A fotografia que escolhi para esta semana é designada por “O homem dos Tanques”. Foi obtida pelo fotógrafo norte americano Jeff Widener durante os protestos na Praça da Paz Celestial em Pequim, na China, em 5 de junho de 1989. A fotografia tirada ao homem que ficou de pé em frente a uma coluna de tanques chineses, forçando-os a parar, transformou-se numa das mais icónicas do mundo. Segundo Jeff Widener, essa arrepiante imagem foi feita de um sexto andar do Beijing Hotel, onde o fotógrafo se encontrava protegido, no dia seguinte ao que ficou mundialmente conhecido como o “Massacre da Praça da Paz Celestial”.
O Massacre da Praça da Paz Celestial ocorreu após uma série de protestos liderados por estudantes chineses que aconteceram entre os dias 15 de abril e 4 de junho de 1989. As manifestações consistiam em caminhadas pacíficas pelas ruas da capital chinesa, e tiveram início com a morte de Hu Yaobang, um ex-líder comunista que tinha lutado para tornar o sistema político chinês mais aberto e democrático. Com a morte de Hu milhares de estudantes decidiram marchar pela cidade para exigir um governo mais democrático, e não demorou até que grupos de diversas partes do país - entre eles trabalhadores descontentes com o aumento da inflação e do desemprego, pessoas que criticavam o governo pela falta de reformas económicas e pela corrupção, e intelectuais preocupados com a repressão exercida pelo Partido Comunista - se unissem aos protestos. Ao longo do período de manifestações milhares de estudantes decidiram fazer greve de fome na Praça da Paz Celestial. Foi então que Zhao Ziyang, Secretário-Geral do Partido Comunista, veio a público para pedir o fim dos protestos e, em seguida, Li Peng, o Primeiro-Ministro chinês, decretou a lei marcial na capital.No dia 1 de junho o governo chinês decidiu bloquear a transmissão de notícias ao vivo de jornalistas internacionais e proibiu-os de filmar e fotografar qualquer manifestação dos estudantes ou movimentação dos militares. No dia seguinte um concerto realizado na Praça da Paz Celestial, como forma de apoio aos protestos, atraiu mais de 100 mil pessoas. No dia 4 de junho, por volta da 1 da manhã, os soldados chineses invadiram o local. Durante todo o dia 4 de junho, tropas chinesas dispararam contra estudantes e civis para acabar com as ondas de protestos. O número oficial de mortos e feridos nunca foi divulgado, mas as estimativas sugerem que milhares de pessoas perderam as suas vidas naquele dia. No dia seguinte, no meio de toda esta tensão, Jeff Widener conseguiu acesso ao Beijing Hotel com ajuda de um estudante ocidental que estava hospedado na capital chinesa. Jeff ouviu a aproximação da fileira de tanques e quando se preparava para fazer uma uma foto dos veículos, apareceu do nada um homem segurando um par de sacos de plástico e colocou-se na frente da coluna de tanques.O fotógrafo conta que, no início, chegou a sentir-se irritado com o homempois estava a estragar a imagem que pretendia. Um pouco depois Jeff deu-se conta do que estava a presenciar: apesar de estar no meio de tiros que vinham de todos os lados, esse homem anónimo, sem hesitar uma única vez, parou diante dos tanques de guerra e enfrentou-os de peito aberto. O que a imagem não mostra é que, depois de desafiar a fileira de tanques, o homem subiu para um deles e seguiu desafiando o avanço das tropas, até que duas pessoas vestidas de azul o levaram e desapareceram na multidão. A testemunha Charlie Cole acredita que o homem foi levado pela polícia secreta e foi um dos muitos executados, uma vez que o governo chinês nunca foi capaz de identificá-lo após as fotografias se tornarem públicas. Segundo Jeff, a cena pode lembrar a passagem bíblica de David e Golias. Trata-se de alguém que, por alguma razão - como a morte de um ente querido ou a total indignação com o governo- cansou-se de toda aquela situação e deixou de se importar com a própria vida. A foto de Jeff foi publicada no dia seguinte e apareceu na primeira página de jornais e publicações de todo o mundo. Já quanto ao Homem dos Tanques, ninguém descobriu qual era a sua verdadeira identidade nem o que aconteceu com ele depois dos conflitos.
Jeff Widener ainda se questiona sobre o destino da figura solitária que capturou. O “momento” mudou a sua vida e a fotografia tornou-se numa das mais conhecidas de todos os tempos. “Estaria a mentir se dissesse que penso nele todos os dias, mas penso quando irá aparecer, quando irá chegar alguém para dizer: “Foi isto que aconteceu ao Homem dos Tanques”, disse o fotojornalista norte-americano, em entrevista à agência Lusa.Jeff não foi o único a fotografar o icónico momento em que um tanque avançava sobre um destemido jovem manifestante, mas foi a imagem que capturou com a sua Nikon FE2 ao serviço da agência Associated Press (AP) a que mais correu o mundo, inundando as primeiras páginas dos jornais, e que recebeu uma nomeação para o prémio Pulitzer. Sem esquecer que existem muitas teorias sobre a identidade do Homem dos Tanques, o fotojornalista considera impressionante o facto de persistir um vazio sobre o seu destino. “Não há nada. Não há nenhuma pista, ninguém sabe nada”, salientou JeffWidener, que falava à Lusa pouco antes da vigília em memória das vítimas de Tiananmen que se realiza anualmente em Hong Kong.
Depois do corajoso jovem lhe ter estragado a composição que inicialmente desenhara - o alinhamento perfeito dos blindados - JeffWidener apercebeu-se, enquanto esperava pela morte que julgara certa do Homem dos Tanques, que a imagem estava muito longe e arriscou mudar de objectiva num gesto que poderia ter colocado tudo a perder. O jovem colocou-se, por diversas vezes, à frente dos blindados que avançavam para a praça. E quando Jeff Widener voltou a debruçar-se na varanda do Beijing Hotel o estudante fez uma última abordagem aos tanques. Isso explica a diferença relativamente a imagens capturadas por outros fotógrafos em que a figura solitária aparece com “um ar mais desafiador”, observou Jeff Widener, indicando que a sua fotografia tem um outro elemento que a distingue e que lhe “confere profundidade de espaço” - os candeeiros. “Todas apresentam um diferente estado de espírito. É realmente impressionante pensar de quantas formas diferentes um evento pode ser fotografado”, afirmou Widener, para quem a icónica imagem que captou, aos 33 anos durante o período de duas semanas que esteve em Pequim, é “especial”, embora também existam outras muito boas, na sua autoavaliação.
KirkMartsen, um estudante universitário norte-americano que não conhecia, foi a personagem principal na história do fotojornalista em Tiananmen. Foi ele quem lhe comprou mais um filme fotográfico e quem o ajudou a escapar à polícia secreta do Beijing Hotel, permitindo que subisse ao seu quarto como se fosse seu convidado. Também foi ele quem consegui fazer chegar as fotografias aos escritórios da AP. “Devo-lhe muito”, sublinhou. “Eu tirei três fotografias e, de repente, vi a velocidade do obturador. Parecia impossível ter uma imagem completamente nítida estando sem tripé debruçado numa varanda a tentar equilibrar-me”. Embora sem saber o que viria a ser revelado, as imagens chegaram à Associated Press. Kirk Martsen colocou os rolos dentro de sacos plásticos, escondeu-os na sua roupa interior e saiu do hotel, passando pelos elementos da polícia secreta. Entregou os rolos na embaixada norte-americana que os fizeram chegar à AP e rapidamente a fotografia chegou ao mundo inteiro.
Paulo Medeiros