Começo, justamente, por felicitar o Professor Doutor Giovanni Riccardi e a Professora Doutora Helena Rebelo pelo trabalho notável que acabam de trazer a público sobre escritores e poetas madeirenses e não só. Um trabalho que teve em gestação durante 22 anos, pois foi em 1997 que o Professor Ricciardi iniciou as entrevistas, sem nunca ter encontrado editores para publicá-las, até que, em 2014, teve a felicidade de encontrar a Professora da Universidade da Madeira, Helena Rebelo, e esta logo se interessou em colaborar no sentido da obra vir a público.
Segundo Helena Rebelo: «passei estes anos a tentar convencer várias entidades regionais da validade do trabalho, incluindo a que tinha patrocinado inicialmente, mas nenhuma parecia ter, realmente, interesse na sua execução. A minha perplexidade face às atitudes que se foram manifestando foi aumentando à medida que crescia a minha vontade de ver concretizada a publicação».
Consciente da importância deste trabalho, da sua publicação, inclusive, para consulta, pois até à data nada se fizera tão completo sobre os escritores, na maioria poetas, nascidos ou não na Madeira, a docente da Universidade da Madeira persiste. Não desiste e, por fim, consegue apoios para a sua publicação da Câmara Municipal do Funchal.
Julgo que pouco interessa o local de nascimento dos autores. O fundamental era o facto da literatura ter sido produzida na Madeira (arquipélago – ilha): «seja por autores nascidos ou não neste território. Importa é que com ele tenham uma ligação, abordando temáticas variadas, inclusive as insulares. Isto é sobre a Madeira».
Por isso, a Madeira deve estar grata aos dois Professores, pois esta publicação constitui uma mais-valia para os estudantes e para todos aqueles interessados em estudar ou conhecer alguns dos autores que deram, com os seus escritos e poesias, um contributo ao panorama literário regional – conhecerem as suas formas de estar e de viver a vida, nas diferentes vertentes.
Indiscutivelmente que não posso deixar de relevar todo o trabalho do Professor Giovanni Ricciardi, «um lusitanista italiano dedicado ao estudo da génese literária, sobretudo em autores brasileiros». Autor de várias publicações, ele chega à Madeira em 1997. É através dele que vou à Universidade Sapienza de Roma e ao Instituto Oriental, onde ele era professor, proferir duas conferências para os alunos de língua portuguesa e espanhola. O seu currículo era garantia para a qualidade do trabalho em questão, o que se veio a confirmar depois.
Não há dúvida que o prolongado silêncio sobre a Biografia e a Criação Literária a que esteve votada, saiu do horizonte da minha memória. Foi, para mim, uma agradabilíssima surpresa ao tomar conhecimento, há duas semanas, aquando da realização da Feira do Livro no Funchal, da sua apresentação pelo Professor Giovanni Ricciardi e Professora Helena Rebelo. Infelizmente, por razões de saúde, não pude estar presente, mas tive a grande alegria de abraçar, na minha casa, o Professor e a sua simpatiquíssima mulher, manifestando-lhe a minha gratidão pelo valioso trabalho, iniciado durante o meu mandato de Secretário da Cultura. Gesto que, mais tarde, repeti em relação à Professora Helena Rebelo.
Na Nota Introdutória, o Professor Ricciardi diz:
«Por que razão a entrevista?
A hipótese das minhas pesquisas é que o autor, ou seja, o fazedor de textos literários, seja totalmente envolvido e influenciado pelo cidadão, ou seja, pelo homem histórico. Com essa hipótese, comecei, desde 1986, os meus encontros com escritores brasileiros, portugueses e, também, madeirenses. A entrevista era pautada sobre um questionário de 40 perguntas e focalizava três pontos: a formação, o ofício de escrever e o destino do texto. Finalizava na entrevista um perfil, um autorretrato traçado pelo próprio autor».
Deste questionário inteligentemente elaborado resulta que o autor entrevistado, livremente, expõe tudo quanto considera importante da sua vida de escritor e de pessoa humana. Daí que a entrevista seja muito completa e se ganhe do entrevistado uma opinião mais bem formada, mais verdadeira.
A Biografia e a Criação Literária abrangem 19 escritores-poetas, alguns dos quais, infelizmente, já mortos – autores conhecidos e cujos talentos de escrita muito admirava. Poetas-escritores com quem convivi e de quem fui amigo: Margarida Falcão, Maria Aurora, Maria do Carmo Rodrigues, José António Gonçalves, Margarida Silva e João David Pinto Correia.
Através das suas entrevistas, revivi muitas das nossas conversas e tive a sensação de ouvi-los nas suas opiniões. Foi uma viagem de saudade no tempo ao passado. Recordei-os naqueles momentos de um convívio salutar e amigo que ficam para sempre.
Sendo eu um dos entrevistados, posso afirmar, aos Autores da Biografia, que me revejo nas palavras.
Da Professora Helena Rebelo:
«Embora muitos anos tenham passado (22 anos), espero que os autores vivos se revejam nele e que sirva como homenagem para os que já partiram, permanecendo quer na escrita, quer no que disseram aquando das entrevistas que aceitaram dar para publicação posterior e de que os herdeiros podem testemunhar. Que tudo sirva para vivificar a criação literária no arquipélago madeirense, através da palavra!».
Renovando as minhas felicitações, agradeço o contributo valioso dos Professores Ricciardi e Helena Rebelo à cultura local.