Catarina Alves, escultora, e autora do busto em bronze de Natália Correia

“A minha escultura é essencialmente figurativa”

Correio dos Açores: Formada em Belas-Artes. Porque seguiste este curso? 
Catarina Alves: Sentia que o meu propósito era criar e, apesar de ter outros interesses para além das artes, foi em Belas-Artes Escultura que encontrei o meu caminho. 

Qual a escultura saída das tuas mãos que mais te envolveste pessoalmente? 
Realmente tenho algumas esculturas que me são especiais, mas gostava de destacar o busto em bronze da Natália Correia. Esta peça foi verdadeiramente especial, foi um processo longo mas que marcou o início da minha carreira de escultora, desde o processo de pesquisar e conhecer melhor a obra de Natália Correia, à fundição da peça me bronze que foi uma experiência única, passando pela modelação e a execução dos moldes, todo esse processo foi marcante no meu gosto pela figuração.

Fala-nos das portas da cidade de Ponta Delgada na cidade de Fall River. 
Já lá vão quase 15 anos... A minha intervenção nessa obra foi a execução dos brasões e das coroas. Tinha terminado o curso tinha pouco tempo e a minha oficina era ao ar livre, junto à garagem na casa de meus pais. O meu trabalho foi dividido em duas fases, primeira fase com os brasões das duas cidades e uma segunda fase com a coroas. Nesta última fase tive ajuda para o desbastar as pedras, foi realmente um trabalho muito exigente pois trataram-se de duas coroas com cerca de um metro de altura. Foi um grande desafio para mim estar envolvida num projeto daquela dimensão e ao mesmo tempo gratificante. Depois fui a Fall River para a montagem e inauguração das Portas da Cidade e foi muito bom estar lá presente, sentir a admiração das pessoas pelo meu trabalho. 

Como descreves o busto de Natália Correia patente no Centro de Estudos na Fajã de Baixo? 
O busto de Natália Correia é uma peça em bronze com certa de 50cm de altura, um busto de grande dimensão, representativo da personalidade de Natália Correia. Tentei representa-lá com o seu ar imponente, mas pensativa como se olhasse a vastidão do mar. Tive como base diversas fotos, de diferentes fases da vida dela, de modo a poder retratar além da sua fisionomia. 

Qual o material que mais gostas de usar nas tuas obras criativas? 
O meu material de eleição é sem duvida a pedra em especial o ignímbrito ( rocha vulcânica), que para além da escultura utilizo na minha bijuteria. No entanto, mais recentemente tenho vindo a fazer experiências com diferentes materiais como o papel, o vidro e o plástico, pois preocupa-me muito a nossa situação ambiental e acredito que estes resíduos têm um potencial enorme nas artes plásticas. 

O troféu da Gala do Desporto de Ponta Delgada foi concebido por ti. Qual o seu significado? 
Desde a primeira Gala do Desporto promovida pela Câmara Municipal de Ponta Delgada que tenho criado os troféus a ser entregues aos galardoados. Todos os anos tenho a liberdade criativa para conceber e executar uma peça diferente que seja representativa do Desporto e da cidade de Ponta Delgada. Já lá vão cinco galas, já lá vão cinco peças, todas diferentes, privilegiando o uso da nossa rocha vulcânica, executadas manualmente, tornando cada uma delas uma peça única. 

“A Bordadeira” na Casa do Arcano é uma obra muito apreciada e realista. Porque usaste o papel para aquela escultura? 
Como já referi, tenho pensado muito sobre os problemas ambientais e na plasticidade dos materiais recicláveis. Nesse caso foi o papel, um material muito frágil, mas que ao juntar água e cola e depois de seco torna-se forte e resistente. Para além disso a patine usada cria a ilusão que se tratar de uma peça em bronze e acho interessante essa dicotomia entre o leve e o pesado. 

Como apareceu o Grupo Arte Viva? 
Não lhe sei precisar, pois não faço parte do grupo fundador. Este grupo foi criado pelo Martim Cymbron e acho que foi no sentido de poder reunir os artistas, na sua maioria auto-didactas, e dar a conhecer os seus trabalhos tanto à sociedade em geral como entre si. Acho que ingressei no grupo há uns 9 ou 10 anos. 

Quais as suas actividades? 
Este grupo participa em diversos eventos culturais onde os artistas estão a trabalhar ao vivo nas suas pinturas, desenhos e esculturas. Pessoalmente tenho falhado os últimos eventos, desde que fui mãe que o meu tempo tomou outra forma. 

