Em jeito de prefácio ao presente trabalho – que já estava escrito antes de 6 de Junho do corrente mês – e porque entretanto aquela data foi referenciada em vários órgãos de comunicação social, desde a televisão às rádios, passando pelos jornais (pelo menos em S. Miguel) sinto-me na obrigação de fazer uma referência ao que vi, li e ouvi a respeito daquela data histórica.
Na RTP/A o programa SEM MEIAS PALAVRAS foi, quanto a mim, excelente.
Começo pelas intervenções do Dr. Carlos Eduardo da Silva Melo Bento. Para mim, foi simplesmente soberbo! Recomendo o re-visionamento do programa.
Natalino de Viveiros, sobre aquela manifestação, disse o que tem afirmado noutras ocasiões, nomeadamente no seu livro sobre o 6 de Junho de 1975. Devo dizer, mais uma vez, que não comungo da mesma opinião, nalguns aspectos.
Quanto ao actual Presidente do Directório da FLA, Dr. Rui Medeiros, soube distanciar-se dos acontecimentos de então, e soube, com mestria, demonstrar que as reivindicações açorianas de auto-governo já vêm bem detrás (desde o século 19), pelo que, as reivindicações actuais estão em coerência com a nossa história reivindicativa.
O Dr. Carlos Fraião surpreendeu-me com aquela “tirada” de dar a entender que o seu partido – Partido Comunista Português – teria “na manga” um projecto de autonomia para os Açôres. Tentativas de branqueamento do “terrorismo” do tempo do PREC (Processo Revolucionário em Curso com o patrocínio do PCP) já se viram muitas; porém, esta que o Dr. Fraião disse agora, é de bradar aos céus.
Por fim, o jornalista João Coelho. Ameaçado de morte? Que disparate! Aquele senhor nunca teve, nem importância, e muito menos “estatuto” para ter sido ameaçado de morte; tanto quanto sei foi simplesmente ignorado após a sua saída do Emissor Regional dos Açôres. As barbaridades socializantes que dizia aos microfones do velho E.R.A. eram glosadas no exterior. Notava-se, a “léguas” de distância, a sua submissão ao PCP.
É espantoso como, 44 anos depois, aquele senhor continua a “destilar” ódio. Chegar ao desplante de chamar à Família Bensaúde terra-tenente, é a relevação de imensa ignorância, sobretudo da história da sua própria terra.Parabéns ao SEM MEIAS PALAVRAS!
Vamos agora ao que me propôs abordar.
O Dr. José d’Almeida sempre disse que a independência dos Açôres se faria com Portugal e não contra Portugal.
Para muitos isto pode parecer um paradoxo, mas não é. Eu explico.
Do vasto império que Portugal tinha, antes do derrube do regime a 25 de Abril de 1974, desde Timor a África, passando pela China, as ilhas de S. Tomé e Príncipe, bem como os Arquipélagos de Cabo Verde, Açôres e Madeira eram inabitadas à chegada das caravelas do Infante.
Pergunto, se foi dada, em bandeja de prata, a independência aos arquipélagos portugueses do Atlântico Sul, porque não se teve o mesmo critério para com os Açôres e Madeira?
Por outro lado, e se bem me lembro como diria Victorino Nemésio, no programa das Forças Armadas que suportou o golpe militar para derrube do chamado regime de Salazar, constava que Portugal se reduziria à sua dimensão europeia.
Ora a dimensão europeia de Portugal, baseando-me na geografia que aprendi, vai do Minho ao Algarve, incluindo ilhéus e ilhotas costeiras como as Berlengas, por exemplo.
Há ainda a acrescentar que, se o golpe do MFA falhasse, os revoltosos viriam para os Açôres declarando a independência destes nove torrões que tanto amamos.
Assim, se era viável para eles os Açôres se tornarem num país soberano, por que motivo se nega aos açorianos a mesma possibilidade?
Seremos, porventura, menos capazes? Eu penso que não. Em meu entender somos tão ou mais capazes do que qualquer português do rectângulo ibérico. Temos dado provas disso ao longo da nossa história.
Agora, Portugal sem os Açôres e Madeira, passariam a ser mais uma província de Espanha (economicamente já o é) tal como a Catalunha, País Basco ou Navarra o são, tendo até língua própria.
A dimensão europeia de que Portugal goza, deve-se à Madeira e, sobretudo, aos Açôres, cuja dimensão territorial (apesar da maioria ser água) é muitíssimo superior à península ibérica onde o rectângulo português está inserido.
Isto não é fantasia nem utopia! É a realidade, nua e crua!
Apesar de tudo, nuns Açôres independentes, Portugal estaria sempre ao nosso lado. Isto porque foi de lá que viemos, trazendo a sua cultura, os seus costumes, etc.
Porém, com uma existência de mais de cinco séculos de isolamento (e exploração, porque não dizê-lo), fomos criando diferenças nos usos, nos costumes e até no falar, por inclusão de palavras trazidas pela emigração. Numa palavra, criámos uma identidade tão própria que nos diferencia do minhoto, algarvio ou beirão.Para quem me lê, poderá pensar que estou a chover no molhado. Devo dizer que nunca é demais repetir o que é um facto palpável, que muitos fazem por “branquear” para não haver encorajamento na reivindicação da independência dos Açôres.
Mas, os factos são factos. Se, como acima referi, os Açôres poderiam ser um país independente com os militares revoltosos, também o podem ser por iniciativa própria. E que não se argumente a questão económica, porque está mais do que provado que poderemos produzir mais e melhor. Basta estar atento à comunicação social para se ficar a saber das inúmeras iniciativas que têm surgido nas várias ilhas dos Açôres para produção de riqueza.
Evidentemente que a luta pela emancipação dos Açôres não poderá ser igual à do passado. Há que actualizar métodos e consciencializar as pessoas – de modo especial a juventude!
Haverá coragem?
P.S. Texto escrito pela antiga grafia.
8 de Junho de 2019