9 de junho de 2019

Diversidade agrícola

Gaspar Frutuoso foi um cronista que, no século XVI, produziu uma obra que ainda hoje pode ser considerada de referência para o entendimento da paisagem das ilhas macaronésicas, tendo como principal foco os arquipélagos dos Açores e da Madeira. Quando estava a fazer o doutoramento dediquei-me à leitura dos três volumes que dizem respeito aos Açores com o objetivo inicial de pesquisar todas as referências à vegetação natural presente em cada uma das ilhas no início do povoamento. No entanto, não pude deixar de me deliciar com as vividas descrições da paisagem, história e costumes da época, com o apurado espírito de observação e sentido crítico deste escritor que se inscreve no movimento renascentista da época, e com aquilo que talvez se possa já chamar alguma sensibilidade para as questões atualmente denominadas ecológicas, como a necessidade de preservação do solo e  da água, assim como da vegetação natural. 
Para uma caracterização da paisagem é também necessário o conhecimento da sua componente cultural pelo que, para além da vegetação natural, resolvi também pesquisar todas as referências às culturas agrícolas praticadas pelas primeiras gerações de açorianos e sempre que possível entender aquelas que eram praticadas para exportação de produtos. 
Em Santa Maria eram cultivados cereais como o trigo e a cevada, existia vinha, eram já cultivados melões e abóboras, e há também referência à cultura de pepinos e de mostarda. Foram cultivadas amoreiras para a produção de seda (que não teve sucesso) e existia a exploração de plantas tintureiras para exportação, como o pastel e a urzela. No que que diz respeito aos frutos são referidos figos, amoras, marmelos e maçãs. Foi cultivada cana de açúcar para exportação tanto em Santa Maria como em São Miguel, mas ao tempo das descrições do cronista esta cultura agrícola estava já a ser abandonada em Santa Maria por não se verificarem as condições ideais para a sua instalação. 
Para São Miguel para além das culturas anteriores há referência ao cultivo do centeio e do linho. Referem-se diversas culturas hortícolas, de entre as quais se pode destacar as cebolas e batatas, favas, ervilhas, lentilhas e tremoços. Eram cultivados vários citrinos, como laranjeiras, limoeiros, limas e cidra, e outras árvores de fruto como pessegueiros, damasqueiros, pereiras, romãzeiras, castanheiros e nogueiras. Foi mesmo ensaiada a plantação de cerejeiras. Na descrição da Terceira surge como novidade a presença de milho e de inhame, culturas agrícolas características do Novo Mundo. Há também referência a outras culturas agrícolas como grãos diversos, couves e nabos. O cultivo do castanheiro é uma vez mais referido.
No que diz respeito ao Faial, as culturas referidas pelo cronista são o trigo e o pastel (para exportação), mas também a cevada, o centeio, as abóboras e os melões. Há referência a laranjeiras, e Gaspar Frutuoso escreve que seria possível o cultivo da vinha, mas que esta não era plantada. Diz também que esta ilha tem pouca fruta, por não a plantarem, verificando-se já nesta altura dependência agrícola do exterior, nomeadamente da ilha do Pico. Para o Pico, Gaspar Frutuoso refere que o vinho é o melhor de todas as ilhas e é possível encontrar nas descrições desta ilha alguns dos frutos já referidos, como os figos e as maçãs. A leitura dos autores do passado pode-nos, por vezes, trazer ideias para o futuro. Seria interessante que algumas destas ideias pudessem dar fruto nas ilhas açorianas.

*FRUTUOSO, Gaspar - “Saudades da Terra” (158?). Livros III, IV e VI (edição de Instituto Cultural, Ponta Delgada, 1971, 1977-1981,1963, respetivamente).  

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Categorias: Opinião

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