A marca Pedras de Lava já é uma referência na bijuteria açoriana. Fala-nos deste teu trabalho. 
Não tinha a noção que a minha marca já era uma referência na bijuteria açoriana, não diria tanto, mas dizem-me muitas vezes que já ouviram falar no nome “Pedras de Lava” e também tenho visto algumas mulheres com as minhas peças, é uma sensação espectacular. Criar acessórios sempre foi uma das minhas paixões, foi no ano de 2009 que comecei a dedicar-me mais seriamente à bijuteria, utilizando pequenas pedrinhas que trazia da Ferraria, pois a pedra é outra das minhas paixões, daí o nome “Pedras de Lava”. Criei os meus acessórios para o dia do meu casamento, com arame e essas pequenas pedrinhas, o tufo mais conhecido por “cascalhos”, depois passei por várias fases, criei peças inspiradas nos bordados e rendas regionais, inspiraras nos tapetes de trança, nas escamas, na reutilização de materiais como rolhas e cápsulas de café, mas sempre com a pedra em destaque. Passados 10 anos continuo a dar destaque à pedra, a nossa rocha vulcânica, aos materiais que nos caracterizam e cada vez mais tenho aplicado a minha experiência como escultora na concepção e criação das minhas bijuterias. Teria muito mais a desenvolver, mas apenas quero acrescentar que sempre foi a minha intenção criar uma bijuteria diferente das demais bijuterias com basalto, cada peça é pensada e criada de forma a respeitar a natureza de cada material utilizado, pois para mim é muito importante a questão da sustentabilidade.

Que meios tens usado para divulgar o teu trabalho?
Divulgo o meu trabalho nas redes sociais como o Facebook e Instagram, também estou a terminar de criar o meu site “Pedras de Lava” para a divulgação e venda da bijuteria, para além de ter peças de bijuteria na loja “Lá Bamba”, em Ponta Delgada. 

É difícil viver da escultura nos Açores? 
Vivemos tempos difíceis em quase todo o lado, mas penso que já tivemos um cenário pior relativamente às artes. Sempre foi difícil viver das artes e em especial da escultura por ser uma expressão artística mais complexa e que requer um espaço adequado, diferente duma pintura. Facto é que a nossa sociedade está a mudar, a cidade de P. Delgada, por exemplo, está mais cosmopolita, mais interessante, temos mais gente criativa a viver e a criar nos Açores. Acho que é um sinal de mudança positiva. No meu caso específico, desde o ano passado que tenho vindo a dedicar-me intensamente à escultura e à bijuteria, tenho sobrevivido, mas estou muito longe de poder viver da escultura, pois tive um período da minha vida em que deixei de investir na minha carreira, primeiro por motivos inexplicáveis, depois com a maternidade. Foi sem dúvida a maternidade o ponto determinante para me reafirmar enquanto artista, passado o primeiro ano de vida da minha filha decidi que teria de ganhar forças para ultrapassar todas as adversidades desta profissão, pois não temos nada sem sofre, mas também não somos nada sem sonhar.
Os turistas consideram que faltam obras de arte espalhadas pela cidade. O que achas desta constatação?
É interessante saber disso. Ao olharmos bem para a nossa cidade, podemos ver que temos alguma estatuária espalhada pela cidade com mais ou menos visibilidade, creio que apenas duas esculturas públicas e algumas pinturas murais, realmente faltam obras de arte a habitar a nossa cidade, mas obras que sejam testemunho da era em que vivemos. Mas também penso que não nos devemos moldar para o gosto dos turistas, principalmente turistas habituados a grandes cidades, esses vem cá uma semana de férias, mas nós é que cá vivemos e devemos aceitar que temos uma cidade relativamente pequena mas que somos muito ricos pela ligação que temos com a nossa Natureza coisa que não se vê em muitas cidades. Temos que ir equilibrando a balança. 

Como se poderá “humanizar” as nossas ilhas com esculturas? 
Uma questão pertinente e que poderia dar origem a vários pensamentos. “Humanizar” no sentido de dar vida às ilhas através da escultura, no sentido de habitar as nossas ilhas com esculturas, seria interessante pensar neste sentido. 
Realmente uma escultura, seja ela o que for, integra-se no meio onde está implantada e, por ocupar o espaço físico das três dimensões, poderá criar a ilusão de ser, de existir para além da sua condição de objecto artístico. Ao pensar as nossas ilhas, na nossa realidade enquanto arquipélago de nove ilhas rodeavas de mar, todas com as suas especificidades e pensar também que nas nossas ilhas prevalece a Natureza e espaços desabitados, seria pertinente e até mesmo arrojado habitar/ humanizar estes campos verdes e as baias com esculturas sejam elas o que forem. Se fossem obras minhas talvez seriam representações figurativas da mulher, da mulher açoriana.

Onde vais buscar a tua inspiração?
A minha escultura é essencialmente figurativa, inspiro-me nas pessoas que vejo, nos seus gestos nos seus trajes, inspiro-me na Natureza que me envolve. E muita das vezes não busco a inspiração porque quando esculpo um bloco de pedra esta já contem em si o que quer ser, o meu trabalho é apenas retirar a pedra que está a mais. 

Que artistas mais te marcaram na tua carreira? 
Sem dúvida que foi Canto da Maya com as suas esculturas delicadas em terracota, que sempre me fascinaram, e mais tarde João Cutileito com as suas esculturas irreverentes em pedra. 

Porque regressaste aos Açores, depois da tua formação na Faculdade de Belas Artes de Lisboa? 
Sempre tive essa ideia de regressar à minha terra e retribuir à minha comunidade. Tinha alguns projectos em mente, consegui realizar alguns, outros ficaram por concretizar e nunca saíram da gaveta mas tudo faz parte da minha experiência de vida. 

As pessoas visitam o teu atelier? 
Sim, tenho algumas pessoas que pedem para visitar o atelier, também já promovi algumas actividades no meu atelier. Gosto de receber visitas e mostrar o meu trabalho. 
     

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