25 de junho de 2019

Desígnios e Inquietações


Os discursos do 10 de Junho de 2019, deram-nos a conhecer o ex - jornalista João Miguel Tavares, que já era “famoso”, não só pela sua participação no “governo sombra” da TVI, como pelas suas “inteligentes” crónicas no jornal o “Público”. Foi o orador oficial.
 Alguns trataram-no como um novo herói nacional, outros criticaram-no duramente. Ainda outros, exaltavam,” em frente João Miguel, és um dos nossos, em frente marchar, marchar” Por momentos, fez-nos recuar no tempo, quando este dia era conhecido como o “dia da raça”.  Numa recente entrevista, assumindo ser de direita, declarava que tinha deixado de ser jornalista, porque lá em casa havia uma família para sustentar e o dinheiro não chegava. Não teve necessidade de emigrar, porque foi um sortudo em encontrar trabalho para sobreviver, quando governava Passos Coelho, de quem era admirador e apoiante. 
O orador não caiu na tentação de afirmar que não é político, nem de esquerda nem de direita e não ter ideologia. Faça-lhe essa justiça, pela coerência e sinceridade. O discurso valeu mais pela forma do que pelo conteúdo. Quem me dera ter a qualidade da escrita do orador. Ele mesmo, na referida entrevista, assumia ser mesmo bom naquilo que fazia. O discurso “caiu bem”. Foi popular ou populista?
Temos um problema. Ao que chegamos. Qual irá ser o futuro dos nossos filhos? Corrupção? A culpa é dos políticos. Das elites. Quais? Qual a raiz dos problemas? Muitos ficaram “intocáveis”. Porquê?
”… onde alguns poucos concentrem tanto quanto todos os demais…”. Palavras do Presidente Marcelo. Estaria a referir-se a Portugal? Porque não um desígnio nacional? Foram proferidas há alguns meses atrás. Porque não no 10 de Junho? 
Como recentemente um escritor açoriano afirmava, é a economia que continua a mandar na política. A concentração de riqueza e as desigualdades irão continuar. Uma das medidas de as combater, são as fiscais. Mas a estas, as grandes fortunas, têm sempre maneira de as contornar, procurando países, onde sejam praticadas taxas de incidência reduzidas. Com as “poupanças” obtidas, sempre aparecem umas “fundações”, que generosamente, financiam estudos e/ou análises para aquilatar dos efeitos colaterais de tais concentrações desmesuradas de riqueza. Quais são aqui os desígnios e as inquietações?
A estas perguntas, alguns oradores, nunca dão resposta. Pese embora dominarem toda a retórica e como ninguém a língua de Camões. E porque não? Porque, detentores de inquestionáveis qualidades, não são “tolos”. Agora iam lá “cuspir no prato que lhes dá o comer”.
Aqui atrasado. Trinta anos. Ainda podíamos bater no comunismo. Os males do mundo vinham do leste.  Esta inquietação tinha passado. O desígnio tinha sido concretizado.
Já se evoluiu bastante ao assumir que o socialismo duma economia planificada estatal, burocrática, autoritária, cujo modelo mais evidente foi o soviético, falhou e só gerou miséria. Gorbachev e a perestroika/glasonot, já não foram a tempo de democratizar o regime. Os chineses aprenderam a lição. Um regime dois sistemas. 
O regime - o comunista. Os sistemas – o capitalista e o socialista. Será um desígnio ou uma inquietação? Onde mora aqui a Democracia? E a liberdade de expressão? A mediação que o jornalismo consubstancia, o que tem a dizer? Não foram os chineses “buscar” ao capitalismo o que tem de pior? A sua falta de “rosto humano”, desapiedado, que mata, literalmente.
Um grupo de jornalistas franceses, inquietos, teve a coragem de denunciar, a venda de armamento por parte da França do Presidente Macron à Arábia Saudita, reino déspota, que desumanamente ataca no Iémen populações indefesas, incluindo crianças, perante a indiferença geral, não obstante a chamada de atenção para o genocídio por parte da ONU. 
Recordo que uma das medidas de Macron foi desonerar as grandes fortunas, no sentido dos seus detentores não as deslocalizarem para outras paragens. Um desígnio?
A liberdade de expressão vem antes da liberdade de votar, porque só aquela, possibilita uma votação informada e consciente, declarava, ainda agora, o já referido grupo de jornalistas. 
O nuclear, as alterações climáticas, as desigualdades, que o livre mercado da alta finança e da economia, agravam, a cada crise cíclica, não serão motivos de inquietação? Não. Existe um desígnio. Ele aí está. O digital e o seu algoritmo, assim como, a Inteligência artificial e a robótica, darão a resposta. Descontando as “coisas boas”, que geram, não estarão a contribuir para um mundo cada vez menos humano e despreocupado com os que ficam para trás?
Mas alguém se inquieta. É uma jovem sueca de apenas 15 anos, Greta Thunberg, que exclama que “nada está a ser feito para deter a destruição do clima”. Milhares de jovens em todo o mundo respondem ao seu dramático apelo, manifestando-se contra os poderosos.
A ONU, pela voz do Secretário - Geral Guterres, declara que o mundo precisa de “uma mudança radical” para responder ao desafio das alterações climáticas. O Presidente  americano Trump não só desvaloriza, com não assina o “ Acordo de Paris” de 2015, onde 195 países estabelecem o compromisso de minimizar as consequências do aquecimento global.
 É uma inquietação partilhada, que gera um desígnio. Mas como se constata, há “sempre alguém que resiste, alguém que diz não”, não em nome duma boa causa, mas do desígnio maior do egoísmo, da ganância e dum nacionalismo bacoco.
“As desigualdades e o engrossar cada vez maior do número de pobres, que em Portugal quer nos Açores, chega a ser assustador, constituindo um problema, que como tal tem as suas raízes, que convém sejam devidamente encontradas, tendo em vista eventuais soluções.” Não constituirá esta citação inquietante, um bom DESÍGNIO? Porque não a vimos reflectida nos discursos dos dias de Portugal e dos Açores?
Que “máscaras” caiam… É que por vezes, dá a impressão que vivemos uma farsa, tipo ópera “buffa” italiana. Terá tido Orwell razão, antes do tempo, com o seu livro “1984”, escrito em 1949?

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Categorias: Opinião

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