14 de junho de 2019

Duas mulheres que se amam e outras coisas normais

Em Londres, duas jovens foram violentamente agredidas por quatro rapazes. Quatro adolescentes, entre os 15 e os 18 anos, foram, entretanto, detidos pela polícia. Repito as idades para não acharem que é um lapso: entre os 15 e os 18 anos, menores de idade no nosso país. Aconteceu na cosmopolita e tolerante cidade de Londres, cuja câmara municipal é presidida pelo trabalhista e muçulmano Sadiq Khan, filho de imigrantes paquistaneses. Estes quatro jovens não se movimentam numa cidade que os aconselha a levar a cabo ataques misóginos, sexuais ou racistas, antes pelo contrário. De quem será a culpa a não ser deles próprios? 
Não será, certamente, de duas mulheres que se amam, e seguem num transporte coletivo, ao fim do dia, a caminho de casa. O mote para as agressões foi igualmente tenebroso. E por muito que a minha vontade primeira seja culpar a educação que aqueles quatro (não) tiveram, não o posso fazer porque não sei. Conheço pais que se preocupam 24 horas por dia a educar os filhos para a tolerância e igualdade, e nem sempre a mensagem passa. Acredito que também não passou naqueles quatro casos. Tal como não passou o ambiente criado por uma autarquia tolerante para a construção de uma cidade mais preocupada com os outros. E assim, aqueles quatro rapazes agrediram Chris e Melania porque elas não se beijaram para deleite deles. Eles quiseram, por elas serem namoradas, que se beijassem para seu gozo. Elas mantiveram a dignidade. E foram cobardemente agredidas. Amam-se, mas parece que não podem. E beijos, só para os outros se divertirem. 
Enquanto Melania e Chris eram atacadas, Berardo, o senhor que não tem dívidas e também não tem património, passeava num carro de luxo pelas regulares estradas de Lisboa. No banco traseiro sentado, enquanto o motorista conduz o Jaguar, Berardo rima com luxo. Mora num apartamento de luxo no centro da capital portuguesa, é conduzido na tal viatura de luxo e, à imagem de qualquer ser-humano, precisa de se alimentar. No caso do senhor que não deve nada nem nada tem em seu nome, em restaurantes de luxo, apenas para não variar. Não sabemos, mas o motorista também deverá ser de luxo. Só que não é de Berardo, isso já sabemos. 
Tenho acompanhado com relativa atenção dois casos que têm recebido bastante atenção por parte da comunicação social nacional. Em Santa Maria da Feira, uma trabalhadora corticeira foi ilegalmente despedida, depois de inúmeros casos de assédio laboral, perseguição e o encargo de exercer funções diversas das que estaria obrigada pelo contrato que possuía. A ACT participou ao MP as ações empreendidas pela empresa com o propósito de levar a trabalhadora a sair pelo próprio pé. A empresa foi multada, a trabalhadora reintegrada. Em Setúbal, aconteceu o segundo caso. Miguel Casanova apresentou queixa contra o seu patrão – o PCP – por despedimento ilegal. Segundo este funcionário, teria sido despedido por delito de opinião. Perante este quadro, foi colocado a fazer outros trabalhos, com os quais discordou. Tal como o exemplo dado acima, o Tribunal do Trabalho condenou a entidade empregadora a reintegrar Miguel. O tribunal diz que o despedimento foi feito por razões políticas, sem justa causa. 
Arménio Carlos, dirigente da CGTP, a propósito do despedimento da trabalhadora corticeira, dizia que «enquanto a Cristina não for reintegrada, a estrutura sindical não vai deixar de lutar». E Miguel Viegas, até há pouco tempo eurodeputado comunista, referia que «a Cristina foi vítima de um despedimento ilegal e de assédio laboral. Esta luta extravasou o caso individual e é útil para contribuir para uma certa revolução das mentalidades». Contemplará esta «mudança de mentalidades» a situação de Miguel Casanova? 
 

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Categorias: Opinião

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