Veterinários de todo o país reunidos em Vila Franca para trocar ideias, experienciar a gastronomia e ouvir música regional

Todos os anos um grupo de cerca de 40 veterinários de todo o país, incluindo das regiões autónomas, juntam-se em local a definir para recordar como eram aqueles tempos e o que significam os mesmos nas suas vidas. Este ano coube a Damião Soares organizar o evento, tendo o mesmo escolhido para palco a sua terra. “Como vilafranquense e homem que escolheu a profissão para exercer na sua terra, seleccionei o concelho de Vila Franca do Campo para realizar este evento. Optamos pelo Convento de São Francisco, sendo que eu vou fazer uma pequena introdução para contar a história do convento e da vila. Depois far-se-á o almoço seguido de uma tarde de fados e guitarradas. Mais tarde, haverá um passeio pela vila e vamos à Nossa Senhora da Paz ver aquela magnifica vista”, narrou o veterinário, com orgulho. 
O vilafranquense conta que “naquela altura só havia Veterinária em Lisboa, sendo que hoje já há seis escolas no país. Há 40 anos fiz o meu curso e o meu grupo de colegas da altura celebra esta data anualmente”. São os próprios estudantes que terminaram o curso há quatro décadas que organizam este evento, sendo certo que esta é a primeira vez que o mesmo se celebra nos Açores. No entanto, Damião Soares espera “fazer aqui as bodas de ouro, ou seja daqui a 10 anos”. 
Os convidados chegaram a São Miguel no dia 20 de Junho, passada Quinta-feira, para um momento que é mais de confraternização do que de debate. “Este é um momento mais lúdico, no qual podem ser ventilados alguns assuntos sobre a veterinária, mas o objectivo não é esse. No entanto, normalmente há sempre trocas de experiências quando as pessoas se encontram nestes eventos.”
Questionado sobre o que mais recorda dos tempos de universitário, o micaelense realça que, “naquela altura, Lisboa ainda era uma cidade onde se podia andar à vontade e estacionar o carro. Nos anos 70 Lisboa era outra cidade, hoje quase não vale a pena lá ir, pois está sobrelotada com o turismo e não só! Para mim, é um drama quando tenho que ir a Lisboa”, confessa.
Certo de que em 40 anos muita coisa muda, o veterinário garante que esta área evoluiu muito, principalmente no trato dado aos pequenos animais. “Comecei por tratar dos grandes animais quando cheguei aqui à ilha e éramos muito poucos naquela altura, quase que se trabalhava 24 horas por dia! Depois fui fazendo a transição, até porque a clínica dos grandes animais é muito exigente mesmo no aspecto físico; devagarinho fui trasladando isso para os pequenos animais, que é onde estou hoje. Por aquilo que vou acompanhando, tem-se dado uma evolução fantástica e todos os anos há descobertas e aparelhos novos.”
Por outro lado, afirma que a postura das pessoas também mudou. “Acho que hoje em dia as pessoas estão muito mais sensibilizadas para o tratamento dos animais, principalmente nesta nova fase dos seniores e da geriatria. Esta é uma área muito importante, porque os animais também envelhecem e é preciso ter alguns cuidados com eles”. A título de exemplo, o médico destaca que é preciso ter atenção “quando eles dormem muito tempo, se ficam muito gordos ou magros ou se têm vómitos e diarreia, para que se possa tratar deles atempadamente”.
Outra descoberta significativa, na opinião de Damião Soares, aconteceu ao nível cognitivo dos animais. “Isso é muito importante, mas antes não se dava grande atenção. Tudo isso foi alterado, para bem dos animais e das pessoas naturalmente. Se o homem pode ter mais uns dias de vida também é bom que os animais os tenham. Sendo que eles têm um período de vida muito curto em relação a nós, há mais necessidade de, atempadamente, começarmos a fazer a prevenção para o prolongamento da vida dos nossos animais.”
O estado comportamental do animal é outro tópico a que as pessoas dão cada vez mais importância. “Há 40 anos atrás sabia-se muito pouco sobre isso e hoje em dia não é assim. Já há veterinários que se dedicam só a esta área e claro que ajuda muito este conhecimento e as terapias que actualmente já existem. Portanto, tudo isso melhora a qualidade de vida dos animais”, salienta.
Quanto aos desafios da veterinária que actualmente existem, não hesita em afirmar que “são enormíssimos, seja a nível da saúde pública, do tratamento dos grandes e dos pequenos animais e até na indústria. Cada vez há mais exigências e os desafios são maiores. Tudo isso exige, naturalmente, mais formação complementar, mas muita desta formação é feita depois dos cursos básicos, nas ditas especialidades que antes nem sequer existiam! Já temos pessoas que se dedicam só à oftalmologia, à dermatologia ou à cardiologia, portanto há uma especificidade e diversidade muito grandes para as carreiras individuais de cada profissão”. 
O médico vai mais longe e garante que “hoje há um crivo muito maior nesta área e todos beneficiamos com isso, porque temos as bases gerais dos cursos mas depois é necessária a especificidade de determinadas áreas”.
Aproveitou a oportunidade para relembrar como eram os tempos em que começou a exercer. “Naquela altura, quando cheguei aqui aos Açores, nos anos 70 e 80, havia essencialmente a área clínica e a da saúde pública. Eu era o médico veterinário municipal e tinha a meu cargo a sanidade dos rebanhos. Lembro-me perfeitamente que se aproveitou a minha disponibilidade para fazer a primeira campanha em profundidade nos Açores na segunda bacia leiteira, que era Ponta Garça; estivemos ali um ano e tal, eu e o meu colega Mesquita Trindade, a fazer pesquisas todos os dias e a tirar sangue às vacas para saber qual era a situação da brucelose que na altura era uma doença terrível aqui na região.”
O veterinário relembra que tinham “que aconselhar as pessoas a abater as vacas e fazíamos quase uma missão didáctica e pedagógica nesse sentido, porque a brucelose é uma doença infectocontagiosa transmissível às pessoas e o grande perigo era esse. Eu também fui vítima disso e tive uma crise de brucelose em 1987”.
Concluindo, Damião Soares realça que é um orgulho organizar este evento, pois é o “culminar de um caminho que fomos percorrendo ao longo da vida. Sinto-me altamente feliz por ter chegado aos 70 anos e por comemorar este evento aqui em São Miguel. Muitos dos meus colegas já conhecem a ilha, mas naturalmente que São Miguel é uma ilha sempre bonita mesmo para quem já cá esteve”, destaca.
A animação musical do evento que acontece hoje está ao cargo de vários vilafranquenses, nomeadamente da fadista Graça Prata, acompanhada por José Victor Prata à guitarra.

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