Face a Face!... Luís Franco acordado às 04h00 do 9 de Junho de 1975

Preso por “marinheiros armados (em parvos)”

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Luís Vasconcelos Franco - Sou um homem de 76 anos, fisicamente normal, cabelo grisalho mas de barba completamente branca, sem afectação nenhuma e sem preconceitos rácicos, sociais ou de género. Fui casado em primeiras núpcias e tive dois filhos, um rapaz e uma rapariga. Do meu segundo casamento, tenho mais um filho.

Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social?
Fui um aluno pouco mais que sofrível. Passei pela escola do Livramento, pelo Liceu de Ponta Delgada, estive internado nos colégios Nuno Álvares, em Tomar e no João de Deus, no Monte Estoril e, novamente, no Liceu de Ponta Delgada onde acabei o sétimo ano. Cumpri 42 meses de serviço militar e não fui mobilizado para a guerra. Frequentei o Instituto de Estudos Sociais e de Ciências Sociais e Política Ultramarina sem ter concluído nenhum dos cursos.
Trabalhei numa companhia de seguros, fui vendedor de automóveis, co-proprietário duma Casa de Fados e de uma fábrica de embalagens. De regresso a S. Miguel, fui lavrador, industrial de lacticínios, distribuidor de automóveis, acionista de algumas empresas, industrial de carnes, de  pescado, de transformação (brinquedos), de construção civil, armador de pesca, co-proprietário de uma agência de viagens e armador de navios de dragagem. Devo ter-me esquecido de qualquer outra aventura.
Socialmente, considero-me um indivíduo de trato fácil que gosta de cultivar as suas relações e amigo dos seus amigos.

Como se define a nível profissional?
Chato! Detesto assuntos pendentes com tudo o que isso implica de insatisfação pessoal e como entidade patronal.

Quais as suas responsabilidades?
As normais de um pequeno empresário.

Como descreve a família de hoje e que espaço lhe reserva?
Para mim, é o complemento natural de um indivíduo. Eu, ainda sou da velha guarda e, como tal, espero que a minha família consiga manter os mesmos valores da minha geração

Quais os impactos mais visíveis do desaparecimento da família tradicional?
Infelizmente, a família está a diluir-se.
A velocidade imposta pela tecnologia quase não deixa tempo para: uma conversa de família; um serão em conjunto; uma refeição sem interferência electrónica; uma opinião isenta duma influência televisiva ou jornalística. Vive-se ao sabor da informação sobre o viver alheio e saboreia-se pouco o nosso próprio viver.

Qual a sua opinião sobre a forma como a sociedade está a evoluir?
Caminha, apressadamente, para uma sociedade mais virtual que real.

Que importância têm os amigos na sua vida?
Muita!

Para além da profissão, que actividades gosta de desenvolver no seu dia-a-dia?
Ler, ver TV e conversar. Também gosto duns banhos de mar. Ultimamente tenho faltado.

Que sonhos alimentou em criança?
Ser empresário, ter uma boa família e amar várias mulheres.

O que mais o incomoda nos outros?
A mentira gratuita.

Que características mais admira no sexo oposto?
Julgo que gosto de tudo no sexo oposto, até dos defeitos.

Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição?
Gosto muito. “Memórias de Adriano”.

Como se relaciona com o manancial de informação que inunda as redes sociais?
Muito mal.

Conseguia viver hoje sem telemóvel e internet? Quer explicar?
Vive-se de qualquer modo mas confesso que tudo seria mais difícil se todos os outros utilizassem esses meios e eu não.

Costuma ler jornais?
Só no avião.

O que pensa da politica? Gostava de ser um participante ativo?
É uma atividade indispensável. Alguém tem que a fazer mas, infelizmente, alguns políticos preferem o seu interesse pessoal ao do bem público. Hoje é tarde e seria certamente um elemento incómodo.

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Moderadamente. Sete dias depois (é o meu limite) já estou inquieto para me apanhar em casa. Gosto de todas. A Itália é que mais me fascina. Hoje, minha mulher e eu vamos partir para uns dias na Sardenha.

Quais são os seus gostos gastronómicos? E qual é o seu prato preferido?
A comida tradicional portuguesa. Não sou de má boca. Tanto aprecio uma lagosta como uma feijoada. O que vier, morre.

Que noticia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
Resolvida a questão da Síria da melhor maneira.

Se desempenhasse um cargo governativo descreva uma das medidas que tomaria?
Demitia-me.

Qual a máxima que o/a inspira?
Viver e deixar viver.

