2 de julho de 2019

Falar claro e sem complexos

Há quem diga que, neste arquipélago, “essa coisa” chamada ilhas do triângulo (Faial, Pico e S. Jorge) não existe. 
Eu concordo. Até porque, aquelas três ilhas, são parte de um todo que se chama grupo central dos Açôres. Este sim, é um grupo, na verdadeira acepção da palavra, atendendo à proximidade entre as cinco ilhas que o compõe.
Na passada semana, o tal triângulo foi notícia de primeira página, por via das reclamações apresentadas por algumas associações de classe daquelas três ilhas. As matérias reclamadas foram, de entre outras, essencialmente os transportes; tanto aéreos como marítimos.
Pelo que me foi dado ler nos jornais publicados nesta ilha de S. Miguel, deixou-me com a sensação de que a realidade das coisas parece não existir em certas mentes.
Em boa verdade todos têm o direito a sonhar. Não é crime sonhar alto e ter utopias. O difícil é poder concretizar aquilo que se sonha.
Para quem vive no grupo oriental deste arquipélago, também ele com problemas de acessibilidades nomeadamente marítimas e durante todo o ano, não pode ficar indiferente às reclamações apresentadas pelas entidades do chamado triângulo. Algumas, provavelmente, terão razão de existir; outras, talvez nem tanto.
Comecemos pelos transportes marítimos de passageiros que - só existem de Maio a Setembro - no grupo oriental deste arquipélago, enquanto no triângulo existem (e muito bem) o ano inteiro.
Parece ter sido reivindicada a substituição do navio Mestre Simão que, como todos sabemos sofreu aquela “invulgar vaga de mar” que o mandou para a sucata.
Para se substituir um navio daqueles – apesar de não ser uma coisa do outro mundo - não é como ir ao hipermercado comprar um substituto; embora existam mercados por esse mundo fora onde se possa comprar “em segunda mão” navios iguais ou melhores do que o Mestre Simão. As gentes do grupo central, especialmente as pessoas do Pico, sabem que é assim, mas não pode ser opção por não haver direito a comparticipações europeias. 
Penso que, nesta matéria, se pode aplicar aquela velha máxima que diz: saber esperar é uma virtude!
De resto, a renovada Espalamaca parece que já navega e, porventura, mais alguma lancha das antigas travessias do Canal. Se assim fôr, não estarão em condições de ajudar no transporte de pessoas? Por outro lado, nos meses de verão, a oferta é melhorada com os navios afretados pela Atlânticoline.
É de senso comum que os horários dos transportes marítimos não conseguem agradar a todos, e muito menos estarem “sintonizados” com o transporte aéreo. Porém, é sabido que nisto de transportes públicos, não é o mesmo do que ter o carro à porta de casa. Comodismo sim, mas… não se exagere!
Já que é alegada insuficiência naquele tipo de transporte, vamos a números. Quando se reclama algo, há que apresentar provas da insuficiência! 
Admitamos que, actualmente, julgo que por excesso, se transportem 720.000 passageiros por ano entre as três ilhas do chamado triângulo. Isto dá uma média de 1.972,6 passageiros por dia. 
Somando as lotações do navio Gilberto Mariano, dos dois Cruzeiros (o do Canal e o das Ilhas) bem como dos dois navios afretados (sem contar com a Espalamaca) chegam para transportar mais de 2.000 pessoas e dezenas de viaturas por viagem, só para um lado. Isto ainda não dá para satisfazer o fluxo de passageiros no bendito triângulo? Não se estará a exagerar nas exigências?
Quanto aos transportes aéreos devo dizer que a SATA é, efectivamente, um pilar da autonomia. Porém há que definir o que se pretende daquela empresa.
Se o acionista pretender que seja uma empresa como outra qualquer, há que tratá-la como tal. Uma empresa é para dar lucro, por isso, a administração da SATA não pode aceitar manipulação – em toda a linha – para satisfação de favores políticos.
Se, por outro lado, a opção fôr para prestação de serviço público - com “borlas” definidas pelo Governo Regional, com faltas de pagamento atempado das viagens feitas por políticos e governantes - o Governo Regional tem de, para além de pagar à SATA a tempo e a horas as viagens feitas - fazer constar no Orçamento da Região, o montante a ser entregue à SATA no início de cada ano. 
Assim, evitar-se-ia, por parte do Grupo SATA, o recurso à banca para pagamento de despesas de funcionamento e fornecedores.
Quanto à ampliação dos aeroportos, deve dar-se o seu a seu dono. 
Pelo que julgo saber, o aeroporto da Horta não é da responsabilidade do Governo Regional, ao invés do aeródromo do Pico que, este sim, eu julgo ser da sua responsabilidade. Como afirmaram, e muito bem esta não é uma obra de tão grande urgência; até porque, se bem me lembro, ainda não há muito tempo que a pista do Pico foi alargada e melhorada.
É lógico que todos nós gostaríamos de ter as melhores das condições para receber aviões de grande porte. Mas, para que tal aconteça, é necessário haver a chamada “massa crítica”, que é uma coisa que nos falta de Santa Maria ao Corvo.
No caso particular do Pico e da Horta, a reclamação feita, já aponta para tipos e modelos de aviões que melhorariam as performances da importação e exportação turística.
Sendo assim, não há dúvida que o Governo Regional terá de diligenciar para que haja a liberalização do espaço aéreo do Pico e do Faial. 
Mas que deixem a SATA de fora dessa guerra. Até porque não tem equipamentos nem tripulações adequadas às exigências apresentadas.
Que não se brinque com coisas sérias!
       P.S. Texto escrito pela antiga grafia.
       30 de Junho de 2019

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Categorias: Opinião

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