11 de julho de 2019

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A quebra dos escudos

A quebra dos escudos, de remota tradição, era uma cerimónia fúnebre que se realizava após o falecimento dos monarcas, como demonstração de sentimento e tinha por finalidade a quebra dos escudos das armas reais, em sinal de luto e de pranto pelo rei falecido, para serem substituídos pelos escudos do monarca sucessor.
A referência mais antiga a esta cerimónia encontra-se nas “Memorias da vida d’el rei D. João I”, falecido em 1433. O Regimento de D. Manuel I, de 1502,regulava no “Capítulo da Pranto” o que o senado devia fazer quando o rei morria e quando era aclamado sucessor da coroa.
A quebra dos escudos realizava-se principalmente em Lisboa e, com poucas variações, em todas as sedes de concelho do Reino e capitais do Império. Em Goa, houve em 1522 grandiosas exéquias e a quebra dos escudos de D. Manuel I, seguindo-se-lhes a aclamação de D. João III. Organizava-se em desfile público civil, de luto rigoroso, com a participação de fidalgos, cavaleiros e oficiais da Câmara, seguidos de muitas pessoas, pelas principais ruas da cidade. Juízes ou vereadores levavam os escudos das armas reais. Em vários pontos da cidade, cada um deles se erguia sobre um banco negro para fazer a alocução do pranto – “Chorai Portugueses, que faleceu o vosso Rei. . .”–e quebrar o escudo que transportava sobre a cabeça, arremessando-o violentamente ao chão.*
Revestiram-se de grande pompa as quebras dos escudos de D. Pedro II (1706), D. José (1777), D. Maria I(1816) e D. João VI (1826). Embora a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira refira que a última quebra dos escudos se realizou em 1861 (D. Pedro V), a Câmara Municipal do Funchal ainda realizou o cerimonial em 1889, quando faleceu o rei D. Luís.
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Em Ponta Delgada, houve pelo menos três cerimónias de quebra dos escudos – no falecimento de D. Maria I, de D. João VI e de D. Maria II.
RAINHA D. MARIA I (falecida em 20 de Março de 1816)
Em 17 de Agosto, os vereadores do Senado acordam encomendar ao ouvidor eclesiástico desta cidade o sermão para as exéquias e ao reverendo Dr. João Bento de Medeiros Manta o sermão da aclamação do rei sucessor.
Em 28 de Agosto, “visto ser certo o falecimento da Rainha Nossa Senhora e dever esta Câmara fazer as demonstrações de sentimento próprias da fidelidade que lhe é devida . . .”, os vereadores, reunidos com o desembargador corregedor da Comarca, acordam:
–Encomendar a música para as exéquias e arranjar as disposições necessárias para a essa.
–Encomendar a oração fúnebre ao Vigário Provincial da Graça, visto haverem-se escusado os dois anteriormente nomeados.
–Escrever a António Pedro, Pedro Borges e Agostinho Cymbron Sénior para se prepararem para as cerimónias de quebrar os escudos.
–Avisar também todas as mais pessoas “que não forem milicianos” para se prepararem com vestidos pretos, capas pretas, chapéus desabados e fumo e varas pretas, para comparecerem na Câmara no dia que for aprazado para a referida cerimónia, comunicando-se-lhes que não se admitirá escusa que não seja por doença certificada pelo médico.
–Preparar os três tablados para o acto de se quebrarem os escudos, sendo um no Campo de S. Francisco, outro no Campo do Colégio e outro na praça junto à Matriz.
–Mandar fazer a bandeira preta “da fazenda que para isso for própria” com as competentes armas reais.
Mais acordam nesta sessão que se tomem as providências necessárias para a festa da aclamação do rei D. João VI.
Em 26 de Outubro, a Câmara recebe o aviso do capitão-general que manda enlutar por um ano e fazer-se “as exéquias do costume”. Os vereadores deliberam publicar o luto no dia seguinte, não se consentindo nesta cidade e seu termo divertimento público algum. Agenda-se então a quebra dos escudos para os dias 10 e 11 de Novembro.
No dia 8 de Novembro, a Câmara Municipal envia um ofício ao governador para a disposição da tropa para a quebra dos escudos e a assistência das exéquias.
REI D. JOÃO VI (falecido em 10 de Março de 1826)
Na sessão de 31 de Março, lido o ofício do corregedor da Comarca relativamente ao luto, os vereadores acordam:
–Avisar os juízes e escrivães do ofício e os mais que devem acompanhar a publicação do luto que o senado destina fazer-se a 9 de Abril, “indo o Porteiro a cavalo e os mais a pé, pela dificuldade de poder achar-se bestas capazes e decentes em termos de fazer-se o acto sério e não irrisório, como ocasionariam se assim não fossem”.
–Escrever as cartas aos cidadãos que hão-de quebrar os escudos, que são Luís José Velho de Melo Cabral, Diogo José do Rego Botelho de Faria e António Francisco Botelho de Sampaio Arruda e, igualmente, enviar cartas a todas as pessoas da governação para o acompanhamento da quebra dos escudos e assistência ao funeral de Sua Majestade.
–Nomear os oradores para as vésperas e para o dia das exéquias.
–Pedir ao governador a guarda e duas cornetas para acompanhar o préstito.
–Oficiar à Junta da Fazenda a solicitar a quantia necessária para as despesas do cerimonial.
Na sessão de 22 de Abril, a vereação designa os dias25 e 26 de Abril para a quebra dos escudos e exéquias e envia ofícios ao corregedor e ao governador para assistirem às mesmas.
* Ana Cristina Araújo – “Cultos de realeza e cerimónias de estado no tempo de D. Manuel I”. 2012.

 (Continua)

 

 Ferreira Almeida
ferreira-almeida@sapo.pt

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Categorias: Opinião

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