Em que Época histórica gostaria de ter vivido?
Na minha.

O dia 9 de Junho de 1975 para si é um dia marcante por ter sido um dos impulsionadores do 6 de Junho. Pode contar-nos a que horas surgiu a polícia em sua casa e de que forma o levaram? Foi para onde? Pode descrever todos os passos que deu? 
Apareceram cerca das quatro horas da manhã. Era uma secção de marinheiros, armados (em parvos), coitados. Levarem-me sobre escolta, em princípio para prestar declarações no Quartel General mas, na realidade, depositaram-me num navio da Armada que presta assistência aos faróis, o ‘Shultz Xavier’. Deixei-me levar. Interroguei-me: Afinal democracia era isto? 

Até que chegou o momento de embarcar para a Terceira com um grupo de açorianos para serem presos? Como é que foi? Recorda-se de quem embarcou consigo?
Quando cheguei ao navio já lá estavam todos os outros. Como fui o último, o navio zarpou imediatamente. Um oficial veio informar-nos que íamos para a Terceira onde ficaríamos hospedados no Monte Brasil para prestar declarações. Era suposto não haver instalações em Ponta Delgada. Depois serviram-nos um pequeno almoço e lá fomos como lastro.

Como passava os dias na prisão? E, como se sentiu no dia em que foi libertado?
A ler mas, sobretudo, preocupado com os meus negócios. Na altura, tinha mais de mil cabeças de gado nas minhas instalações, dezenas de empregados de construção civil e uma infinidade de pagamentos a fazer e decisões a tomar. É sempre bom ser livre.

Voltando um pouco atrás? Conte-nos o seu 6 de Junho de 1975. Envolveu-se na manifestação? Há quem diga que foi mesmo um dos mobilizadores?
A manifestação havia sido desmarcada mas, à cautela, eu tinha dias antes dependurado um bezerro numa árvore do Campo das Rezes. O Luís Fernando Cymbron e o Hermano Mota ajudaram-me nessa tarefa. Um cartaz aposto sobre o enforcado alertava para o fim da lavoura açoriana e eu na minha qualidade de co-fundador e Director da recém formada Associação Agrícola de São Miguel, misturado entre os lavradores, instigava-os a comparecerem na sede do Ex-Grémio da Lavoura para decidirmos o que fazer. Compareceram muitas dezenas de lavradores influentes que, imediatamente, resolveram que tinha de haver a manifestação. No dia seis lá estavam todos com muitos mais. Tive um modesto papel mas julgo que foi positivo.

Quais eram os objectivos da manifestação? Dirigentes regionais do PSD/Açores estavam por detrás desta movimentação?
Na realidade, a Associação tinha bastas razões para reclamar. Os preços do cimento, das rações, dos adubos, dos transportes, dos combustíveis, do próprio dinheiro, tudo subia, alguns destes produtos mesmo para o dobro. Só o leite se mantinha. Foi fácil convencer as pessoas. Claro que havia dirigentes do PSD e da própria FLA mas julgo que estariam na dúvida se chegaria ou não a haver a manifestação. Ela havia sido desconvocada.

Foram horas de muita tensão…?
Nem por isso. O ambiente político em Portugal era de tal bandalheira que tudo era permissível. Ou seriam só as esquerdas e os sindicatos a ter direito a exigir e a manifestar-se? Além disso o slogan revolucionário era claro: “o Povo é quem mais ordena”.

Se o objectivo era a independência dos Açores (e pelos vistos não foi a independência pela independência), a Região acabou por ter a actual Autonomia Político Administrativa. Qual a sua opinião sobre a Autonomia que os Açores têm?
Evidentemente que o objectivo não era a Independência dos Açores. Era, isso sim, um claro aviso de que, a continuar o país num descalabro a caminho do Comunismo, aliás bem instalado, os Açores saltariam fora. Para já, tínhamos que resolver os problemas económicos da Região e a semente estava lançada.

Tem algo mais a acrescentar que considere relevante no âmbito desta entrevista?
Sem a pressão da altura, nunca teria havido Junta Governativa, nem Estatuto Provisório nem coisíssima nenhuma. Os Açores passariam de Ilhas Adjacentes para a Província dos Açores e até as Juntas Gerais teriam desaparecido. Apesar de, pessoalmente, não ter colhido nenhum benefício económico da Autonomia, antes pelo contrário, não nego que os Açores têm conseguido um desenvolvimento social  notável e, sobretudo, uma atenção do Governo Central e da Comunidade Europeia que nunca teriam tido sem a sua Autonomia Política e Administrativa.

                                    

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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