugal ou ficava lá de vez. Optei por Portugal. Em 1979, quando houve um concurso para delegado técnico comercial da Petrogal para os Açores, concorri internamente e vim para São Miguel em 1980 e aqui fiquei.

Quando surge o envolvimento com a Liga de Combatentes?
No início eu era um simples sócio e gostava, porque é uma associação de antigos combatentes que permite o convívio e a inter-ajuda. Foi pela mão do Coronel Porfírio Pereira da Silva que entrei para a associação.
Recentemente, há cerca de dois anos, o antigo presidente estava para sair, por isso tinha que haver eleições ou Lisboa nomeava uma comissão administrativa. Inicialmente até sugeri o Professor Carlos Cordeiro para presidente, que era uma pessoa muito dedicada, mas ele não estava disposto a presidir. Assim formámos uma direcção e eu fiquei como presidente. O nosso intuito era que nesta direcção houvesse militares milicianos como nós, mas também militares de carreira para dar outra interligação ao projecto. E assim foi.
Gosto muito de causas e defendo-as. Baseado um pouco em Marquês de Pombal, criamos o lema “honrar os mortos e cuidar dos vivos”, é neste lema que temos conduzido as nossas várias acções.
Acompanhamos as pessoas que têm necessidades financeiras, com cabazes por exemplo. Além disso, pensava que as pessoas viviam os traumatismos do Ultramar naquela altura, mas há um fenómeno que nos diz o contrário. Há muitas pessoas que regressaram, casaram, fizeram a sua vida toda e agora na reforma, sem nada para fazer, deparam-se com tudo outra vez. Por isso, recebemos as esposas ou os filhos que se queixam das atitudes dos maridos ou dos pais. Então, procuramos contactar com estas pessoas e encaminhamo-las para alguns especialistas. Daí termos uma ligação muito grande contra com a Associação de Deficientes das Forças Armadas e com o Instituto de Acção Social das Forças Armadas (IASFA). Pensamos também criar cá um outro departamento com psicólogos e outros profissionais que ajudem nesse sentido. Além disso, fazemos os nossos convívios de aniversário e outros eventos.

Portugal ainda sofre as consequências da Guerra do Ultramar?
Sim, sofre. E parece-me que a descolonização foi muito malfeita. Com o Estado Novo acho que as pessoas deveriam ter pensado no que estava a acontecer e talvez devessem ter negociado para se evitar a guerra, sendo que era necessário preparar elites para governar. Acho que a revolução do 25 de Abril foi precipitada e realizada muito pela emoção. Penso que se acreditou demais e isso teve como consequências três guerras civis e muita gente que se veio embora!

A esta distância, acha que aquela guerra fez sentido e foi necessária?
Se os homens forem inteligentes evitam as guerras, porque infelizmente há sempre muitos interesses e quando estes se sobrepõem não pode funcionar, vemos hoje o caso do Irão e da Líbia, por exemplo. Hoje em dia já não há, até, uma conquista territorial, penso eu, pelo que os objectivos das guerras são económicos. Hoje é quase tudo programado por computador até neste campo, infelizmente!
No entanto, nesta guerra foi positiva a camaradagem e a amizade que se geravam entre todos nós. Era uma ligação tão forte que ainda hoje em dia o meu pelotão, e outros, junta-se sempre que pode para revivermos uns com os outros e com as famílias aqueles tempos idos.
Para mim foi bom ter ido para Moçambique, porque com aquela idade estava fechado numa ilha e isso abriu-me os horizontes.

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