Investigação científica foi desenvolvida nos Açores

Estudo comprova “relação importantíssima” entre cardumes de atum e tubarões-baleia no mar dos Açores

Através de uma análise dos dados recolhidos durante 20 anos pelo Programa de Observação das Pescas para os Açores (POPA), que desde o seu início procurou sempre recolher informações sobre as espécies que poderiam aparecer associadas à pesca do atum, comprovou-se a existência de uma “relação importantíssima entre os cardumes de atum e o tubarão-baleia”.
O projecto, levado a cabo pelo Okeanos, grupo de investigação marinha ligado à Universidade dos Açores com sede na Horta, ilha do Faial, permitiu igualmente concluir, de acordo com Jorge Fontes, que nos casos em que os cardumes de atum se fazem acompanhar pelos tubarões-baleia, as capturas de atum “são maiores” tal como o rendimento dos pescadores “quando dirigem o seu esforço para cardumes associados ao tubarão-baleia”.
Assim, segundo o investigador associado ao Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores, o projecto financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) permitiu concluir que é mais compensador “pescar cardumes de atum que estão associados ao tubarão-baleia” já que esta espécie “parece ter um efeito positivo para a pesca”.
No que diz respeito à composição dos cardumes, Jorge Fontes salienta que estes contêm, sobretudo bonitos de dimensões menores – quando em comparação com os cardumes que não estão associados ao tubarão em causa – o que poderá, no entanto, tornar os atuns mais vulneráveis à pesca, adianta, sendo por isso importante continuar a estudar a relação que existe entre estas duas espécies e a pesca.
Apesar dos 20 anos de dados que estiveram em análise para que se chegassem a conclusões sólidas quanto à relação que existe entre os cardumes de atum e os indivíduos de tubarão-baleia que passam pelos Açores, não é ainda claro quem acompanha quem, diz o investigador: “Ainda não é claro se são os atuns que seguem o tubarão-baleia, o contrário ou as duas coisas. Mas, de qualquer forma, o atum patudo e o bonito são as espécies que com maior frequência e em maior quantidade se associam os tubarões-baleia nos Açores”.
Independentemente de se apurar ou não quem procura a companhia de quem, Jorge Fontes adianta que esta é uma relação que os pescadores reconhecem como benéfica para a pesca, sendo o tubarão-baleia reconhecido, inclusive, como um “aliado” na captura destes peixes:  “Diria que os pescadores consideram os tubarões-baleia um aliado, uma vez que procuram activamente sinais da sua presença na perspectiva de os auxiliar na procura e no encontro de cardumes de peixes”, adianta.
Quanto à salvaguarda da espécie de tubarão que tem, ao longo dos tempos, demonstrado alguma assiduidade nos mares dos Açores, sendo localizada principalmente no largo da ilha de Santa Maria e dos montes submarinos ali existentes quando se reúnem as condições ideais, o investigador e especialista em Ecologia Marinha refere que “ao contrário do que acontece nas pescarias industriais em que são lançadas redes de cerco de forma intencional à volta dos tubarões-baleia associados aos cardumes de atum isto não acontece nos Açores”, onde a pesca é feita sobretudo com recurso ao salto e vara.
Assim sendo, e ao contrário do que ocorre noutros locais do planeta, no arquipélago “não existem relatos de capturas ou retenções de tubarão-baleia na pescaria”, indica o investigador ligado à Okeanos.
Porém, Jorge Fontes considera importante salientar que é necessário perceber os impactos que existirão a longo prazo na perturbação desta associação que é feita entre estas duas espécies de peixe, principalmente a médio e a longo prazo.
“Apesar de não haver captura acidental de tubarões-baleia é importante percebermos qual a importância dos cardumes de atum para os tubarões-baleia e de que forma é que a perturbação desta associação pode ou não ter ao produzir algum tipo de impacto a médio e longo prazo, já que no curto prazo não parece haver um efeito negativo”.
Por este e por outros motivos, continua assim a recolha de dados através do Programa de Observação das Pescas dos Açores, sendo este assim um “estudo que pode ser actualizado a qualquer momento” e cuja recolha de dados de forma contínua será “fundamental para que se possam analisar tendências de longo prazo e assim perceber melhor a dinâmica da presença e da associação de tubarão-baleia com os atuns e, consequentemente, com o seu efeito nas pescas e na pescaria do atum”.
Actualmente, para além da actualização de dados deste estudo que comprova a existência de uma relação benéfica para pesca do atum quando se detectam cardumes que seguem indivíduos desta espécie de tubarão, o investigador adianta que é feita a marcação de tubarões-baleia com transmissores de satélite sempre que possível.
Segundo Jorge Fontes, o objectivo deste estudo passa por conseguir “descrever melhor o comportamento destes animais enquanto estão nos Açores e, sobretudo, compreender como utilizam o Atlântico quando partem desta região rumo a latitudes mais baixas”.
Para além disto, o investigador do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores, salienta que seria também importante, e à semelhança de outros projectos desenvolvidos noutros países onde é também detectada a presença destes tubarões-baleia, desenvolver uma base de dados fotográfica que permitisse identificar os indivíduos que visitam os Açores e perceber se, por exemplo, regressam aos Açores frequentemente.
“Seguramente que a existência de uma base de dados fotográfica que permite identificar indivíduos na região permitiria conhecer melhor as suas ligações com outras áreas importantes para esta espécie, permitindo também encontrar a resposta para perguntas como “de onde vêm?” e “para onde vão?”, diz Jorge Fontes, considerando ainda que “todas as fontes de informação que nos permitam completar o puzzle da dinâmica das populações desta espécie icónica e ameaçada são importantes, incluindo a foto-identificação”.
Actualmente são também recolhidas informações como a temperatura da água e o estado do mar, uma vez que podem ser “variáveis importantes para percebermos este fenómeno”, considerando também que um estudo anteriormente realizado e já divulgado relacionou a abundância de tubarões-baleia no mar dos Açores e a temperatura da água, abundância esta que era mais rara em períodos anteriores ao ano de 2008.
 “Um trabalho anterior realizado por colegas e também com autores deste estudo veio demonstrar que os tubarões-baleia tinham uma presença rara nos anos anteriores a 2008. A partir de 2008, inclusive, houve um período em que a abundância destes tubarões cresceu exponencialmente essencialmente devido – ou associado – ao aumento da produtividade primária e da temperatura à superfície do mar”, diz o investigador.
De acordo com o que é sabido acerca deste tubarão, conhecido também por ser o maior peixe do mundo, este é, por norma, encontrado em águas abertas e tropicais com temperaturas superiores a 21 graus, podendo atingir os 20 metros de comprimento e um peso de 13 toneladas.
Mesmo sendo difícil calcular o tempo de vida útil de um indivíduo desta espécie, supõe-se que estes vivam cerca de 70 anos, sendo facilmente reconhecido pela sua boca de grandes dimensões. Apesar desta sua característica, este é um tubarão que se alimenta quase exclusivamente de plâncton não sendo, por isso, uma ameaça para os seres humanos. 
 

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