A queda do muro de Berlim em 1989, foi vista como uma vitória do Estado Social na União Europeia, constituída a ocidente, como factor de estabilidade e progresso entre os povos das várias nações, tendo funcionado como bloqueio ao avanço dos regimes comunistas totalitários, liderados pela União Soviética. A economia centralizada estatal e socialista, falhara.
A ocidente e em Portugal, rejubila-se. O capitalismo e o livre mercado de capitais e mercadorias, haviam vencido. As nacionalizações são revertidas. As reprivatizações sucedem-se. Os empresários, investidores e grandes banqueiros, são olhados com respeito e admiração.
São premiados e condecorados, não só em Portugal, como por esse mundo fora. São assessorados por gestores e juristas, reconhecidos não só pela excelência, como pela inteligência superior. São recrutados nas melhores Universidades do País e do Estrangeiro.
Os governos do chamado “arco”, também os disputam, quase como “troféus”. O meu é melhor do que o teu. Vêm da “privada”, ganhando milhões, passam a ganhar tostões. Mas a isso obriga o serviço público e à comunidade. Serão recompensados no futuro. Se não for no País, espera-os uma promissora carreira internacional.
Como corolário, de todos estes êxitos, surge em 1993 um banco, é português, e como não podia deixar de ser, de negócios. Num edifício imponente. Ali para os lados da alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa. Os “alfacinhas” que por lá passam, param e olham. São reformados. Depois duma “bisca de três”, questionam? Será que posso abrir lá conta?
É o BPN - Banco Português de Negócios. Fundadores? Quem são? Ex – ministros, empresários, advogados, e etc. Investem milhões. Alguns são capitalistas sem capital. Como? Então de onde vem toda aquela “massa”? Dos mercados, da bolsa (das bolsas dos contribuintes e dos tais reformados só mais tarde). Assim como que, “quem arrisca não petisca”. Jogam forte e ganham. São fortunas.
Em 2007/2008. Surge uma pandemia. A doença é altamente contagiosa e afecta mais as “tais fortunas”. É geral e surge na América, com créditos de risco, a que faltam garantias. O fenómeno ficará conhecido como a crise do “subprime”.
Em Portugal um banco de Investimentos, é acusado de fraude fiscal e branqueamento de capitais. De seu nome BPN. Seguem-se outros bancos e outras grandes empresas de referência. Estamos a falar de milhares de milhões.
Segundo os especialistas na matéria, num mercado globalizado e de livre circulação de capitais, não há nada a fazer, porque a expectativa e confiança é na auto-regulação dos mercados. Portugal recorre a um empréstimo de 78 mil milhões, dos quais cerca de 30 mil são para solver tal situação.
O caso do emigrante na África do Sul, José Berardo, que por lá fez fortuna, é semelhante a muitos que fugidos da fome no Portugal de Salazar, na estranja procuravam novo alento e o ganho para pelo menos uma refeição por dia.
Desconheço se o Sr. Berardo pertence ao grupo de Bilderberg ou se alguma vez esteve em Davos, o que se sabe é que quando regressa a Portugal e à ilha da Madeira, é recebido com “honras de herói”, condecorado e admirado. Compra e vende, vá a recepções onde está a “sociedade”. Todos lhe fazem vénias e elogiam o seu génio.
É convocado para ir a uma comissão de inquérito na Casa da Democracia. Constituída no âmbito de se saber o que foram feitos aos tais 30 mil milhões, que deram sumiço, por onde já tinham passado dezenas de personalidades, que confessam que o único crime que cometeram é “não terem memória”, crime que os legisladores não tinham previsto no código penal.
O Senhor José, comparece, é igual a si mesmo, de quando menino e moço abala do Funchal. Declara que apenas tem uma garagem na ilha da Madeira. Tudo o resto é falso. Tem memória.
Desconcerta os deputados, da esquerda à direita. Toda a imprensa, a tradicional e a digital, comentadores e fazedores de opinião, não têm mãos a medir.
José Manuel Rodrigues Berardo, “Joe Berardo”, apenas se limitou a aproveitar as oportunidades do sistema capitalista. Se fosse chinês, hoje, na china comunista do Xi Jinping, seria membro do comité central do partido, correria o “risco” de ser sócio da EDP do Sr. António Mexia, e a jantar com a pronúncia madeirense, com o seu conterrâneo Amado, pagando a conta o inevitável Catroga.
Silêncio cúmplice ou indignação tardia? O bom senso e a racionalidade, induz-nos, que a resposta só possa ser afirmativa. Onde, quando e como actuaram os “reguladores” e o governantes tutelares? Os “especialistas” dizem-nos que o “sistema” funciona, mas está sujeito a “crises cíclicas”. Alguns, até já conseguem prever a próxima.
Silêncios e omissões cúmplices e as indignações chegaram tarde de mais.